FRANCISCO VIEIRA DE FIGUEIREDO

Uma das facetas mais interessantes da história da presença portuguesa no Oriente nos séculos XVI e XVII é a história dos que daqui partiram em busca de uma vida melhor, esperando encontrar na Índia formas de enriquecer e escapar à pobreza em que viviam em Portugal. A verdade, porém, é que raramente conhecemos com algum pormenor tais biografias. A vida dos vice-reis ou governadores, de grandes figuras da nobreza ou de grandes guerreiros é bem mais fácil de traçar. Sobre a história individual dos de origem humilde, mesmo que por lá tenham enriquecido, há geralmente pouco a relatar. Uma das excepções a esta regra é Francisco Vieira de Figueiredo. Outro motivo adicional de interesse acerca desta figura é o facto de ter vivido numa época já distante dos primeiros tempos áureos do Estado da Índia, marcada, pelo contrário, pela recessão e pelas dificuldades crescentes que os portugueses sentiam no Oriente face a outras potências europeias, como os holandeses ou os ingleses. É, assim, desta figura excepcional que vamos hoje falar, traçando as principais etapas da sua vida e da sua importância para a história da presença portuguesa na Ásia.

Francisco Vieira de Figueiredo nasceu no Azambujal, perto de Ourém, algures nos princípios do século XVII. Era de origem humilde, sabendo-se apenas ter sido o seu avô pedreiro de profissão. Partiu para a Índia como muitos outros no seu tempo: jovem, sem dinheiro e provavelmente alistado como soldado para servir no Oriente. Tal terá ocorrido em 1622 ou 1623. Nada se sabe dos primeiros anos de estadia na Índia. Provavelmente, suportou as privações inerentes à dura vida de soldado, mas cedo terá preferido esquivar-se a tais dificuldades passando a estabelecer-se como mercador, o que sem dúvida lhe alargava consideravelmente os horizontes. Alguns anos mais tarde vamos encontrá-lo já como mercador estabelecido na costa do Coromandel, ou seja na costa oriental indiana onde os portugueses ainda possuíam algumas pequenas cidades costeiras, nomeadamente Negapatão onde Figueiredo viveu durante alguns anos.

O Estado Português da Índia vivia nesta altura momentos particularmente difíceis. Desde os finais do século XVI que holandeses e ingleses haviam chegado aos mares do Oriente, procurando também eles buscar a fonte dos ricos produtos asiáticos que os portugueses haviam sido os primeiros a contactar directamente. Inicialmente virados unicamente para o comércio, quer os holandeses quer os ingleses foram a pouco e pouco competindo directamente com os portugueses, acabando por atacar directamente as armadas e cidades portuguesas. Estando nesta altura sujeito a Espanha, Portugal não possuía força suficiente para enfrentar tão poderosa ameaça aos seus interesses asiáticos. A Restauração da independência nacional, em 1640, poucas melhoras pôde fazer à situação que se apresentava cada vez mais difícil. Os holandeses eram quase senhores absolutos dos mares do Extremo Oriente, continuando a atacar os navios e cidades portuguesas. É neste cenário que irá sobressair a figura de Francisco Vieira de Figueiredo.

Francisco Vieira de Figueiredo não foi um guerreiro, nem praticou feitos heróicos que merecessem louvores especiais. O seu papel no seio do conflito luso- holandês foi, no entanto, de primeiro plano. Por volta de 1642, Figueiredo transfere-se da Índia para o sultanato de Macassar, na actual Indonésia, que passa a ser a sede dos seus negócios. Macassar, nesta altura já um reino muçulmano, protegia os potugueses, partilhando a mesma aversão aos holandeses e às suas pretensões monopolistas. É preciso entender que estes eram agora senhores quase absolutos daqueles mares, sobretudo após terem conquistado Malaca aos portugueses. Um mercador português como Vieira de Figueiredo, que vivia do comércio marítimo de longo curso, entre esta região, a Índia e a China, vivia sob permanente ameaça das armadas holandesas. A sua suprema habilidade foi a de conseguir estabelecer as melhores relações com o sultão de Macassar, que os holandeses não se atreviam a desafiar abertamente. Este sultão, aliás, para além da simpatia que sentia pelos portugueses, falava português, assim como muitos da sua corte. Figueiredo, através da sua ligação ao sultão, conseguiu diversos vistos para os seus navios junto dos holandeses, chegando mesmo a viajar directamente para Goa, como emissário do sultão, não tendo os holandeses outro remédio senão facultar a passagem dos seus navios.

A habilidade deste português levou-o mesmo a ser bem recebido pelas autoridades holandesas em Batávia, hoje Jakarta. Este bom relacionamento foi, porém, de curta duração. Os holandeses deixaram de ver com bons olhos o crescimento do poder e influência deste homem, pelo que, aproveitando o fim de um período de tréguas com Portugal, passaram a atacar os seus navios. Figueiredo respondeu à letra, convencendo o sultão de Macassar a fazer guerra aos holandeses. Não levou, porém, a melhor, sendo obrigado a pedir a paz pouco depois. Instalou-se assim um clima de desconfiança e tensão entre este homem e os holandeses, como descreve numa carta ao vice-rei português:

“[os holandeses] fazem-me grandes cortesias e desejam muito de se meter comigo; eu lhes faço as mesmas com grande cautela, porque de Jacarta tenho aviso de quem sabe de seus conselhos, me não fie deles por nenhum caso, e que veja como aceito seus brindes, suposto que eu não bebo vinho; se o embaixador me convidasse à sua nau, que não fosse. Tudo o experimentei, porque me convidou, e escusei-me (…)”

Durante vários anos, Francisco Vieira de Figueiredo continuou a promover as actividades anti-holandesas, em colaboração com o sultão de Macassar. Fê-lo inteiramente por sua conta e risco, já que não recebeu nenhum tipo de apoio por parte das autoridades portuguesas a quem, na verdade, as suas acções muito convinham. Em 1660, finalmente, as autoridades holandeses decidiram-se a eliminar de vez este incómodo adversário, atacando Macassar e forçando todos os portugueses a abandonar o reino. Manobrando com grande habilidade junto do governador holandês, Figueiredo conseguiu pemanecer durante mais alguns anos. É por esta altura que o rei de Portugal o nomeia para a Ordem de Cristo, como reconhecimento pelos serviços prestados. Tal não deixou de suscitar algumas invejas: diziam muitos que a sua origem humilde o impedia de receber tal honra, já que a mesma estava destinada a pessoas de qualidade, como se dizia na época, ou seja, fidalgos. O parecer acabou por lhe ser favorável, não antes de se averiguar não possuir sangue judeu nem mouro.

Francisco Vieira de Figueiredo viveria pouco mais. Em 1665, decididamente fartos desta figura, os holandeses obrigaram-no a deixar Macassar, instalando-se então em Larantuca, não longe de Timor. Aqui viria a morrer dois anos depois. A ele se deveu, para além do fortalecimento das raízes portuguesas na região, a manutenção do comércio de diversos produtos locais nas mãos dos portugueses. Mais importante, num processo que se estende até aos nossos dias, foi o seu contributo decisivo para o reforço da presença portuguesa em Timor, que os holandeses nunca conseguiram eliminar.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Anúncios