DUARTE PACHECO PEREIRA
E OS PRIMÓRDIOS DO IMPÉRIO PORTUGUÊS DO ORIENTE

A viagem de Vasco da Gama abriu definitivamente as portas da Índia aos portugueses. Resolvido o problema da rota para Oriente, colocou-se então a questão de avaliar as realidades locais, de modo a viabilizar a melhor actuação. Vasco da Gama, chegado a Calecut, procura estabelecer relações de amizade com o rei local, de forma a permitir futuramente o comércio. Porém, se este primeiro contacto é marcado pelo optimismo, já Pedro Álvares Cabral, na armada seguinte, se apercebe que as condições são bem menos favoráveis: existem muito menos cristãos do que se supunha inicialmente, e o comércio das especiarias é controlado pela comunidade muçulmana, hostil aos portugueses. Assim, o rei D. Manuel conclui que o estabelecimento dos portugueses na Índia exige o uso da força militar. Nos anos seguintes, a política seguida pretendia criar uma alternativa a Calecut, que se mostrou hostil. Os portugueses acabam por se aliar ao rei de Cochim, rival de Calecut, de modo a canalizar as apetecidas especiarias da costa do Malabar, ao mesmo tempo que se alargam os contactos com outras cidades. É nestes primeiros anos que se joga o futuro Império Português Oriental, já que a fragilidade das posições portuguesas só podia ser compensada pela bravura e coragem de alguns homens. E um destes, protagonista da primeira grande vitória militar, foi Duarte Pacheco Pereira.

Duarte Pacheco Pereira é uma das figuras mais interessantes da História dos Descobrimentos Portugueses. Cavaleiro da casa de D. João II, cosmógrafo e geógrafo, explorador do Atlântico Sul, adquiriu desde muito cedo uma grande experiência de navegação, que nos deixou no seu roteiro, chamado Esmeraldo de Situ Orbis. Desconhece-se a data do seu nascimento, mas sabe-se que efectuou diversas viagens de exploração da costa africana, cujo conhecimento é aliás demosntrado na sua obra. Em 1488 encontra-se doente na ilha do Príncipe, e é Bartolomeu Dias, no regresso da sua histórica viagem de dobragem do Cabo da Boa Esperança, que o transporta para Portugal. Em 1494, participa na negociações do Tratado de Tordesilhas, integrado na equipa de D. João II que assinou com Espanha a divisão do mundo em duas esferas de influência. É ainda muito debatida e polémica a sua misteriosa viagem para Ocidente em 1498, que refere brevemente na sua obra. Dizem alguns que chegou ao Brasil antes de Pedro Álvares Cabral, outros á América do Norte, outros ainda que nunca terá empreendido tal viagem.

Mas falemos da sua estadia no Oriente. Duarte Pacheco Pereira parte para a Índia na armada de Afonso de Albuquerque em 1503, chegando a Cochim em Outubro. Aí já se encontra uma outra armada portuguesa. O objectivo comum era o do definitivo estabelecimento em Cochim, aproveitando a abertura do rei local. Para tal era porém necessário construir uma fortaleza, e preparar a inevitável guerra com Calecut. Nos fins de 1504, Afonso e Francisco de Albuquerque regressam a Lisboa, deixando Duarte Pacheco Pereira em Cochim com uma pequena força de apenas 150 portugueses.

Com esta pequena força militar, Duarte Pacheco Pereira tinha várias missões a cumprir, a mais importante das quais era a defesa de Cochim dos ataques de Calecut. De facto, o Samorim de Calecut prepara imediatamente uma poderosa e numerosa força militar, de vários milhares de homens, para invadir o seu pequeno vizinho. De Março a Julho de 1504 atacou por várias vezes, utilizando diversas técnicas, desde o ataque maciço e em força ás surtidas ocasionais, chegando mesmo a envenenar os poços em que os portugueses se abasteciam de água. Todas fracassaram, e Duarte Pacheco Pereira conseguiu que este poderoso rei se retirasse, finalmente, a 24 de Julho. Sobre este dia escreveu o cronista João de Barros:

“Finalmente, o dia não foi tão próspero como os feiticeiros do Samorim lhe tinham prognosticado; e porque ainda lhe ficou esperança, que tornando outra vez alcançaria vitória que refizesse todas as perdas passadas, veio daí a certos dias em hora de melhor eleição (…). Simulando ele que se tornava a refazer para tornar á guerra, se recolheu de todo com perda de dezoito mil homens, treze ne enfermidade, que por duas vezes sobreveio no seu arraial, e os cinco na guerra que continuou, a qual guerra durou seis meses.”

O Samorim de Calecut retirou-se, assim, definitivamente, aceitando a derrota e assinando a paz. Estava, assim, ganha a primeira grande prova por que passaram os portugueses no início da sua fixação na Índia. Duarte Pacheco Pereira foi então triunfalmente recebido pelo rei de Cochim, que se manteve, assim como os seus sucessores, um tradicional aliado dos portugueses até á conquista da cidade pelos holandeses em 1663.

Duarte Pacheco Pereira empreendeu ainda várias acções de pacificação e de aprofundamento da fixação portuguesa, nomeadamente em Coulão, onde os feitores portugueses enfrentavam dificuldades. Parte de Cananor no início de 1505 com destino a Portugal, onde chega alguns meses depois. É recebido com uma grande procissão em Lisboa, em que participou ao lado do rei D. Manuel, que mandou celebrar esta vitória por todo o país. Os feitos de Duarte Pacheco Pereira no Oriente ficaram célebres, sendo registados por todos os cronistas e poetas, inclusivamente por Luís de Camões, que o designa por “Aquiles Lusitano” n’Os Lusíadas.

Duarte Pacheco Pereira não terminou aqui os seus feitos. De facto, logo em 1509 segue em perseguição de um célebre corsário francês que ameaçava as costas portuguesas e a navegação atlântica. Consegue localizá-lo ao largo do Cabo Finisterra, onde alcança a vitória. Prestou ainda outros serviços ao serviço do rei D. Manuel, que o nomeia capitão da fortaleza da Mina. Os últimos anos da sua vida foram, porém, mais cinzentos. Acusado de corrupção no desempenho do seu cargo, é enviado para Lisboa e afastado. O novo rei D. João III não o favoreceu como o seu antecessor, pelo que Duarte Pacheco Pereira chega mesmo a ameaçar colocar-se ao serviço do rei de Espanha Carlos V. Não o chegou, porém, a fazer. Faleceu entretanto, cerca de 1530, talvez pobre, mas certamente injustiçado dos serviços que cumpriu ao longo da sua vida.

A presença portuguesa no Oriente foi-se fortalecendo progressivamente. Pouco depois da acção de Duarte Pacheco Pereira, chega á Índia o primeiro vice-rei, D. Francisco de Almeida, que vinha estabelecer definitivamente a presença portuguesa na região. Foi, porém, o seu sucessor, o famoso Afonso de Albuquerque, o fundador do Império Português do Oriente. Mais do que fixar a presença portuguesa em várias cidades, estabelecendo acordos de comércio com as autoridades locais, Afonso de Albuquerque segue uma política de conquista das cidades mais importantes do Índico, o que consegue em Goa, Ormuz e Malaca. Mas o seu bom sucesso muito deve á acção pioneira de alguns homens, entre os quais tem um lugar destacado Duarte Pacheco Pereira.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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