OS PORTUGUESES NA ETIÓPIA

Quando se fala de Descobrimentos Portugueses, é comum referir-se os contactos com as civilizações africanas e asiáticas, nomeadamente a Índia, a China e o Japão, efectuados pelos portugueses no século XVI. De facto, a chegada ao Oriente e o prolongado diálogo com estas culturas deixou marcas bem visíveis que se estendem até aos nossos dias. No entanto, outros locais há de que se fala hoje muito pouco, mas onde a presença portuguesa se fez sentir com grande vigor naquela época. Um dos reinos mais importantes que os portugueses ansiavam alcançar, e que se revelou um dos locais onde os contactos foram mais proveitosos, foi a Etiópia. É sobre a presença portuguesa neste reino africano que vamos falar hoje.

A Etiópia, ou Abissínia, era no século XVI um remoto reino cristão, conhecido na Europa e em Portugal sob o nome de Prestes João. Acerca deste nome corriam as mais fabulosas histórias, imaginando os europeus tratar-se de um poderoso e riquíssimo reino cristão, que se encontrava para além do Mundo Muçulmano, e que ansiava por contactar a Europa cristã para poder em conjunto, imaginava-se então, derrotar o Islão e libertar Jerusalém e os Lugares Santos. Acerca deste reino mais ou menos mítico circulavam na Europa ideias vagas e confusas, que só os portugueses vieram definitivamente esclarecer. Aliás, o Prestes João está directamente ligado ás origens da Expansão Portuguesa. Uma das motivações do Infante D. Henrique em ultrapassar o Cabo Bojador e promover o avanço e exploração da costa ocidental africana foi a de tentar contornar Marrocos e o Mundo Muçulmano, tentando encontrar o tal reino cristão de que se falava na sua época. Mais tarde, D. João II prosseguiu tal política, mas agora subordinada ao objectivo de encontrar o caminho marítimo para a Índia.

Ficou a dever-se a este monarca a primeira iniciativa bem sucedida de contactar o Prestes João, ou seja, a Etiópia. Trata-se da famosa expedição de Afonso de Paiva e Pero da Covilhã, que seguindo por terra até ao Médio Oriente deveriam aí recolher todo o tipo de informações a enviar para Lisboa, de modo a complementar a viagem marítima que simultâneamente efectuava Bartolomeu Dias, e que dobrou o Cabo da Boa Esperança. Pero da Covilhã tinha como objectivo a Índia, cabendo a Afonso de Paiva encontrar e contactar a Etiópia, e inteirar-se da condição deste reino. Após uma série de peripécias, entre as quais a morte do mesmo Afonso de Paiva, é Pero da Covilhã encarregado pelo rei de seguir o caminho do Prestes João. Assim fez, tendo sido o primeiro português a ali chegar. Nunca regressou a Portugal, por motivos que só alguns anos mais tarde se vieram a descobrir.

Nenhuma das informações sobre a Etiópia recolhidas por Pero da Covilhã chegou a Lisboa. Não foi, assim, possível desfazer as ideias fabulosas sobre este reino que desde há muito circulavam na Europa. Os portugueses continuavam a acreditar que o Prestes João era um reino extenso, muito populoso e poderosíssimo em termos militares. Entretanto, morrera D. João II e subira ao trono D. Manuel I. Este monarca possuía o seu próprio projecto de expansão, que assentava no estabelecimento português no Oriente, mas também na aliança com a Etiópia. Os portugueses chegaram entretanto à Índia, avançando cada vez mais para Oriente. Afonso de Albuquerque tomara Goa, Ormuz e Malaca, estabelecendo as bases do futuro Estado da Índia. Quanto à Etiópia, foram feitos os primeiros contactos, embora a verdadeira dimensão e importância daquele reino ainda não fosse clara, nem sequer para os portugueses que se encontravam na Índia.

É em 1514 que esta situação se altera. A rainha etíope, tendo tomado conhecimento do estabelecimento dos portugueses no Oriente, decide enviar um embaixador a D. Manuel, chamado Mateus. Este homem deveria ser imediatamente transportado para Lisboa, mas na verdade foi tratado com muito pouco respeito pelos portugueses. É que muitos destes o tomaram como um falsário, sujeitando-o a todo o tipo de discriminações. Há, porém, outra razão para tais descortesias: uma boa parte da corte e da classe dirigente portuguesa opunha-se aos projectos do rei D. Manuel, nomeadamente à sua política de aliança com a Etiópia para uma futura frente comum contra os muçulmanos. Assim sendo, é natural que os capitães ligados a estes sectores da corte tudo fizessem para dificultar a vida ao embaixador etíope. Este, no entanto, acabou por chegar a Lisboa, sendo recebido pelo rei com cortesia.

D. Manuel decide responder com uma outra embaixada, chefiada por Duarte Galvão e que deveria entregar valiosos presentes ao imperador etíope. Porém, a morte deste embaixador, já não muito longe da Etiópia, fez abortar a missão e adiou os contactos com aquele reino. O pobre Mateus, que já à ida para Portugal sofrera toda uma série de vexames, enfrentou assim novas atribulações. Vagueou durante vários anos pela Índia, sofrendo um tratamento inadequado à sua dignidade de embaixador.

Só em 1520 é que o novo vice-rei Diogo Lopes de Sequeira decidiu refazer a embaixada, que atingiu finalmente a Etiópia. Aqui, os portugueses aperceberam-se finalmente da realidade deste reino, bem diferente das histórias que corriam na Europa sobre o Prestes João: tratava-se na verdade de um pequeno reino montanhoso, cristão é certo, mas de dimensão modesta, cercado por reinos muçulmanos por todos os lados e que esperava a ajuda portuguesa para se libertar da crescente asfixia a que se via sujeito. A embaixada trocou uma série de presentes, demorando-se cerca de seis anos nesta região.

Existe um relato pormenorizado desta embaixada, escrito pelo padre Francisco Álvares e chamado “Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias”. Trata-se de um precioso testemunho da situação social, política e económica da Etiópia daquela época, na verdade a primeira descrição deste reino de que há conhecimento. É o padre Francisco Álvares que nos desvenda finalmente o destino de Pero da Covilhã, que chegara a este reino mais de trinta anos antes. Fora bem recebido pelo rei, passando a ocupar um lugar na sua corte. Porém, havia sido impedido de regressar a Portugal, sendo forçado a permanecer no reino. Eis o que diz a este respeito Francisco Álvares, apercebendo-se de que elementos da corte etíope pressionavam o rei a que os não deixasse sair:

“[Estes homens] aconselhavam ao Preste que nos não deixasse tornar nem sair de seus reinos porque dizíamos mal da terra, e que sempre fora costume destes reinos não deixarem ir os forasteiros que a eles vinham. Nós tínhamos suspeita disto pelo que ouvíamos e estes nos diziam e pelo que já sabíamos de João Gomes e João clérigo, portugueses que cá vieram. E a estes portugueses não os deixaram ir, porque diziam que lhes causaria morte irem-se. E assim Pero da Covilhã, outro português que há quarenta anos que partiu de Portugal, por mandado del rei D. João, e trinta e tantos anos que é nestes reinos.”

Mau-grado estes mal-entendidos, a embaixada foi bem sucedida, e os contactos entre Portugal e a Etiópia desenvolveram-se nos anos seguintes. A presença portuguesa neste reino passou a ser cada vez mais marcada pela missionação, principalmente jesuítica, que tentava modificar a religião local. É que os etíopes eram cristãos, mas não católicos. Eram coptas, estando sujeitos ao Patriarca de Alexandria, e não ao Papa de Roma. Havia, assim, diversas diferenças que os jesuítas tentaram, em vão, eliminar, fracassando igualmente em tentar submeter a igreja local à obediência papal. De resto, a influência portuguesa manteve-se forte durante o século XVI e o XVII, deixando profundas marcas na construção das casas e das fortalezas, pontes e vias de comunicação, que ainda hoje podem ser apreciadas em diversas cidades e ruínas etíopes.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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