A POLÍTICA AFRICANA DE D. JOÃO II

Comemoram-se este ano os 500 anos sobre a morte do rei D. João II. Este foi, certamente, um dos mais importantes monarcas da História de Portugal, quer pela política de centralização do poder que executou no reino, quer sobretudo pela acção decisiva que desempenhou no processo dos Descobrimentos, salvaguardando a empresa iniciada nos primeira décadas do século XV pelo Infante Henrique e imprimindo-lhe um novo fôlego e um novo vigor. Os resultados são de todos bem conhecidos: salvaguarda do Atlântico, vantagem sobre os principais rivais de Portugal neste processo, descobrimento do Cabo da Boa Esperança e abertura do caminho marítimo para a Índia, que viria a ser inaugurado já pelo rei seguinte, D. Manuel. Vamos hoje relembrar uma faceta importante da política ultramarina de D. João II, por vezes um pouco esquecida em vista dos grandes sucessos do seu reinado, como o Tratado de Tordesilhas ou a viagem de Bartolomeu Dias, mas igualmente importante na época: os contactos e a política de alianças com os reinos africanos.

Os contactos com as civilizações africanas a sul do Sará despertaram desde muito cedo o interesse dos navegadores portugueses; as diferenças de clima, de fauna e da flora, mas também os contrastes culturais entre os diversos reinos africanos e os padrões europeus foram um motivo de curiosidade e interesse permanente. Desde o momento em que se estabeleceram os contactos e o comércio pacífico e foram proibidas as presas, ou seja, a tomada de bens ou pessoas pela força, o que aconteceu na década de 1440, estavam reunidas as condições para o aprofundamento das relações entre Portugal e diversos reinos africanos, sobretudo os que revelavam maior interesse em promover o comércio com os portugueses e em se converter ao Cristianismo.

No reinado de D. João II, este vector sofreu um notável incremento. O monarca desenvolve uma política coerente de aproximação e de promoção de alianças com diversos reinos africanos, o que se revelava essencial para o seu plano de expansão ultramarina, sob diversos pontos de vista: permitia uma melhor exploração económica, com o estabelecimento de acordos de comércio vantajosos para ambas as partes; fortalecia a presença portuguesa face a uma eventual concorrência castelhana na região da Guiné; facilitava a transmissão de conhecimentos sobre vários objectivos a atingir, nomeadamente a existência de reinos cristãos a Oriente e a passagem para o Oceano Índico, que se procurava a todo o momento alcançar.

A política levada a cabo por D. João II obteve bons resultados junto de diversos reinos africanos. O primeiro foi o dos Jalofos, na região do Senegal, que os portugueses haviam entrado em contacto já há várias décadas. Tal aproximação culminou com a conversão do rei africano, em 1488, data em que se fez baptizar em Lisboa com o nome de D. João Bemoim, após ter sido recebido com todas as honrarias por D. João II, como assinala o cronista Rui de Pina:

“Chegou Bemoim a Lisboa, e com ele alguns negros de seu sangue real (..). Como el-rei foi de sua vinda avisado, mandou que se viessem aposentar a Palmela, onde mandou logo prover aos seus mui abastadamente, e servir a ele com prata, e oficiais, e todos os outros cumprimentos que têm semelhança de Estado. E a todos mandou dar de vestir de panos finos e ricos, e como a qualidade e merecimento das pessoas o requeria. (…) E aos 3 dias do mês de Novembro o dito Bemoim, e seis dos príncipes que com ele vieram, foram feitos cristãos ás duas horas da noite, na câmara da rainha (…); foram seus padrinhos el-rei, a rainha, o príncipe e o duque, e um comissário do Papa que na Corte andava, e o bispo de Tânger.”

Também na região da Mina, onde D. João II mandou erguer um fortaleza em 1482, tentaram os portugueses obter alianças políticas e fomentar a evangelização, embora com resultados menos satisfatórios. Um pouco mais a Sul, na região do Benim, os contactos foram pelo contrário mais profundos. A importância deste poderoso reino do interior era tal que D. João II ali enviou por duas vezes (em 1486 e 1487) uma embaixada chefiada por João Afonso de Aveiro. Tinha como objectivos a fundação de uma feitoria, a promoção da amizade com Portugal e a preparação para uma futura evangelização naquela região, no que foi bem-sucedido. No entanto, a melhor recepção aos marinheiros portugueses estava reservada para uma outra região, completamente isolada até então da civilização europeia: o reino do Congo.

O Congo foi contactado pela primeira vez por Diogo Cão, que ali foi muito bem recebido logo na sua primeira viagem. Posteriormente, constatando a boa-vontade local, este mesmo capitão transportou para Lisboa uma embaixada deste reino de africano, que presenteou D. João II com peças de marfim e panos de palma. O rei respondeu com o envio de uma embaixada portuguesa em 1491 (chefiada por Rui de Sousa), após uma fase de intensos contactos onde se destacava a excelente predisposição local a receber a presença portuguesa, promover o comércio e até mesmo a aceitar a missionação cristã. A embaixada foi recebida em triunfo na capital do Congo, ao que se seguiu o baptismo do rei e das principais figuras da sua corte.

Desta forma, D. João II conseguia obter um conjunto de alianças políticas que lhe permitiam fomentar a presença portuguesa junto de uma série de poderosos reinos africanos cristianizados ou em vias de o ser. No seio do projecto global acalentado pelo monarca, tal perspectiva estava articulada com a procura do mítico reino cristão do Prestes João e com o descobrimento do caminho marítimo para a Índia. D. Manuel viria a dar continuidade a este plano, incrementando a política de alianças e de evangelização de diversos reinos de África, que só viria a abrandar a atenuar-se mais tarde, já com D. João III.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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