Abril 2009


Explorador no Brasil (século XVII). Capitão do Exército, em 1669, por ordem do governador-geral do Pará, iniciou a construção da Fortaleza de São José da Barra ou Forte da Barra, tendo em vista a defesa da região dos ataques de holandeses e espanhóis. O povoado que se desenvolveu em volta do posto militar, localizado na margem esquerda do rio Negro, foi sucessivamente apelidado de Lugar da Barra, Vila da Barra, Cidade da Barra do Rio Negro e, por fim, em 1856, recebeu o nome de Manaus. Sabe-se ainda que, em 1672, chefiou um grupo de colonos do Maranhão, subindo o rio Tocantins com o intuito de afastar os bandeirantes do território.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Anúncios

MATIAS DE ALBUQUERQUE – A Vida de um Fidalgo-Guerreiro na Índia

Para estudarmos a História dos portugueses no Oriente no período dos Descobrimentos necessitamos de compreender um pouco a forma como funcionava a “carreira militar”, digamos assim, dos homens que partiam para a Índia. A vida de Matias de Albuquerque constitui um bom exemplo do nobre guerreiro típico, que passou toda a sua vida no Oriente ao serviço de El-Rei de Portugal. A partida numa armada para a Índia era uma uma boa oportunidade para prestar serviços, conseguir mercês do rei, ou mais simplesmente fazer fortuna. No caso de um elemento da alta nobreza, como o presente caso, era uma forma de conseguir tudo isto. Foi de facto, o que conseguiu Matias de Albuquerque, que conseguiu aliás atingir o topo da hierarquia do Estado, mas que não deixou de ser atingido pelas contingências da sua própria carreira.

Matias de Albuquerque nasceu em Lisboa em 1547, de família da alta nobreza (o famoso Afonso de Albuquerque era seu tio-avô). Cerca de 1559 entra ao serviço do rei D. Sebastião, tendo sido educado como convinha a um fidalgo. Aos 19 anos parte como soldado para a Índia. Recebeu o seu baptismo de fogo numa expedição marítima no Malabar, na costa ocidental indiana, comandada por Álvaro Pais de Souto Maior, tendo aí prestado os seus primeiros serviços. Logo aqui se revelou um excelente soldado, bom organizador e comandante militar. Esta era uma característima essencial na vida militar de então, sobretudo no Oriente, onde o papel do vigor pessoal dos capitães tinha muitas vezes um efeito decisivo no desfecho de uma batalha. Nos anos seguintes Matias de Albuquerque prestou serviços em diversas regiões do Estado da Índia, nomeadamente em Damão, Goa, Chalé e Cochim. Em 1572, com apenas 25 anos de idade, Matias de Albuquerque recebe os primeiros louvores por parte do rei, que lhe reconheceu os serviços, sendo-lhe concedida a capitania da fortaleza de Ormuz, no Golfo Pérsico. Esta era uma das mais ricas e rendosas fortalezas do Oriente, pelo que a sua atribuição a Matias de Albuquerque revela quer a sua origem nobre, quer a qualidade dos serviços prestados. Porém, apenas exercerá este cargo mais tarde.

Em 1574, ao que parece devido a doença, Matias de Albuquerque regressou a Portugal, sendo recebido por D. Sebastião em Almeirim. Aqui prosseguiu a vida militar, tendo prestado serviço em Almada e no Algarve.

Em 1575 o nosso homem regressa á Índia, desta vez com um cargo de maior responsabilidade: capitão de uma armada que parte directamente de Lisboa a socorrer a fortaleza portuguesa de Malaca. Esta era uma das praças mais importantes do Estado da Índia e a chave da presença portuguesa no Extremo Oriente, nomeadamente do rico comércio com a China e o Japão, e encontrava-se seriamente ameaçada pelas forças do sultanato de Achém, tradicional inimigo dos portugueses. A situação era difícil, e o próprio facto de ter sido enviada uma armada directamente de Lisboa é um bom indicador da sua gravidade. Porém, Matias de Albuquerque foi bem sucedido na sua empresa, conseguindo afastar a ameaça que pairava sobre Malaca e garantir novamente a segurança na região para a navegação portuguesa. O êxito desta missão abriu-lhe novas portas: chegado a Goa, que era o centro da administração de todo o Estado da Índia (que ía de Moçambique ao Japão) foi nomeado comandante da armada de patrulhamento da costa do Malabar (1580-1584), após o que, por fim, entrou na capitania de Ormuz, para a qual tinha sido anteriormente nomeado. Aqui procedeu aos trabalhos de reparação da fortaleza, que se encontrava em mau estado, tendo inclusivamente mandado construir grandes cisternas. Foi este período uma época de pausa na sua vida de guerreiro, continuada com a decisão de voltar novamente a Portugal, o que faz em 1588.

Após voltar novamente a Portugal, onde casou e defendeu Lisboa dos ataques do famoso corsário inglês Francis Drake (em 1589), Matias de Albuquerque foi, finalmente, designado para o mais alto cargo na Índia: o de vice-rei. Partiu então de Lisboa em 1590 para ocupar o cargo, que exerceu entre 1591 e 1597, seis anos portanto, o dobro do tempo habitual que era geralmente exercido por um vice-rei. Aqui, Matias de Albuquerque aplicou todas as suas capacidades de organização e comando para resolver os grandes problemas com que os portugueses se confrontavam, cada vez com maior gravidade. Estes resultavam quer do gravamento geral da situação do Estado da Índia, quer da má gestão e erros cometidos por vice-reis e governadores anteriores. Os principais problemas diziam respeito á má situação financeira, á corrupção generalizada e situação preocupante quer do estado das armadas e das fortalezas, que da própria carência de soldados.

A sua principal e primeira preocupação foi a de mandar fortificar imediatamente as fortalezas, assim como enviar socorros militares ás que corriam maiores riscos. Também reorganizou o aparelho fiscal e da justiça e governou com a prudência e o rigor que se tornavam cada vez mais necessários. É evidente que não foi isento de defeitos e de suscitar inimizades, sobretudo por parte dos jesuítas e da Inquisição. Estas inimizades resultavam sobretudo da sua acção contra a corrupção e o clientelismo, o que desagradava evidentemente a parte da gente que rodeava o vice-rei, quer funcionários quer fidalgos.

Em 1597 regressa a Portugal, mas a sua partida foi marcada por um episódio grave: estando prestes a partir, uma das naus pegou fogo, perdendo assim uma parte considerável dos bens e da sua riqueza, que esperava enviar com destino a Portugal. Regressado ao reino, recolheu-se á sua quinta de Santo Amaro, mas as inimizaes que havia criado provocaram-lhe graves problemas. Acabou por ser preso, mercê da campanha que lhe moveram os seus inimigos, mas conseguiu livrar-se de todas as acusações.

Assim, Matias de Albuquerque constitui um modelo exemplar do nobre guerreiro do século XVI, como homem de armas e notável chefe, autor de importantes decisões e empresas numa época de crise crescente para o Estado da Índia, e é simultaneamente o exemplo acabado da carreira militar bem sucedida, desde soldado até vice-rei.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Viajante castelhano (século XVI). Embrenhou-se no sertão brasileiro em busca de minas. Julga-se que foi durante a expedição iniciada em Julho de 1553 que foi atingido pela primeira vez o estado de Minas Gerais. Apesar de virem a ser descobertas em Minas Gerais várias jazidas de ouro e de diamantes, já nos séculos seguintes, esta viagem parece não ter tido resultados concretos a este nível.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

OS PORTUGUESES EM MARROCOS NO SÉCULO XVI

Como ficou visto anteriormente, o interesse português por Marrocos e pelo Norte de África não foi permanente nem contínuo. É verdade que a conquista de Ceuta constituiu o arranque dos Descobrimentos, e que os portugueses acabaram por tomar uma série de praças marroquinas ao mesmo tempo que avançavam ao longo da costa da Guiné e promoviam a colonização da Madeira, Açores, Cabo verde e São Tomé. No entanto, no final do século XV, Marrocos era uma mera peça num tabuleiro que agora se estendia á Índia o ao Brasil. Vamos hoje falar acerca do que aconteceu nos séculos seguintes, desde o reinado de D. Manuel até ao fim da presença portuguesa em Marrocos.

O reinado de D. Mauel marca o apogeu da presença portuguesa em Marrocos. Foi nesta época que os portugueses mais directamente interferiram na política interna marroquina. Na continuação da política de D. João II, o interesse português centrava-se cada vez mais no Sul de Marrocos, e já não nas praças do Norte, junto ao Estreito de Gibraltar. Era no Sul que se localizava a rica região produtora de cereais e onde se obtinham os produtos para o comércio português na Guiné. Os portugueses abrem uma feitoria em Meça, e mais tarde constroem o castelo de Agadir. Porém, ao contrário de D. João II, foram feitas conquistas: primeiro Safim, depois Azamor e Mazagão, Mogador e Aguz. Outras tentativas falharam, nomeadamente as expedições contra Mamora, Casablanca, Tetuão e Marrakesh.

Um dos aspectos mais interessantes da política de D. Manuel é o estabelecimento de uma zona de influência portuguesa na Meseta marroquina, cujos habitantes se tornam aliados dos portugueses: são os chamados “mouros de pazes”. O plano de D. Manuel era o de cerco ao reino de Fez, o que conseguiu até certa altura mediante as posições conquistadas que referimos há pouco. Porém, o fracasso da expedição contra Mamora, ocorrido em 1515, comprometeu tais planos e impediu o movimento seguinte, que seria certamente o ataque directo a Fez. Nesta expedição morreram cerca de 4000 portugueses, o que foi uma séria derrota para os planos do rei português. Esta data marca, assim, o abrandamento da ofensiva em Marrocos, que nunca mais foi retomada. Já se anunciava o recuo que se seguiria. Com a morte de D. Manuel em 1521, encerra-se este período de forte interferência em Marrocos, e inicia-se a decadência da presença portuguesa nesta região.

Uma das características mais importantes da presença portuguesa em Marrocos, por vezes esquecida, é que o maior ou menor interesse por esta região variava igualmente consoante as condições políticas locais. Em primeiro lugar, Marrocos não era um reino unitário, como hoje em dia. Havia uma capital principal, Fez, mas na realidade diversas regiões, como a cidade de Marrakesh, eram autónomas, sobretudo quando o poder de Fez se encontrava enfraquecido. A população marroquina era heterogénea, sem uma forte identidade nacional; havia frequentes guerras civis e perturbações internas; diversos grupos sucediam-se no poder político, variando assim a oposição à presença portuguesa. A “jihad”, ou guerra santa, uma das bases do Islão, era teoricamente um apelo unânime à luta contra os portugueses, mas a realidade demonstrava que algumas dinastias não sentiam este apelo religioso, o que facilitou a penetração portuguesa até à década de 1520.

Por esta altura, este cenário altera-se profundamente. As interferências portuguesas, sobretudo o ataque directo a Marrakesh em 1514 faz despertar uma forte reacção anti-portuguesa e anti-cristã, que despoleta a “jihad” proclamada por diversos chefes religiosos por todo o Marrocos, que conseguem aglutinar em torno de si largos sectores da população. Deste modo, levanta-se uma onda anti-portuguesa que acaba por destronar os sultões reinantes, acusados de corrupção e fraqueza face à interferência estrangeira, isto é, dos portugueses. Este movimento culminará em 1549 com o estabelecimento da dinastia saádida, aguerrida e intolerante para com os cristãos.

Assim, o reinado de D. João III é marcado pelo agravamento das condições em Marrocos. O próprio rei não estava interessado em prosseguir a política do seu pai, considerando que apenas trazia despesas ao reino sem quaisquer resultados práticos. É preciso não esquecer que as dificuldades económicas cresciam igualmente na Índia, pelo que se sentia a necessidade de racionalizar os recursos e reorganizar o Império. Deste modo, D. João III pensou abandonar diversas praças, mantendo apenas aquelas de maior importância estratégica. Esta medida foi muito contestada, tendo muitos elementos da corte manifestado oposição a tal eventualidade. O rei pediu autorização ao Papa para abandonar Safim e Azamor, o que foi feito em 1541 após a perda de Agadir. Os portugueses viriam ainda a abandonat Arzila e Alcácer-Ceguer, alguns anos mais tarde.

Após o reinado de D. João III, sentia-se por todo o país um clima de insatisfação face ao estado a que chegara o Império Português, com o agravamento da situação financeira da Índia. Surgiam propostas alternativas de expansão, a mais importante das quais era a que previa a transferência do interesse português da Índia para o Atlântico. Aqui se localizavam as mais promissoras possessões portuguesas, África e sobretudo o Brasil, ao contrário da Índia, demasiado longínqua e dispendiosa para os difíceis tempos que se avizinhavam. O abandono de Marrocos suscitara, como vimos, forte oposição interna. Com a subida ao trono do jovem D. Sebastião, dado às aventuras guerreiras e ao espírito cavaleiresco, estava assim preparado o cenário para um regresso a Marrocos. O próprio rei estava pessoalmente empenhado nesta empresa, aguardando apenas uma oportunidade para intervir. Em 1474-75 fez uma primeira incursão em Marrocos, tendo para tal obtido uma bula de cruzada. Tudo se encaminhava, assim, para Alcácer-Quibir.

Por esta altura, a política interna marroquina era marcada pelo avanço dos turcos no Norte de África. Um rei marroquino, Mulei Mafamede, deparou com uma forte oposição do seu sobrinho, Mulei Maluco, apoiado pelos turcos. Estando assim iminente um estado de guerra civil, D. Sebastião aproveitou para intervir ao lado do sultão ameaçado, obtendo assim um bom pretexto para orgabizar uma expedição que retomaria, pensava-se, o domínio português na região. Como é sabido, o rei estava redondamente enganado. Sem ligar às dificuldades de organização do exército, parte ele próprio à frente de uma pequena força que desembarca em Marrocos e acabaria por ser destruída, como é sabido, em Alcácer-Quibir, tendo o próprio D. Sebastião desaparecido no desastre, como conta um cronista:

“Cristovão de Moura, ficando só com El-Rei, foram cercados de grande quantidade de mouros. Um mouro velho, de cima do cavalo em que estava, abrindo caminho por entre os outros mouros, se chegou a El-Rei que já estava em prisão sem nada na cabeça, e lhe derrubou a sobrancelha direita e deu com ele do cavalo abaixo; e os outros mouros se sevaram nele dando-lhe outras na cabeça e pela garganta com que o acabaram de o matar.”

Assim terminou a última empresa marroquina portuguesa. Restavam três praças nas mãos dos portugueses, que uma após outra acabaram por se perder. A primeira foi Ceuta. Quando em 1640 é aclamado D. João IV e se inicia o período da Restauração, foram enviados mensageiros para todas as possessões portuguesas. O capitão de Ceuta recusou-se a jurar fidelidade ao novo rei, mantendo-se fiel ao rei espanhol. Portugal aceitou posteriormente a perda de Ceuta nos tratados de paz que puseram fim à guerra entre os dois países. Em 1658 foi a vez de Tânger, que foi dada aos ingleses como parte do dote de casamento (em conjunto com Bombaim, na Índia) da princesa D. Catarina com o rei de Inglaterra Carlos II. Finalmente, em 1769, e devido ao crescimento das dificuldades de manutenção da última cidade, Mazagão, o Marquês de Pombal ordena o seu abandono, tendo-se procedido à sua evacuação e á sua entrega ao rei de Fez.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Mestre de obras (século XVI). Cavaleiro da Casa Real, fixou residência no Brasil de 1549 a 1553. D. João III, a 14 de Janeiro de 1549, nomeou-o mestre das obras da cidade que Tomé de Sousa pretendia fundar na Baía, sob a sugestão do arquitecto Miguel de Arruda. Foi o construtor das primeiras casas e fortificações da localidade que veio a ser capital do Brasil.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

OS PORTUGUESES EM MARROCOS NO SÉCULO XV

Durante mais de trezentos anos, mais concretamente entre 1415 e 1769, Portugal teve possessões no Norte de África. Isto mostra que Marrocos acompanhou toda a época dos Descobrimentos, desde os seus primórdios até aos meados do século XVIII. O interesse português por esta região teve, de facto, altos e baixos, épocas de grande empenho e alturas de desinteresse, ao mesmo tempo em que se explorava a costa africana e se colonizavam os arquipélagos atlânticos, em que chegava à Índia e se descobria o Brasil, em que Portugal perdia e depois recuperava a sua independência. Vamos falar, hoje e na próxima semana, deste percurso da presença portuguesa em Marrocos e das suas principais etapas.

O primeiro grande marco que assinala o início da expansão portuguesa teve lugar em Marrocos. Trata-se, como é bem sabido, da conquista de Ceuta, que ocorreu em 1415. No entanto, o interesse português, ou europeu na generalidade, pelo Norte de África é bem anterior. É preciso compreender que, na mentalidade europeia do século XV, se considerava Marrocos como o prolongamento natural da Península Ibérica, estando ambas as regiões ligadas por antigas e fortes raízes geográficas, culturais e económicas. No entanto, havia uma separação, uma inimizade radical: a Europa era cristã, e Marrocos muçulmano. Mas aqui sabia-se que o Norte de África havia, muito tempo atrás, sido cristão. No século XV, já não restava território muçulmano em Portugal; a chamada “Reconquista” havia terminado há mais de cem anos, mas entendia-se que o esforço de recuperar o antigo território para a Cristandade bem podia estender-se para lá do Estreito de Gibraltar. Havia ainda um reino muçulmano na Península, o reino de Granada, mas os castelhanos não aceitariam uma interferência portuguesa no que consideravam ser território seu a conquistar a curto prazo. Só o fariam, no entanto, em 1492.

Em Portugal haviam assim uma predisposição latente para continuar o avanço para Sul. O momento para tal só surgiu, porém, em 1415. Quais os motivos que levaram os portugueses a tal acto, e porquê só nesta data? As razões são múltiplas. Em primeiro lugar, Portugal havia saído de uma longa guerra com Castela, onde assegurou a sua independência, com uma nova dinastia, a do Mestre de Avis, agora D. João I, e uma nova classe dirigente e aguerrida. Após a assinatura da paz com os castelhanos, em 1411, sentia-se a necessidade de agir no sentido de valorizar Portugal aos olhos de toda a Cristandade, e igualmente impôr algum respeito aos nossos vizinhos. Para tal, nada melhor do que tomar uma cidade muçulmana, o que era, aliás, abençoado pelo Papa e celebrado por toda a Europa. Uma vez que Castela vedava o acesso a Granada, Marrocos era a melhor escolha.

Por esta altura, havia uma concordância quase total em conquistar Ceuta, desde ao rei aos infantes, da nobreza á burguesia de Lisboa. Sendo Ceuta uma rica cidade, onde afluíam diversas mercadorias de todo o Mundo Muçulmano, era uma boa oportunidade para obter uma rica presa e tentar lucrar futuramente com tal conquista. Aliás, o domínio da cidade seria uma posição estratégica importante no Estreito de Gibraltar, que dominava a entrada do Mediterrâneo, permitindo combater a pirataria moura na região e abrir o acesso a uma região rica em recursos, desde as pescas ao comércio do ouro, do açúcar e dos cereais do Sul de Marrocos.

Após a conquista da cidade, os portugueses cedo se aperceberam que uma coisa era tomar Ceuta, outra bem mais difícil era mantê-la em mãos portuguesas. A cidade passou a estar periodicamente cercada, obrigando ao envio permanente de tropas e mantimentos. Esta inesperada resistência e hostilidade aos portugueses impedia o que se julgava bem mais fácil, isto é, o prosseguimento da conquista de Marrocos que muitos advogavam. Assim, uma boa parte da classe dirigente portuguesa passou a preferir um outro vector de expansão, mais pacífico e menos dispendioso: o das viagens de descobrimento da costa e de comércio pacífico, assim como o da colonização da Madeira e dos Açores, entretanto descobertos. Esta via de expansão teve um importante defensor na pessoa do Infante D. Pedro, sobretudo após o fracasso da segunda tentativa de avanço em Marrocos, o malogrado ataque a Tânger, onde ficou refém o seu irmão D. Fernando. No entanto, é preciso entender que, aos olhos da mentalidade da época, as viagens de descobrimento e de comércio pacífico na costa africana não tinham o prestígio e o valor das conquistas guerreiras e da guerra aos muçulmanos, e os portugueses, a começar pelo Infante D. Henrique, para aqui se voltaram apenas porque o prosseguimento da conquista marroquina surgia como inviável.

Ao longo do século XV, assim, os portugueses voltaram ocasionalmente à conquista marroquina, sempre que tal surgia como uma boa oportunidade. Durante a regência do Infante D. Pedro, como vimos, os portugueses viram-se para a exploração atlântica, sendo uma época de rápido avanço para Sul e do incremento do comércio africano. Porém, com a subida ao trono de D. Afonso V, após a batalha de Alfarrobeira, Marrocos volta novamente a ser uma prioridade, em boa parte devido ao interesse pessoal deste rei. Entretanto, morre o Infante D. Henrique, o grande promotor dos Dscobrimentos, pelo que as viagens sofrem um momentâneo impasse. A conquista de Marrocos está, assim, novamente na ordem do dia.

Durante este reinado os portugueses tomaram Alcácer-Ceguer, Tânger e Arzila. O rei participou em pessoa na conquista desta última cidade, assim como o seu filho D. João, futuro D. João II, que aqui foi armado cavaleiro com 16 anos de idade devido à sua valentia demosntrada em combate. Eis como descreve o cronista Rui de Pina o comportamento do príncipe em Arzila:

“Certamente era grande glória ver aquele dia na mão do príncipe em idade de 16 anos sua espada de bravos golpes torcida, e de sangue de infiéis em todo banhada, em cuja vista a maior parte da alegria era de El-Rei seu pai, que naquela vitória e perigo o tomou por parceiro, vendo que em ajuda tão necessária e perigo tão conhecido não poderá no mundo escolher melhor companheiro do aquele que gerara por filho.”

Com D. João II, nova viragem. Marrocos passa a deter definitivamente um papel subalterno na expansão portuguesa. O avanço na costa africana e a descoberta do caminho marítimo para a Índia são doravante os grandes objectivos. Por esta altura, os horizontes dos portugueses alargavam-se a um ritmo muito rápido. Marrocos era apenas uma peça no plano mais vasto de expansão do rei D. João, que retoma o interesse meramente pacífico e comercial do seu tio o infante D. Pedro, abandonando a política de conquistas. O seu principal interesse em Marrocos era o de obter produtos que servissem para o comércio da Guiné, que nesta altura conhece uma grande expansão. Assim, o rei irá promover os contactos e a penetração pacífica, o atenuou bastante o clima de permanente tensão que se vivia junto das praças portuguesas. Durante o seu reinado, as cidades de Safim e Azamor, no sul de Marrocos, colocam-se sob a protecção portuguesa. D. João II conseguiu abrir uma feitoria em Orão e uma em Fez, no coração de Marrocos, o que espelha bem o ambiente pacífico que conseguiu promover. Fracassou, porém, a sua tentativa de construir uma fortaleza no Algarve marroquino, a Graciosa.

No reinado seguinte, de D. Manuel, os portugueses voltam a interessar-se por Marrocos, assinalando o auge da presença portuguesa nesta região, como veremos em breve.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Militar (?-Pernambuco, Recife, Junho de 1662). Negro, oriundo de Pernambuco, que se distinguiu nas lutas contra os holandeses no Nordeste do Brasil. Em 1636, interveio militarmente pela primeira vez, em defesa do engenho de São Sebastião. Defendeu a Baía em 1638, e nessa mesma altura recebeu de Filipe IV o foro de fidalgo e o hábito da Ordem Militar de Cristo. Um ano depois foi nomeado cabo e governador dos crioulos, mulatos e negros que integrassem a guerra contra os holandeses. Na Insurreição Pernambucana, colocou-se ao lado de Fernandes Vieira, tendo participado nas duas batalhas de Guararapes.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Página seguinte »