OS PORTUGUESES EM MARROCOS NO SÉCULO XVI

Como ficou visto anteriormente, o interesse português por Marrocos e pelo Norte de África não foi permanente nem contínuo. É verdade que a conquista de Ceuta constituiu o arranque dos Descobrimentos, e que os portugueses acabaram por tomar uma série de praças marroquinas ao mesmo tempo que avançavam ao longo da costa da Guiné e promoviam a colonização da Madeira, Açores, Cabo verde e São Tomé. No entanto, no final do século XV, Marrocos era uma mera peça num tabuleiro que agora se estendia á Índia o ao Brasil. Vamos hoje falar acerca do que aconteceu nos séculos seguintes, desde o reinado de D. Manuel até ao fim da presença portuguesa em Marrocos.

O reinado de D. Mauel marca o apogeu da presença portuguesa em Marrocos. Foi nesta época que os portugueses mais directamente interferiram na política interna marroquina. Na continuação da política de D. João II, o interesse português centrava-se cada vez mais no Sul de Marrocos, e já não nas praças do Norte, junto ao Estreito de Gibraltar. Era no Sul que se localizava a rica região produtora de cereais e onde se obtinham os produtos para o comércio português na Guiné. Os portugueses abrem uma feitoria em Meça, e mais tarde constroem o castelo de Agadir. Porém, ao contrário de D. João II, foram feitas conquistas: primeiro Safim, depois Azamor e Mazagão, Mogador e Aguz. Outras tentativas falharam, nomeadamente as expedições contra Mamora, Casablanca, Tetuão e Marrakesh.

Um dos aspectos mais interessantes da política de D. Manuel é o estabelecimento de uma zona de influência portuguesa na Meseta marroquina, cujos habitantes se tornam aliados dos portugueses: são os chamados “mouros de pazes”. O plano de D. Manuel era o de cerco ao reino de Fez, o que conseguiu até certa altura mediante as posições conquistadas que referimos há pouco. Porém, o fracasso da expedição contra Mamora, ocorrido em 1515, comprometeu tais planos e impediu o movimento seguinte, que seria certamente o ataque directo a Fez. Nesta expedição morreram cerca de 4000 portugueses, o que foi uma séria derrota para os planos do rei português. Esta data marca, assim, o abrandamento da ofensiva em Marrocos, que nunca mais foi retomada. Já se anunciava o recuo que se seguiria. Com a morte de D. Manuel em 1521, encerra-se este período de forte interferência em Marrocos, e inicia-se a decadência da presença portuguesa nesta região.

Uma das características mais importantes da presença portuguesa em Marrocos, por vezes esquecida, é que o maior ou menor interesse por esta região variava igualmente consoante as condições políticas locais. Em primeiro lugar, Marrocos não era um reino unitário, como hoje em dia. Havia uma capital principal, Fez, mas na realidade diversas regiões, como a cidade de Marrakesh, eram autónomas, sobretudo quando o poder de Fez se encontrava enfraquecido. A população marroquina era heterogénea, sem uma forte identidade nacional; havia frequentes guerras civis e perturbações internas; diversos grupos sucediam-se no poder político, variando assim a oposição à presença portuguesa. A “jihad”, ou guerra santa, uma das bases do Islão, era teoricamente um apelo unânime à luta contra os portugueses, mas a realidade demonstrava que algumas dinastias não sentiam este apelo religioso, o que facilitou a penetração portuguesa até à década de 1520.

Por esta altura, este cenário altera-se profundamente. As interferências portuguesas, sobretudo o ataque directo a Marrakesh em 1514 faz despertar uma forte reacção anti-portuguesa e anti-cristã, que despoleta a “jihad” proclamada por diversos chefes religiosos por todo o Marrocos, que conseguem aglutinar em torno de si largos sectores da população. Deste modo, levanta-se uma onda anti-portuguesa que acaba por destronar os sultões reinantes, acusados de corrupção e fraqueza face à interferência estrangeira, isto é, dos portugueses. Este movimento culminará em 1549 com o estabelecimento da dinastia saádida, aguerrida e intolerante para com os cristãos.

Assim, o reinado de D. João III é marcado pelo agravamento das condições em Marrocos. O próprio rei não estava interessado em prosseguir a política do seu pai, considerando que apenas trazia despesas ao reino sem quaisquer resultados práticos. É preciso não esquecer que as dificuldades económicas cresciam igualmente na Índia, pelo que se sentia a necessidade de racionalizar os recursos e reorganizar o Império. Deste modo, D. João III pensou abandonar diversas praças, mantendo apenas aquelas de maior importância estratégica. Esta medida foi muito contestada, tendo muitos elementos da corte manifestado oposição a tal eventualidade. O rei pediu autorização ao Papa para abandonar Safim e Azamor, o que foi feito em 1541 após a perda de Agadir. Os portugueses viriam ainda a abandonat Arzila e Alcácer-Ceguer, alguns anos mais tarde.

Após o reinado de D. João III, sentia-se por todo o país um clima de insatisfação face ao estado a que chegara o Império Português, com o agravamento da situação financeira da Índia. Surgiam propostas alternativas de expansão, a mais importante das quais era a que previa a transferência do interesse português da Índia para o Atlântico. Aqui se localizavam as mais promissoras possessões portuguesas, África e sobretudo o Brasil, ao contrário da Índia, demasiado longínqua e dispendiosa para os difíceis tempos que se avizinhavam. O abandono de Marrocos suscitara, como vimos, forte oposição interna. Com a subida ao trono do jovem D. Sebastião, dado às aventuras guerreiras e ao espírito cavaleiresco, estava assim preparado o cenário para um regresso a Marrocos. O próprio rei estava pessoalmente empenhado nesta empresa, aguardando apenas uma oportunidade para intervir. Em 1474-75 fez uma primeira incursão em Marrocos, tendo para tal obtido uma bula de cruzada. Tudo se encaminhava, assim, para Alcácer-Quibir.

Por esta altura, a política interna marroquina era marcada pelo avanço dos turcos no Norte de África. Um rei marroquino, Mulei Mafamede, deparou com uma forte oposição do seu sobrinho, Mulei Maluco, apoiado pelos turcos. Estando assim iminente um estado de guerra civil, D. Sebastião aproveitou para intervir ao lado do sultão ameaçado, obtendo assim um bom pretexto para orgabizar uma expedição que retomaria, pensava-se, o domínio português na região. Como é sabido, o rei estava redondamente enganado. Sem ligar às dificuldades de organização do exército, parte ele próprio à frente de uma pequena força que desembarca em Marrocos e acabaria por ser destruída, como é sabido, em Alcácer-Quibir, tendo o próprio D. Sebastião desaparecido no desastre, como conta um cronista:

“Cristovão de Moura, ficando só com El-Rei, foram cercados de grande quantidade de mouros. Um mouro velho, de cima do cavalo em que estava, abrindo caminho por entre os outros mouros, se chegou a El-Rei que já estava em prisão sem nada na cabeça, e lhe derrubou a sobrancelha direita e deu com ele do cavalo abaixo; e os outros mouros se sevaram nele dando-lhe outras na cabeça e pela garganta com que o acabaram de o matar.”

Assim terminou a última empresa marroquina portuguesa. Restavam três praças nas mãos dos portugueses, que uma após outra acabaram por se perder. A primeira foi Ceuta. Quando em 1640 é aclamado D. João IV e se inicia o período da Restauração, foram enviados mensageiros para todas as possessões portuguesas. O capitão de Ceuta recusou-se a jurar fidelidade ao novo rei, mantendo-se fiel ao rei espanhol. Portugal aceitou posteriormente a perda de Ceuta nos tratados de paz que puseram fim à guerra entre os dois países. Em 1658 foi a vez de Tânger, que foi dada aos ingleses como parte do dote de casamento (em conjunto com Bombaim, na Índia) da princesa D. Catarina com o rei de Inglaterra Carlos II. Finalmente, em 1769, e devido ao crescimento das dificuldades de manutenção da última cidade, Mazagão, o Marquês de Pombal ordena o seu abandono, tendo-se procedido à sua evacuação e á sua entrega ao rei de Fez.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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