JOÃO FERNANDES E OS “LANÇADOS” EM ÁFRICA

No quadro das figuras mais importantes dos Descobrimentos Portugueses do século XV figuram os nomes, por todos conhecidos, de Gil Eanes, Antão Gonçalves, Diogo Cão ou Bartolomeu Dias. Estes foram, de facto, alguns dos homens que efectuaram as viagens mais importantes para o descobrimento da costa africana e do Atlântico, permitindo assim o bom sucesso da empresa iniciada nos princípios do século pelo Infante D. Henrique. No entanto, outros há que nem sempre merecem a devida atenção, permanacendo na penumbra embora o seu papel tivesse sido tão ou mais importante do que as dos grandes descobridores. Entre estes encontra-se o de João Fernandes, primeiro exemplo de um conjunto de homens que se veio a revelar fundamental para os Descobrimentos: os chamados “lançados”, de que vamos hoje falar.

A designação de “lançados” aplica-se aos homens que, por vontade própria ou por imposição superior, eram deixados em determinados pontos da costa desconhecida, de África ou mais tarde do Brasil, com a missão de contactarem as populações locais e de aí viveram durante um determinado tempo com o objectivo de recolher informações, quer seja das condições locais de clima, relevo e geografia, quer dos produtos da região que pudessem interessar aos portugueses, quer ainda das gentes da terra, da sua língua, organização e carácter, religião e comércio. Algum tempo depois, quando os navios portugueses voltassem a estas paragens, podiam transmitir os conhecimentos adquiridos, funcionando como uma espécie de agentes intermediários que facilitavam a comunicação e o comércio. Eram, assim, verdadeiros aventureiros que se arriscavam em território desconhecido, muitas vezes com o risco da própria vida, e que permitiam aos portugueses obter informações preciosas e muito úteis.

João Fernandes foi o primeiro “lançado” português, e também o primeiro explorador terrestre de África. Conhece-se muito pouco da sua vida, mas o seu papel pioneiro merece uma especial atenção. João Fernandes era escudeiro e embarcou em 1444 no navio de Antão Gonçalves em direcção à costa ocidental africana, que os portugueses exploravam por esta altura. Para além das viagens em que se avançava cada vez mais para Sul, havia igualmente expedições comerciais e de reconhecimento, com o objectivo de obter presas ou resgates para o Infante D. Henrique. Foi este o caso da expedição em causa, mas esta poucos ou nenhuns proveitos obteve, sendo o facto mais importante a assinalar o de João Fernandes ter sido deixado, provavelmente por vontade própria, na costa. De facto, segundo nos conta o cronista Gomes Eanes de Zurara, João Fernandes era um homem especialmente curioso e desejoso de conhecer língua local e as potencialidades daquela região, para depois poder informar o Infante.

O português permaneceu na região do Rio do Ouro, na costa da actual Mauritânia, mais de sete meses, mas os seus companheiros não o esqueceram. Já Antão Gonçalves lembrara ao Infante D. Henrique que um dos seus ficara em África, e que era altura de lá regressar e de o contactar. Voltaram então aquela região, acabando por encontrar João Fernandes. Inicialmente, não o reconheceram; apenas viram um homem que os chamava de terra, e pensaram ser um habitante local; só quando reconheceram a sua linguagem como Português é que o identificaram como sendo o companheiro que haviam deixado sete meses antes, como descreve o cronista Zurara:

“E bradando [João Fernandes] para aquela parte de onde eles vinham, foram os outros muito alegres, pensando que era algum mouro que vinha de sua vontade para eles, a fim de fazer algum resgate por algum daqueles cativos. Porém, quando conheceram sua linguagem pela qual se nomeou por aquele que era, firam ainda muito mais alegres, pelo que fizeram sua pressa muito maior.”

O cronista admira-se com tal feito, que na época era motivo de espanto. O que lhe causou maior admiração foi o facto de João Fernandes sobreviver sem pão, vinho ou carne, alimentando-se com os produtos da região, que eram peixe e leite de camela, para além de água salobra. De resto, a sua sobrevivência numa região muito quente e árida ficou a dever-se ao bom relacionamento com as populações locais que conseguiu desde cedo estabelecer. Contou então as suas peripécias e viagens durante o tempo em que aqui permaneceu, dando boas informações sobre as populações daquela região, que apesar de muçulmanos o trataram com atenção e cuidado.

João Fernandes regressaria algumas vezes a esta terra, pois os conhecimentos que adquirira, nomeadamente a língua local, eram preciosos para o sucesso das trocas comerciais que começavam a dar bom lucro. Foi, aliás, na viagem em que foi encontrado pelos portugueses que se fizeram os primeiros resgates de ouro nesta região, o que viria a desenvolver-se nos anos seguintes. Nada mais se sabe da vida deste homem, não se conhecendo quaisquer outras informações respeitantes á sua missão, pois não nos deixou qualquer escrito.

João Fernandes foi o primeiro “lançado” português em África. Outros se seguiriam logo nos anos seguintes, desempenhando um papel fundamental na Expansão portuguesa. Uma boa parte dos “lançados” eram condenados por diversos crimes, que seguiam a bordo dos navios e a quem eram deixadas as missões mais perigosas. Muitas vezes, o serem deixados em regiões desconhecidas funcionava como motivo de perdão das penas a que estavam condenados, se conseguissem levar a bom termo as respectivas missões. Também ocorria com frequência capturar-se gente de uma determinada região, que era depois levada para Portugual e a quem era ensinado o Português e a cultura europeia. Posteriormente enviados para outras regiões, estes homens e mulheres funcionavam igualmente como “lançados”, pois passavam a servir como intermediários entre os portugueses e as populações locais para o estabelecimento de contactos e de comércio.

D. João II, ao colocar em prática o seu plano de descobrimento da Índia e do Prestes João, apostou claramente nos “lançados” como uma das principais fontes de informação a utilizar, o que prova até que ponto tal podia ser útil. Vasco da Gama utilizou na sua viagem diversos lançados, nomeadamente João Machado, que ficou na costa Oriental de África. também Pedro Álvares Cabral utilizou dois lançados para explorarem a terra do Brasil, que fora o primeiro a descobrir.

De resto, o papel destes homens no Brasil foi um pouco diferente do que ocorreu em África ou no Oriente. Aqui, os homens que foram deixados na costa com o objectivo de contactarem com as populações locais e recolherem informações geográficas, como João Ramalho, António Rodrigues ou Diogo Álvares acabaram por se estabelecer e criar laços familiares e de amizade com os ameríndios que, mais tarde, facilitaram a fixação portuguesa no domínio sul-americano.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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