6. A queda de Malaca

Quando os holandeses chegaram às águas da Insulíndia, nos finais do século XVI, Malaca vivia um período de alguma tranquilidade, encontrando-se numa posição ascendente sobre os seus velhos rivais de Johor e Achém. Contudo, este panorama viria a alterar-se rapidamente. A competição anglo-holandesa ao Império Habsburgo encontrara no Índico um novo e proveitoso espaço de disputa. Inicialmente tímidas e algo desajeitadas, as expedições inglesas e holandesas viriam a crescer em número, agressividade e ousadia, passando de simples viagens de reconhecimento a iniciativas depredatórias à navegação portuguesa e, posteriormente, ao assalto das próprias fortalezas.

Enquanto os ingleses preferiram o Índico Ocidental, os holandeses elegeram a Insulíndia como alvo principal de fixação. A primeira viagem, realizada em 1596, a Java, foi um relativo fracasso, tal como a segunda, dois anos mais tarde, ao Achém. A perseverança dos armadores neerlandeses acabaria, contudo, por ser proveitosa. Em 1603, o ataque à nau Santa Catarina, carregada de mercadorias chinesas, no rio de Johor, foi o ponto de viragem: por um lado, mostrou que a fase de reconhecimento findara, e que doravante a navegação portuguesa corria sérios riscos; por outro, a venda do respectivo espólio rendeu nos Países Baixos uma verdadeira fortuna, desvanecendo as dúvidas dos armadores holandeses que hesitavam na viabilidade das viagens ao Oriente. Três anos mais tarde, a pujança do poderio holandês permitia-se um ataque directo a Malaca, cujo fracasso não deixou de constituir um amargo revés para os portugueses, pois saldou-se pela destruição, por obra da artilharia holandesa, da incompetência do vice-rei e da desorganização militar portuguesa, da mais formidável frota alguma vez formada no Índico.

Durante as décadas seguintes, Malaca não sofreu mais investidas por parte dos holandeses. Estes sentiram que o ataque frontal a uma cidade que lentamente se transformava num baluarte inexpugnável era um desperdício de recursos. Pelo contrário, o que lhes interessava era retirar a Malaca o seu papel de entreposto, esvaziando-a da sua antiga função de nó comercial. Inicialmente, limitaram-se a competir com os portugueses, navegando em direitura de Madagáscar para o Estreito de Sunda, evitando assim as armadas inimigas. Como noutros aspectos, isto foi apenas uma etapa inicial. Mediante uma rede de feitorias em diversos pontos do Arquipélago, nomeadamente em Samatra, Sunda, Java, Banda, Maluco e Bornéu, onde tinham acesso aos respectivos produtos, e uma base na costa do Coromandel (Pulicat), onde obtinham os tecidos necessários para os comprar, os holandeses acabaram por criar uma rede mercantil alternativa da portuguesa. Devidamente sustentada por uma marinha poderosa que foi gradualmente ganhando o domínio das principais rotas, esta rede mercantil relegava para segundo plano Malaca e as suas ligações comerciais. Em 1619, os holandeses fixavam-se em Batávia (Jakarta), não muito longe de Malaca, tornando irreversível a asfixia da cidade.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. “Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas” In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

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