DUARTE PACHECO PEREIRA E O “ESMERALDO DE SITU ORBIS”

Duarte Pacheco Pereira é uma das figuras mais interessantes da História dos Descobrimentos Portugueses. Tendo sido um dos homens de confiança de D. João II, e mais tarde de D. Manuel I, acompanhou e participou nalguns dos momentos-chave da Expansão Portuguesa do seu tempo. Foi marinheiro e guerreiro, geógrafo, cosmógrafo e diplomata. A ele se ficaram a dever importantes vitórias militares, mas igualmente observações e estudos que compilou numa obra a que deu o estranho título de Esmeraldo de Situ Orbis. Se a parte final não oferece dúvidas, tratando-se do título de uma obra de Geografia da Antiguidade, já o nome Esmeraldo é obscuro. De qualquer modo, trata-se de um roteiro da costa africana, desde Marrocos ao Cabo da Boa Esperança, que escreveu entre 1505 e 1508, mas que nunca chegou a completar. É desta obra singular e de alguns aspectos da vida do seu autor que vamos hoje falar.

Não se conhece a data exacta de nascimento de Duarte Pacheco Pereira, mas tal ocorreu provavelmente por volta de 1460, em Lisboa. Era da média nobreza de serviços da Coroa, sendo o seu antepassado mais célebre Diogo Lopes Pacheco, um dos assassinos de Inês de Castro. Cavaleiro da casa de D. João II, desde muito cedo manifestou interesse pelas viagens de descobrimento da costa africana então promovidas por aquele monarca. Foi durante as décadas de 1480 e 1490 que Duarte Pacheco Pereira acompanhou de perto a exploração da costa e o desenvolvimento da ciência náutica portuguesa, tendo desenvolvido uma série de observações e estudos de náutica, de carácter prático. Para tal deslocou-se à Mina, a S. Tomé, e a outros diversos pontos da costa africana. Em 1488 encontrava-se doente na ilha do Príncipe, tendo sido Bartolomeu Dias, no regresso da sua célebre viagem de descobrimento do Cabo da Boa Esperança, que o trouxe de regresso a Portugal. Em 1494, a sua experiência nos assuntos de náutica levou a que acompanhasse a delegação portuguesa que nessa data assinou o célebre Tratado de Tordesilhas, que dividiu definitivamente o mundo em duas esferas de influência.

Nos primeiros anos do século XVI, Duarte Pacheco Pereira deslocou-se á Índia, onde tomou conhecimento dos primeiros passos que a presença portuguesa percorria naquela região. A ele se deveu uma formidável vitória contra o Samorim de Calecut, em 1504, quando conseguiu sucessivamente derrotar as investidas deste rei com uma força de apenas 150 portugueses, aliados do rei de Cochim. Por este facto foi recebido com todas as honrarias em Lisboa, pelo rei D. manuel, e Luís de Camões chama-o de “Aquiles Lusitano” nos seus Lusíadas.

Duarte Pacheco Pereira inicia então a escrita da sua obra, fruto do seu longo contacto com a costa africana e da sua vasta experiência acumulada de navegação. O Esmeraldo destinar-se-ia a servir de roteiro da costa, de uso comum dos pilostos e marinheiros portugueses. Contém inúmeras referências de utilidade prática, tal como o modo de reconhecimento da costa, a forma de determinar a latitude e o melhor rumo a seguir a cada momento. Está igualmente repleto de informação comercial sobre os produtos trocados em cada ponto de África e os cuidados a ter com as populações mais belicosas. Eis um exemplo:

“Jaz o porto de Ali e o rio do Barbacis Leste e Oeste, e tem na rota cinco léguas, e este rio é muito aparcelado e de grandes baixos; há resgate de escravos, seis e sete por um cavalo, posto que não seja bom; e o capitão que a este resgate for, guarde-se destes negros, que são muito má gente; e este rio se aparta em latitude da linha equinocial contra o polo ártico catorze graus e quinze minutos”.

O Esmeraldo de situ orbis é geralmente considerado como o resultado da experiência prática de navegação dos portugueses, que pela primeira vez punha em causa uma série de tradições geográficas herdadas da Antiguidade e que agora se vinha a constatar estarem erradas. Duarte Pacheco Pereira, embora conheça algumas e se baseie frequentemente nelas, é o primeiro a notar que estão em muitos aspectos desfazadas da realidade. Por exemplo, dizia-se que as regiões mais próximas do equador eram desabitadas, formando a chamada Zona Tórrida, pois a extrema temperatura impedia a vida humana. Os portugueses provaram o contrário, e Pereira di-lo no seu trabalho. Por exemplo, quando fala do Cabo de Lopo Gonçalves:

“Esta terra é muito vizinha do círculo da equinocial [ou seja, do Equador], da qual os antigos disseram que era inabitável e nós por experiência achamos o contrário”.

O critério de veracidade deixou assim de ser os autores da Antiguidade, e passou a ser, numa frase célebre da sua autoria: “A experiência, que é madre de todas as coisas, que nos desengana e toda a dúvida nos tira”.

É ainda motivo de polémica a sua misteriosa viagem para Ocidente em 1498, que refere brevemente na sua obra. Dizem alguns que chegou ao Brasil antes de Pedro Álvares Cabral, outros á América do Norte, outros ainda que nunca terá empreendido tal viagem. Eis o misterioso passo do Esmeraldo:

“Temos sabido e visto como no terceiro ano de vosso reinado no ano de Nosso Senhor de 1498, dondo nos Vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além da grandeza do Mar Oceano, onde é achada e navegada uma tão grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela (…) e posto que seja assaz fora, é grandemente povoada”.

Duarte Pacheco Pereira deixou o seu Esmeraldo incompleto. A sua descrição cessa repentinamente no Rio do Infante, ou seja, no ponto exacto onde chegou Bartolomeu Dias na sua viagem. Não terá tido tempo de a terminar, ou provavelmente não conseguiu reunir com a profundidade desejada as informações respeitantes à costa oriental de África. De resto, a sua obra permaneceu inédita durante muitos anos. O precioso original, ilustrado de mapas e desenhos de sua autoria, perdeu-se até hoje, só se conhecendo duas cópias, que ficaram inéditas até ao final do século passado.

A sua biografia não cessa aqui. Em 1508, como já referimos, cessou a escrita do seu Esmeraldo, e logo em 1509 segue em perseguição de um célebre corsário francês que ameaçava as costas portuguesas e a navegação atlântica. Consegue localizá-lo ao largo do Cabo Finisterra, onde alcança a vitória. Prestou ainda outros serviços ao serviço do rei D. Manuel, que o nomeia capitão da fortaleza da Mina. Os últimos anos da sua vida foram, porém, mais cinzentos. Acusado de corrupção no desempenho do seu cargo, é enviado para Lisboa e afastado. O novo rei D. João III não o favoreceu como o seu antecessor, pelo que Duarte Pacheco Pereira chega mesmo a ameaçar colocar-se ao serviço do rei de Espanha Carlos V. Não o chegou, porém, a fazer. Faleceu entretanto, cerca de 1530, talvez pobre, mas certamente injustiçado dos serviços que cumpriu e da obra que escreveu durante a sua vida.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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