O Livro dos Conselhos de El-Rei D. Duarte

D. Duarte, segundo monarca da dinastia de Avis, ficou conhecido como um dos reis mais cultos da nossa História. Assumiu o governo do país após a morte do seu pai, D. João I, em 1433, até 1438, data do seu falecimento. Subiu ao trono já com 42 anos, mas também com uma longa experiência política, pois desde novo foi associado á governação. Foi um rei letrado e culto, muito bem preparado para o poder, e cujo gosto pelas letras se tornou célebre. De sua autoria conhecem-se duas obras, ambas excelentes exemplos do seu carácter erudito e da sua personalidade madura, mas também dos gostos literários da época: o Leal Conselheiro e a Ensinança de Bem-Cavalgar a Toda a Sela. Numa trata dos problemas que enfrenta e das regras de justiça que deverá seguir o bom governante; na outra, da arte de montar, da caça e da guerra. Não vamos hoje abordar nem uma, nem outra. Preferimos escolher um outro exemplo, o chamado Livro de Conselhos de El-Rei D. Duarte, ou Livro da Cartuxa, pequeno conjunto de textos de origens diversas, espécie de bloco de apontamentos onde o rei anotava vários temas de seu interesse.

O reinado de D. Duarte marca um dos períodos mais interessantes da História de Portugal. Um dos debates mais importantes da época dizia respeito á política africana: após a conquista de Ceuta, o que fazer? Prosseguir a conquista do norte de África, avançando para outras posições, ou abandonar estes projectos militares, e apostar no comércio pacífico? Sabemos hoje que as políticas do Infante D. Henrique, com a colonização da Madeira, a descoberta dos Açores, e a dobragem do Cabo Bojador, estavam condenadas ao sucesso, mas na época tal não podia ainda ser sentido, e as empresas militares de conquista de Marrocos detinham ainda um grande prestígio. Podemos perguntar o que tem isto a ver com o Livro dos Conselhos de El-Rei D. Duarte. Na verdade, este livrinho começa precisamente por transcrever diversos pareceres de várias pessoas sobre se se devia ou não prosseguir a guerra em Marrocos, cada um indicando ao rei os seus motivos; assim, a sua leitura leva-nos a concluir que a maior parte se inclinava para a continuação da política de conquista, que, na verdade, veio a vencer, e que conduziu ao desastre de Tânger. Mas outras vozes mais sensatas e prudentes opunham-se a esta linha; a mais importante era a do Infante D. João, irmão do rei: este declara-se abertamente contra a guerra em Marrocos que, segundo ele, só dava prejuízo e não servia ninguém. Quando confrontado com a velha ideia de que fazer a guerra aos mouros era serviço de Deus, responde do seguinte modo:

“(…) não somos certos se é serviço de Deus, porque eu não vi nem ouvi que Nosso Senhor nem algum dos seus Apóstolos nem doutores da Igreja mandassem que guerreassem infiéis, mas antes por pregação e milagres os mandou converter (…)”.

Mas o Livro dos Conselhos não trata só de problemas políticos. Na verdade, é uma compilação de apontamentos sobre variados temas, desde cartas a várias ordens do rei, poesias, diversos textos religiosos e de carácter moral, música, pesos e medidas, orações e rezas, algumas de particular interesse e curiosidade. Por exemplo, podemos encontrar aqui uma das mais antigas formas do Padre-Nosso em Português que, como se pode comparar, não se modificou muito em quinhentos e cinquenta anos:

“Padre Nosso que és nos Céus                    O pão nosso de cada dia nos dá hoje
Santificado seja o Teu Nome                      Quita-nos as nossas dívidas
Venha a Nós o Teu Reino                            Como nós quitamos a nossos devedores
Seja Feita a Tua Vontade                            Não sejamos derribados na Tentação,
Assim na Terra como nos Céus.                 Mas livra-nos do Mal.”

Diversas notícias, mais ou menos insólitas, estão também presentes neste Livro, e que certamente só a curiosidade e interesse do rei permitiram que ficassem registadas. Uma das mais interessantes é o registo de um fenómeno meteorológico ocorrido em Santarém, para o qual não é dada nenhuma explicação:

“Dia de Santo Antão 17 dias de Janeiro da era de 1431, a horas de vésperas, caíram em Santarém e ao redor dele muitas fagulhas, assim como se queimassem algum grande canavial ou muitas vides, e isto sem na vila nem fora dela haver fogo de que viesse”.

O Livro dos Conselhos de El-rei D. Duarte que chegou aos nossos dias é uma cópia tardia, e encontra-se actualmente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. O original perdeu-se, ou espera ainda nalgum canto de algum arquivo. Não sabemos se terá ou não sido escrito pela mão do próprio rei, o que não causaria grande espanto, conhecido que é o seu gosto pela escrita e pelos livros. De qualquer modo, é certo que foi composto para seu uso pessoal, sendo provavelmente actualizado e acrescentado a cada momento.

Este Livro dos Conselhos é um verdadeiro manual, um compêndio de conhecimentos e apontamentos úteis, quer para a política quer para a vida quotidiana. É igualmente a prova de que, no século XV, a cultura popular estava ainda perfeitamente integrada na vida da Corte e do rei: assim, um dos capítulos ensina a semear a alfafa, outro a como conservar o pescado fresco durante quinze dias, outro ainda ensina a saber as horas, quer durante o dia quer de noite, através da observação do céu. Mas mais interessante é ainda o grande número de páginas dedicadas á medicina e farmacopeia, que tomam a forma, sobretudo, de receitas para diversos males, quem sabe se ainda utilizadas nalgum canto de Portugal: para a dor de olhos, dores nas articulações, diarreia, peste, ciática, febres várias, dores de dentes.

Algumas receitas podem causar, nos nossos dias, algum espanto; por exemplo, o Livro apresenta-nos a certa altura uma receita para afastar o demónio áquele que for tentado, quer seja homem ou mulher, mas só funciona se não for bêbado nem mudo; ou ainda, para o peito das mulheres, após o parto, propõe vários emplastros: sementes de algodão pisadas com vinagre, raízes de abróteas com óleo de macela, ou ainda minhocas fritas em manteiga. Para terminar, e como se aproxima o Inverno, apresentamos a receita para as dores nos ossos, quem sabe se não será de grande utilidade para quem nos escuta:

“Esta mezinha é boa para a frialdade que está no osso ou juntura:

Tomar a linhaça galega tanto com água que se faça assim como massa, e pô-la num pano de cor, e tanto que ela for com temperatura que a possam suportar, pô-la onde for a dor, e isto por cinco ou seis vezes juntamente. Isto lhe farão por três ou quatro dias, e isto feito traga cada ano até nove dias ou mais se for tempo frio, coberto de pano de linho dobrado ou de lã o lugar que doer.”

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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