DIOGO DO COUTO – Um cronista do oriente

Quando se fala da Expansão Portuguesa é vulgar relembrar os grandes nomes dos Descobrimentos, que geralmente se associam aos grandes generais e cabos-de-guerra, aos vice-reis, aos descobridores de novas terras. Ficam, por vezes, um pouco esquecidos aqueles que, muitas vezes suportando imensas adversidades e sendo mesmo vítimas de injustiça, nos legaram, sob a forma de relatos ou crónicas, os factos, a história e a memória desse tempo. Registar e contar a verdade histórica era, ontem como hoje, tarefa difícil e ingrata. Por entre os cronistas portugueses no Oriente destaca-se o nome de um homem que, pela sua rectidão e amor á verdade, tornou-se um pouco o modelo da historiografia portuguesa. A sua vida, como a sua obra, reflecte o misto de esforço, empenho e glória, assim como algumas misérias que fizeram a História dos portugueses no Oriente. Foi soldado, escritor e um homem de cultura; chamava-se Diogo do Couto e é de quem iremos falar hoje.

Diogo do Couto nasceu em 1542, em Lisboa. O seu pai, Gaspar do Couto, era natural de Amarante, e serviu o Infante D. Luís, filho de D. Manuel. Aos 10 anos entra Diogo do Couto ao seu serviço, estudando no Colégio Jesuíta de Sto. Antão e no Mosteiro de Benfica. Ali foi colega do filho do Infante, D. António, futuro Prior do Crato e candidato á Coroa portuguesa em 1580. Em 1555, devido á morte de D. Luís, seu patrono, Couto muda-se para o Paço, onde serve D. Sebastião como moço de câmara. Embora o seu pai tivesse sido ordenado cavaleiro, falta a Couto raízes fidalgas que lhe permitiriam o acesso aos altos cargos da administração. Após a morte de seu pai, decide então, como tantos, tentar a sua sorte como soldado na Índia. Parte em 1559, apenas com 17 anos, tendo-se alistado por três anos. Serve em diversos locais da Índia durante cerca de uma década, tendo participado em diversos combates. Aqui aprendeu Couto a dura vida de soldado, e o contacto com os problemas que se avolumavam no Estado da Índia viria a moldar definitivamente a sua personalidade, assim como a sua obra literária. Em 1569, farto da vida de soldado, decide voltar a Portugal. Parte de Goa na armada do vice-rei D. Antão de Almada, fazendo escala em Moçambique. Aqui encontra o seu amigo Luís de Camões, companheiro de andanças na Índia. É o próprio Couto que relata o facto numa das suas obras, nos seguintes termos:

“Em Moçambique achámos aquele Príncipe dos Poetas de seu tempo, meu matalote e amigo Luís de Camões, tão pobre que comia de amigos, e para se embarcar para o reino lhe ajuntámos os amigos toda a roupa que houve mister, e não faltou quem lhe desse de comer (…).”

Partiram juntos para Lisboa, onde chegam em Abril de 1570. Couto, cujo temperamento não se adequava á vida mundana da corte, ficaria pouco tempo em Portugal. Logo no ano seguinte regressa á Índia, estabelecendo-se definitivamente em Goa, onde casa com Luísa de Melo. Aqui finda a fase militar da sua biografia. Doravante dedicar-se-ia a outras artes. Fica durante alguns anos empregado nos armazéns de mantimento, o que lhe permite o contacto com o mundo de negócios e com a administração do Estado da Índia. A fase mais interessante da sua vida, e também a mais frutuosa, iniciar-se-ia apenas após a subida ao trono de Filipe II. Couto escreve ao rei propondo a elaboração de uma crónica sobre a história dos portugueses na Índia após 1581, data da sua aclamação. O rei, a quem já havia chegado o conhecimento deste funcionário notado pelo seu zelo e rigor, acaba por encarregá-lo de uma tarefa mais vasta: organizar o Arquivo de Goa e continuar o trabalho de João de Barros, entretanto falecido, de escrever a história dos portugueses na Índia. Ambas eram tarefas pesadas e ingratas: na primeira, para além de organizar toda a documentação administrativa, já volumosa e em risco de se perder, teria ainda de passar certidões de serviços; na segunda, teria de retomar o difícil trabalho de escrever a história dos portugueses na Índia. Couto, com o seu carácter rigoroso e recto, pouco dado a lisonjas e a favores, está decidido a escrever a verdade, por muito que isso desagradasse a alguns.

Diogo do Couto inicia então o seu trabalho, aproveitando algum material já elaborado anteriormente. A sua condição de organizador do arquivo de Goa permite-lhe uma visão próxima e bem informada sobre a história do Estado da Índia. Porém, este facto, assim como a incorrigível imparcialidade do autor, serão motivo de vários dissabores pessoais e do destino atribulado da sua obra. Na verdade, a fatalidade que se abateu sobre as suas Décadas da Ásia é ainda hoje motivo de investigação por parte dos historiadores: a VI ardeu em casa do impressor, a VII perdeu-se, tomada pelos ingleses ao ser transportada para Portugal; a VIII e a IX foram roubadas ao próprio autor, que as recompilou mais tarde; da XII resta apenas parte. A XI, que tratava do vice-reinado de Matias de Albuquerque, desapareceu até hoje. Por outro lado, Diogo do Couto suportava a impressão da sua obra com o seu baixo salário, não obtendo sucesso com a venda e sofrendo da indiferença geral .

Parece certo que a rectidão do autor, que resistia a pressões e parecia não hesitar em relatar o que lhe surgia como verdadeiro, lhe trouxe inimizades várias, nomeadamente por parte daqueles que se sentiam atingidos pela sua obra. A isto se refere várias vezes o próprio Couto, lamentando as difíceis condições em que vivia, o seu magro salário, a incompreensão dos que o rodeavam. É que Diogo do Couto não era mais do que um funcionário administrativo, sendo obrigado a conciliar o seu trabalho no arquivo com a escrita da sua obra. Até ao fim da sua vida, fez vários pedidos para ser aumentado, de forma a poder trabalhar sem sobressaltos. A ajuda, porém, nunca se revelou suficiente. Na verdade, vários conspiravam para calar esta voz incómoda. Acabou por morrer em 1616, pobre e minado pelas intrigas tecidas á sua volta.

Além das suas Décadas, Diogo do Couto deixou-nos outras obras: várias cartas e discursos, um pequeno relato, o “Naufrágio da nau S. Tomé”, incluído mais tarde na colectânea da História Trágico-Marítima. Mas é o seu Diálogo do Soldado Prático que suscita maior interesse e admiração. É, de facto, notável a lucidez e espírito crítico com que Diogo do Couto elabora esta pequena obra, que constitui um diagnóstico implacável, diremos mesmo impiedoso e por vezes injusto, da situação do Estado da Índia nos finais do século XVI. O seu estilo, como nas Décadas, é vivo e desembaraçado. O Soldado Prático constitui, na verdade, um testemunho ímpar de um homem que, ao contrário de outros que escreviam sobre os portugueses no Oriente, lá viveu, acompanhou e sentiu parte do que escreve. Esta obra constitui, digamos, o reverso da medalha d’Os Lusíadas do seu amigo Luís de Camões: as glórias e as misérias, a grandeza e a mesquinhez, os valores e os defeitos, as duas faces da história da Expansão Portuguesa. Diogo do Couto, a sua vida e a sua obra, é, como o tempo e o meio em que viveu, a expressão desta dualidade.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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