O INFANTE D. HENRIQUE E A EXPLORAÇÃO DO LITORAL AFRICANO

O início do processo dos Descobrimentos Portugueses ficou a dever-se, como é sobejamente conhecido, á acção verdadeiramente ímpar de um homem: o Infante D. Henrique. De facto, foi sob as suas ordens e o seu impulso que se iniciaram as primeiras viagens de exploração da costa africana, no caminho que mais tarde levaria os portugueses á Índia e ao Brasil. Mas convém não esquecer os homens que, agindo sob as suas ordens, as souberam levar a bom termo. Por outro lado, parece certo que o avanço do descobrimento da costa de África não obedeceu a um plano pré-estabelecido pelo Infante, mas antes resultou de uma série de factores, como as condições políticas do Reino, os proveitos obtidos pelas viagens, o insucesso da política militar marroquina, a resolução gradual dos problemas de navegação que surgiam passo a passo e, evidentemente, a teimosia do Infante em prosseguir mais além. É certo que os seus objectivos no início das viagens não são os mesmos á data da sua morte, quando os portugueses já chegaram a zonas longínquas de África, os conhecimentos náuticos adquiridos são já importantes, os proveitos económicos das viagens já visíveis.

O sucesso da conquista de Ceuta, em 1415, abriu portas á presença portuguesa além-fronteiras. É o Infante D. Henrique que toma a seu cargo a empresa africana, de prosseguimento da conquista de Marrocos, facilitada, pensava-se, pelo controle do estreito de Gibraltar permitido pela conquista de Ceuta. Em 1419, data provável, os seus homens chegam á ilha da Madeira, alguns anos depois tentam, pela primeira vez e sem efeito, a conquista das Canárias, e chegam aos Açores talvez ainda na década de 1420.

A partir de 1422, o Infante pressiona os seus homens a passar o Cabo Bojador com o objectivo provável de contornar Marrocos pelo Sul. De qualquer modo, os objectivos de conquista do Norte de África sobrepõem-se ainda a quaisquer outros. Conta o cronista Gomes Eanes de Zurara como durante vários anos tentaram os homens do Infante passar o dito Cabo, sem sucesso. São bem conhecidos os motivos que o Infante teria para tal feito, segundo o cronista: vontade de conhecer a amplitude do poderio muçulmano, procura de aliados cristãos para uma aliança, motivações económicas, simples curiosidade. Finalmente, em 1433, enviou um seu escudeiro, Gil Eanes, numa barca, a fazer uma vez mais a tentativa. Mas devido ao temor existente de tal empreendimento, o mesmo regressou sem o conseguir. E Zurara continua:

“Mas logo no ano seguinte o Infante fez armar outra vez a dita barca. E chamando Gil Eanes de parte, o encarregou muito que, todavia, se trabalhasse de passar aquele cabo. (…) O Infante era homem de mui grande autoridade, pela qual suas admoestações, por brandas que fossem, eram para os sisudos de muito grande encargo, como se mostrou por este, que depois destas palavras determinou, em sua vontade, de não tornar ante a presença de seu senhor sem certo recado de aquilo por que o enviava. Como de facto fez, pois, aquela viagem, menosprezando todo perigo, dobrou o cabo [para] além, onde achou as coisas muito pelo contrário do que ele e os outros até ali presumiram.”

Em 1435 parte novamente na expedição de Afonso Gonçalves Baldaia, avançando cerca de 50 léguas para além do Bojador mas sem outro resultado. A suspensão das viagens de exploração, no ano seguinte, deveu-se a duas causas distintas: em primeiro lugar, ao esforço de guerra em preparação para a conquista de Tânger, que era na época muito mais importante do que as viagens de descobrimento; depois, um problema náutico: os navios utilizados até então, barcas ou barinéis, de pano redondo, só conseguiam navegar com ventos favoráveis. Mas a sul do Cabo Branco os portugueses deparam com ventos permanentes de nordeste, e com correntes marítimas desfavoráveis, o que tornava muito difícil, senão impossível, o regresso ao reino.

Só alguns anos mais tarde a situação seria desbloqueada: A regência de D. Pedro incentivava os descobrimentos em desfavor das expedições militares em Marrocos, e o surgimento de um novo tipo de navio, a caravela, que tinha capacidade de navegar com ventos desfavoráveis, permitiu um rápido avanço para Sul. De facto, devido á aridez da costa saariana, os portugueses, resolvido que estava o grande problema náutico que era o regresso ao reino, passam a aventurar-se cada vez para mais longe.

Em 1441, Antão Gonçalves contacta com os primeiros azenegues e regressa com alguns produtos, mas é a expedição de Nuno Tristão, em 1443, a mais importante: chega a Arguim, onde os portugueses criarão uma feitoria, e traz os primeiros escravos. Pela primeira vez, os descobrimentos criam possibilidades de real rentabilidade económica, e o Infante D. Henrique recebe os primeiro dividendos: no mesmo ano, o regente entrega-lhe os quintos das presas e dos resgates, ou seja, um quinto de tudo o que fosse capturado ou traficado cabia-lhe de pleno direito. No ano seguinte executa-se a primeira grande expedição comercial: Antão Gonçalves, Diogo Afonso e Gomes Pires estabelecem as bases do comércio pacífico na região do Rio do Ouro. Resgatam uma grande quantidade de escravos, que serão vendidos em Lagos. São estabelecidos os primeiros contactos com os reis da região, de forma a permitir a continuidade do comércio.

No entanto, o fim da regência de D. Pedro, após a batalha de Alfarrobeira, em 1449, provoca novo abrandamento das viagens de descobrimento. O rei D. Afonso V ressuscita as expedições militares a Marrocos como prioridade da Coroa, com a conquista de Alcácer-Ceguer e Arzila. Por outro lado, os lucros do comércio atenuam a necessidade de avanço para sul, e novos problemas náuticos surgem. Surge também hostilidade por parte de algumas populações, como as dos Rios da Guiné, onde é morto Nuno Tristão. Zurara descreve assim o episódio:

“(…)Começando assim de seguir pelo rio avante, a maré crescia; com a qual foram assim entrando, seguindo contra umas casas que viam á mão direita. E sucedeu que, antes de saírem em terra, saíram da outra parte 12 barcos, nos quais estariam uns 70 ou 80 guinéus, todos negros, e com arcos nas mãos. E porque a água crescia, passou-se a além um barco dos guinéus, e pôs os que levava em terra, de onde começaram a assetar aos que iam nos batéis. (…) Ali foi morto aquele nobre cavaleiro Nuno Tristão, muito desejoso desta vida, porque não houvera lugar de comprar sua morte como valente homem (…)”.

No entanto, o ritmo de exploração abranda mas não cessa. O desenvolvimento do comércio atinge uma nova fase com o estabelecimento permanente em Arguim, enquanto se atinge um triunfo diplomático importante: a bula papal “Romanus Pontifex”, em 1455, que atribui a Portugal o exclusivo do comércio africano.

Em 1460, á data da morte do Infante D. Henrique, os portugueses haviam já atingido a Serra Leoa, no Golfo da Guiné. Os Descobrimentos, embora ainda sejam um empreendimento secundário, constituem já um vector importante na política nacional. De facto, só com D. João II os Descobrimentos se tornarão uma verdadeira empresa de Estado, com um objectivo bem definido: a Índia. Mas sem o impulso decisivo do Infante D. Henrique, cuja personalidade excepcional permitiu vencer os obstáculos existentes e prosseguir uma empresa aparentemente ingrata, o papel primordial de Portugal no processo do Descobrimento do Mundo teria sido certamente bem diferente.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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