O aumento da insegurança da navegação portuguesa na Insulíndia, que ocorreu grosso modo na segunda metade do século XVI, correspondeu à reorganização das estruturas comerciais asiáticas rivais das portuguesas, articulada com causas políticas. De um modo geral, pode-se afirmar que Malaca nunca conseguiu manter integralmente o papel que desempenhara nos tempos do sultanato malaio. Pelo contrário, o que antes estava concentrado num grande empório comercial pulverizou-se após 1511, tendo surgido gradualmente, à medida que o efeito-surpresa da chegada dos portugueses ao Índico se desvanecia e que as redes comerciais asiáticas se recompunham, novos centros que disputavam a Malaca o acesso e o controle sobre rotas e produtos.

A ascensão do sultanato de Achém, que havia anteriormente impedido os portugueses de se abastecerem da pimenta dessa ilha, passou a tomar a forma de um expansionismo comercial e político hostil às estruturas do Estado da Índia. Ali se refugiara a poderosa comunidade guzerate após a conquista de Malaca em 1511. Assim, o Achém passou a exportar directamente a pimenta de Samatra, cuja produção tentava a todo o custo controlar, para o Índico Ocidental, rivalizando com os fluxos portugueses. Em Java, no Maluco, em Banda, os achéns acirravam a animosidade local contra os portugueses, tirando partido tanto dos abusos cometidos pelos capitães como, e sobretudo, do processo de islamização em curso, que rivalizava com as iniciativas missionárias, introduzindo assim o elemento religioso num processo de competição essencialmente económica.

Havia ainda que contar com Johor, herdeiro da linhagem do sultanato malaio de Malaca que, detentor de um assinalável capital de prestígio junto dos restantes sultanatos malaios, era também um importante rival comercial de Malaca, estendendo a sua influência para leste, junto dos reinos muçulmanos da Insulíndia Oriental. Papel importante neste processo era igualmente desempenhado pelos sultanatos de Sunda (na parte ocidental de Java), sobretudo Banten, que se tornou na mais importante base comercial dos mercadores chineses e logrou, a partir de 1567, reactivar o comércio pimenteiro para a China, quando a dinastia Ming abriu de novo os seus portos ao exterior. Manila, Macassar, Bornéu ou os portos javaneses são outros exemplos de cidades responsáveis por esta dispersão da capacidade de atracção das diversas comunidades mercantis (incluindo a portuguesa) que operavam na região.

Nas últimas décadas do século, os portugueses perderam definitivamente o controle dos tráficos do Arquipélago Oriental. A revolta de Ternate, na década de 1570, e a consequente expulsão dos portugueses da ilha, apesar do posterior estabelecimento na vizinha Tidore, desorganizou de vez o controle que ainda ia sendo possível estabelecer sobre as ilhas das especiarias (5). O cravo que chegava a Malaca ficou praticamente nas mãos dos javaneses, que a continuaram a canalizar, em boa parte, para a cidade, embora com oscilações, consoante as pressões que sofriam por parte dos capitães portugueses. A riqueza de Malaca passou todavia a assentar noutros vectores, que permitiram, pelo menos em parte, compensar as perdas nos tratos do cravo e noz: o comércio com a China e o Japão e uma multiplicidade de outros tráficos, de pequeno e longo curso, que continuava a cruzar os Estreitos.

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(5) Cf. Manuel Lobato, Política e Comércio dos Portugueses no Mundo Malaio-Indonésio (1575-1605). Disseração de Mestrado, Univ. Nova de Lisboa, 1993, pp. 72-84.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. “Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas” In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

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