A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA E O DESCOBRIMENTO DO BRASIL

O século dos grandes Descobrimentos portugueses foi, como é conhecido, uma época de intensos contactos entre diversas culturas, que viriam a facilitar um melhor conhecimento do mundo e da sua diversidade. Um momento privilegiado neste conhecimento ocorria com a descoberta de uma cultura ainda desconhecida, sobretudo no Novo Mundo de que se ignorava anteriormente a existência. Na História da Literatura Portuguesa há um pequeno relato que ocupa um lugar de destaque, por constituir a descrição do primeiro contacto entre os navegadores portugueses e os índios brasileiros: a “Carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil”. Vamos hoje falar sobre este pequeno documento precioso, e sobre o lugar que a chegada dos portugueses ao Brasil ocupa na História dos Descobrimentos.

É, de um modo geral, por todos conhecido que o rei D. João II deu um novo impulso ao processo dos Descobrimentos que se encontrava com alguma perda de vitalidade desde a morte do Infante D. Henrique em 1460. Igualmente sabido é o facto de que, após a viagem de Cristovão Colombo, Portugal e Espanha procederam a uma nova partilha do Mundo (de que comemoramos, aliás, os 500 anos este ano), segundo a qual caberia aos nossos vizinhos as terras encontradas por Colombo, e a Portugal a África e a Ásia, segundo uma linha que o nosso rei insistiu que se localizasse o mais possível para Oeste. Se D. João II teria ou não conhecimento prévio da existência do Brasil, é algo que ainda hoje se discute. Mas a verdade é que, de facto, uma fatia do continente americano ficou na área demarcada como pertencente a Portugal segundo o mesmo Tratado.

Nos finais do século XV não havia, por parte da Coroa portuguesa, qualquer interesse em descobrir terras localizadas a Ocidente. Na verdade, com a viagem de Vasco da Gama tinha-se provado que o projecto de D. João II estava correcto, e estava aberta a ligação directa entre Portugal e a Índia. Assim, todos os esforços eram canalizados, agora sob a orientação do novo rei D. Manuel, para explorar esta recém-descoberta rota, e permitir que afluíssem a Lisboa as tão famosas mercadorias do Oriente, sobretudo as cobiçadas especiarias.

Deste modo, parte a 9 de Março de 1500 a segunda armada para a Índia, fortemente armada, com vista a firmar a posição de Portugal e a permitir o estabelecimento de relações comerciais com diversos reinos da costa ocidental indiana. Era esta armada comandada por Pedro Álvares Cabral, e levava a bordo um escrivão que foi registando as informações mais importantes da viagem. Passaram as Canárias e Cabo Verde, mas seguidamente as condições atmosféricas arrastaram a armada para oeste, e a 21 de Abril os marinheiros detectam alguns sinais de terra, como algumas ervas e aves; no dia seguinte, 22 de Abril de 1500, avistam terra, que Pero Vaz de Caminha regista do seguinte modo:

“Neste dia, a horas de véspera [ou seja, de tarde], houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome -O Monte Pascoal – e á terra – a Terra de Vera Cruz.”

Tinham os portugueses descoberto o Brasil. A exploração desta nova terra, de que não suspeitavam ainda ser um imenso continente, começou imediatamente, logo no dia seguinte. Desembarcam e contactam de imediato com os índios, que andavam sobre a praia. Causam estranheza por andarem nus, e traziam arcos e flechas. Um marinheiro português mais afoito, chamado Nicolau Coelho, tratou imediatamente de tentar contactar estes estranhos personagens; a língua era diferente, mas tal não impediu o contacto amigável, como diz o cronista:

“Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas (…)”.

Assim, desta forma amistosa, se iniciou o contacto com as populações locais, com quem viveram os portugueses durante alguns dias. No dia seguinte, 24, foram os contactos mais prolongados, quando os portugueses levaram alguns índios a visitar um navio. Ali puderam observar melhor a diferença de costumes, de alimentação e de vestuário. No domingo seguinte, de Pascoela, a 26 de Abril, o capitão decidiu mandar rezar uma missa em terra, o que é feito sob o olhar curioso de vários índios. Assim se passaram vários dias, repartidos entre a exploração da costa, o abastecimento dos navios e o contacto com a população local, geralmente sob a forma de diversas trocas que lhes amainava a desconfiança inicial. O cronista regista com alguma admiração alguns traços desta cultura desconhecida: não tinham rei nem autoridade visível, não criavam gado, antes viviam do que a floresta lhes dava, não conheciam o ferro, mostravam grande interesse em relação aos portugueses e, como considerava que viviam num estado de ingenuidade e inocência, diz que poderiam ser facilmente convertidos ao cristianismo.

Entretanto, Pedro Álvares Cabral enviava de regresso a Lisboa um navio com a notícia do descobrimento da nova terra, e preparava-se para retomar a viagem á Índia, deixando na nova terra dois degredados como “lançados” que, como em África, eram deixados para melhor conhecerem as populações locais, e recolherem informações que pudessem ser úteis aos portugueses. Assim se estabeleceu pela primeira vez o contacto entre portugueses e os índios do Brasil. Destes breves dias ficaram registados os momentos porventura mais importantes, como este, em que Pero Vaz de Caminha descreve o encontro entre um grupo de portugueses e outro de índios, na praia:

“Passou-se então para além do rio Diogo Dias (…), que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e salto mortal, de que eles se espantavam e riam muito.”

A armada de Pedro Álvares Cabral seguiu então a sua viagem rumo á Índia. Pelo caminho se perdeu entre outros o navio comandado pelo homem que havia pela primeira vez contornado o Cabo da Boa Esperança, Bartolomeu Dias, mas a armada acabaria por chegar a bom porto e por desempenhar a sua missão de consolidar a presença portuguesa no Oriente. Pelo caminho havia, porém, descoberto o Brasil e iniciado o contacto com a terra que mais tarde viria a suplantar a Índia como alvo de exploração e colonização.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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