Abril 2009


Historiador (Travassós, Viseu, 1722 – São Julião da Barra, Oeiras, 1776). Jesuíta desde 1739, partiu para o Brasil dois anos mais tarde, vivendo a maioria do tempo no vale amazónico. Foi desterrado como os demais jesuítas em 1759, vivendo desde então encarcerado até à morte. Na prisão escreveu o livro Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas, uma das fontes mais genuínas para o conhecimento daquela área do território brasileiro.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

JOÃO FERNANDES E OS “LANÇADOS” EM ÁFRICA

No quadro das figuras mais importantes dos Descobrimentos Portugueses do século XV figuram os nomes, por todos conhecidos, de Gil Eanes, Antão Gonçalves, Diogo Cão ou Bartolomeu Dias. Estes foram, de facto, alguns dos homens que efectuaram as viagens mais importantes para o descobrimento da costa africana e do Atlântico, permitindo assim o bom sucesso da empresa iniciada nos princípios do século pelo Infante D. Henrique. No entanto, outros há que nem sempre merecem a devida atenção, permanacendo na penumbra embora o seu papel tivesse sido tão ou mais importante do que as dos grandes descobridores. Entre estes encontra-se o de João Fernandes, primeiro exemplo de um conjunto de homens que se veio a revelar fundamental para os Descobrimentos: os chamados “lançados”, de que vamos hoje falar.

A designação de “lançados” aplica-se aos homens que, por vontade própria ou por imposição superior, eram deixados em determinados pontos da costa desconhecida, de África ou mais tarde do Brasil, com a missão de contactarem as populações locais e de aí viveram durante um determinado tempo com o objectivo de recolher informações, quer seja das condições locais de clima, relevo e geografia, quer dos produtos da região que pudessem interessar aos portugueses, quer ainda das gentes da terra, da sua língua, organização e carácter, religião e comércio. Algum tempo depois, quando os navios portugueses voltassem a estas paragens, podiam transmitir os conhecimentos adquiridos, funcionando como uma espécie de agentes intermediários que facilitavam a comunicação e o comércio. Eram, assim, verdadeiros aventureiros que se arriscavam em território desconhecido, muitas vezes com o risco da própria vida, e que permitiam aos portugueses obter informações preciosas e muito úteis.

João Fernandes foi o primeiro “lançado” português, e também o primeiro explorador terrestre de África. Conhece-se muito pouco da sua vida, mas o seu papel pioneiro merece uma especial atenção. João Fernandes era escudeiro e embarcou em 1444 no navio de Antão Gonçalves em direcção à costa ocidental africana, que os portugueses exploravam por esta altura. Para além das viagens em que se avançava cada vez mais para Sul, havia igualmente expedições comerciais e de reconhecimento, com o objectivo de obter presas ou resgates para o Infante D. Henrique. Foi este o caso da expedição em causa, mas esta poucos ou nenhuns proveitos obteve, sendo o facto mais importante a assinalar o de João Fernandes ter sido deixado, provavelmente por vontade própria, na costa. De facto, segundo nos conta o cronista Gomes Eanes de Zurara, João Fernandes era um homem especialmente curioso e desejoso de conhecer língua local e as potencialidades daquela região, para depois poder informar o Infante.

O português permaneceu na região do Rio do Ouro, na costa da actual Mauritânia, mais de sete meses, mas os seus companheiros não o esqueceram. Já Antão Gonçalves lembrara ao Infante D. Henrique que um dos seus ficara em África, e que era altura de lá regressar e de o contactar. Voltaram então aquela região, acabando por encontrar João Fernandes. Inicialmente, não o reconheceram; apenas viram um homem que os chamava de terra, e pensaram ser um habitante local; só quando reconheceram a sua linguagem como Português é que o identificaram como sendo o companheiro que haviam deixado sete meses antes, como descreve o cronista Zurara:

“E bradando [João Fernandes] para aquela parte de onde eles vinham, foram os outros muito alegres, pensando que era algum mouro que vinha de sua vontade para eles, a fim de fazer algum resgate por algum daqueles cativos. Porém, quando conheceram sua linguagem pela qual se nomeou por aquele que era, firam ainda muito mais alegres, pelo que fizeram sua pressa muito maior.”

O cronista admira-se com tal feito, que na época era motivo de espanto. O que lhe causou maior admiração foi o facto de João Fernandes sobreviver sem pão, vinho ou carne, alimentando-se com os produtos da região, que eram peixe e leite de camela, para além de água salobra. De resto, a sua sobrevivência numa região muito quente e árida ficou a dever-se ao bom relacionamento com as populações locais que conseguiu desde cedo estabelecer. Contou então as suas peripécias e viagens durante o tempo em que aqui permaneceu, dando boas informações sobre as populações daquela região, que apesar de muçulmanos o trataram com atenção e cuidado.

João Fernandes regressaria algumas vezes a esta terra, pois os conhecimentos que adquirira, nomeadamente a língua local, eram preciosos para o sucesso das trocas comerciais que começavam a dar bom lucro. Foi, aliás, na viagem em que foi encontrado pelos portugueses que se fizeram os primeiros resgates de ouro nesta região, o que viria a desenvolver-se nos anos seguintes. Nada mais se sabe da vida deste homem, não se conhecendo quaisquer outras informações respeitantes á sua missão, pois não nos deixou qualquer escrito.

João Fernandes foi o primeiro “lançado” português em África. Outros se seguiriam logo nos anos seguintes, desempenhando um papel fundamental na Expansão portuguesa. Uma boa parte dos “lançados” eram condenados por diversos crimes, que seguiam a bordo dos navios e a quem eram deixadas as missões mais perigosas. Muitas vezes, o serem deixados em regiões desconhecidas funcionava como motivo de perdão das penas a que estavam condenados, se conseguissem levar a bom termo as respectivas missões. Também ocorria com frequência capturar-se gente de uma determinada região, que era depois levada para Portugual e a quem era ensinado o Português e a cultura europeia. Posteriormente enviados para outras regiões, estes homens e mulheres funcionavam igualmente como “lançados”, pois passavam a servir como intermediários entre os portugueses e as populações locais para o estabelecimento de contactos e de comércio.

D. João II, ao colocar em prática o seu plano de descobrimento da Índia e do Prestes João, apostou claramente nos “lançados” como uma das principais fontes de informação a utilizar, o que prova até que ponto tal podia ser útil. Vasco da Gama utilizou na sua viagem diversos lançados, nomeadamente João Machado, que ficou na costa Oriental de África. também Pedro Álvares Cabral utilizou dois lançados para explorarem a terra do Brasil, que fora o primeiro a descobrir.

De resto, o papel destes homens no Brasil foi um pouco diferente do que ocorreu em África ou no Oriente. Aqui, os homens que foram deixados na costa com o objectivo de contactarem com as populações locais e recolherem informações geográficas, como João Ramalho, António Rodrigues ou Diogo Álvares acabaram por se estabelecer e criar laços familiares e de amizade com os ameríndios que, mais tarde, facilitaram a fixação portuguesa no domínio sul-americano.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Vice-rei do Brasil de 1763 a 1767 (? – Lisboa, 9 de Julho de 1791). Senhor de Tábua, Cunha e Ouguela, ficou conhecido como conde da Cunha. Foi trincheiro-mor da Casa Real, deputado da Junta dos Três Estados, capitão de mar-e-guerra na Armada e tenente-general do Exército. Depois de desempenhar as funções de governador e capitão-general de Mazagão, entre 1753 e 1758 assumiu a governação de Angola, onde deu início à exploração do ouro descoberto em Lambige e levou a cabo uma importante obra de fortificação. Herdara o sonho de seu tio D. Luís da Cunha: a travessia dos territórios entre Angola e Moçambique. Assim,em vez de projectos optou por fazer a tentativa, escolhendo dois homens que considerava terem as qualidades para tão arriscada missão. Comandada por Manuel Correia Leitão e António Francisco Grisante, a expedição partiu em 1755. Porém, chegados à Corte do rei de Cassanga, foram impedidos de continuar, pois o monarca africano não permitia a passagem do rio Cuango, que fazia parte dos seus territórios. Ficava assim adiada a grande travessia. Em 1759, foi nomeado ministro de Portugal em Paris, vindo, posteriormente, a ser escolhido para executar a nova política administrativa que o marquês de Pombal decidira para o Brasil. Foi nomeado vice-rei daquela colónia ultramarina em 1763. Uma das primeiras medidas que tomou foi a mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro. O novo centro político e administrativo passou então por grandes reformas e melhoramentos. Deu especial atenção às fortificações militares e aos edifícios públicos. Tendo em vista a defesa do território, manteve a presença das forças portuguesas no Sul, de forma a travar os espanhóis que se encontravam na Argentina. Em 1767, por cansaço, pediu dispensa do cargo, sendo substituído por D. António Rolim de Moura Tavares. Regressado ao reino, foi ainda presidente do Tribunal Ultramarino e membro do Conselho de Guerra. Recebeu o título conde em 1760, como reconhecimento dos serviços prestados.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

O INFANTE D. HENRIQUE E A EXPLORAÇÃO DO LITORAL AFRICANO

O início do processo dos Descobrimentos Portugueses ficou a dever-se, como é sobejamente conhecido, á acção verdadeiramente ímpar de um homem: o Infante D. Henrique. De facto, foi sob as suas ordens e o seu impulso que se iniciaram as primeiras viagens de exploração da costa africana, no caminho que mais tarde levaria os portugueses á Índia e ao Brasil. Mas convém não esquecer os homens que, agindo sob as suas ordens, as souberam levar a bom termo. Por outro lado, parece certo que o avanço do descobrimento da costa de África não obedeceu a um plano pré-estabelecido pelo Infante, mas antes resultou de uma série de factores, como as condições políticas do Reino, os proveitos obtidos pelas viagens, o insucesso da política militar marroquina, a resolução gradual dos problemas de navegação que surgiam passo a passo e, evidentemente, a teimosia do Infante em prosseguir mais além. É certo que os seus objectivos no início das viagens não são os mesmos á data da sua morte, quando os portugueses já chegaram a zonas longínquas de África, os conhecimentos náuticos adquiridos são já importantes, os proveitos económicos das viagens já visíveis.

O sucesso da conquista de Ceuta, em 1415, abriu portas á presença portuguesa além-fronteiras. É o Infante D. Henrique que toma a seu cargo a empresa africana, de prosseguimento da conquista de Marrocos, facilitada, pensava-se, pelo controle do estreito de Gibraltar permitido pela conquista de Ceuta. Em 1419, data provável, os seus homens chegam á ilha da Madeira, alguns anos depois tentam, pela primeira vez e sem efeito, a conquista das Canárias, e chegam aos Açores talvez ainda na década de 1420.

A partir de 1422, o Infante pressiona os seus homens a passar o Cabo Bojador com o objectivo provável de contornar Marrocos pelo Sul. De qualquer modo, os objectivos de conquista do Norte de África sobrepõem-se ainda a quaisquer outros. Conta o cronista Gomes Eanes de Zurara como durante vários anos tentaram os homens do Infante passar o dito Cabo, sem sucesso. São bem conhecidos os motivos que o Infante teria para tal feito, segundo o cronista: vontade de conhecer a amplitude do poderio muçulmano, procura de aliados cristãos para uma aliança, motivações económicas, simples curiosidade. Finalmente, em 1433, enviou um seu escudeiro, Gil Eanes, numa barca, a fazer uma vez mais a tentativa. Mas devido ao temor existente de tal empreendimento, o mesmo regressou sem o conseguir. E Zurara continua:

“Mas logo no ano seguinte o Infante fez armar outra vez a dita barca. E chamando Gil Eanes de parte, o encarregou muito que, todavia, se trabalhasse de passar aquele cabo. (…) O Infante era homem de mui grande autoridade, pela qual suas admoestações, por brandas que fossem, eram para os sisudos de muito grande encargo, como se mostrou por este, que depois destas palavras determinou, em sua vontade, de não tornar ante a presença de seu senhor sem certo recado de aquilo por que o enviava. Como de facto fez, pois, aquela viagem, menosprezando todo perigo, dobrou o cabo [para] além, onde achou as coisas muito pelo contrário do que ele e os outros até ali presumiram.”

Em 1435 parte novamente na expedição de Afonso Gonçalves Baldaia, avançando cerca de 50 léguas para além do Bojador mas sem outro resultado. A suspensão das viagens de exploração, no ano seguinte, deveu-se a duas causas distintas: em primeiro lugar, ao esforço de guerra em preparação para a conquista de Tânger, que era na época muito mais importante do que as viagens de descobrimento; depois, um problema náutico: os navios utilizados até então, barcas ou barinéis, de pano redondo, só conseguiam navegar com ventos favoráveis. Mas a sul do Cabo Branco os portugueses deparam com ventos permanentes de nordeste, e com correntes marítimas desfavoráveis, o que tornava muito difícil, senão impossível, o regresso ao reino.

Só alguns anos mais tarde a situação seria desbloqueada: A regência de D. Pedro incentivava os descobrimentos em desfavor das expedições militares em Marrocos, e o surgimento de um novo tipo de navio, a caravela, que tinha capacidade de navegar com ventos desfavoráveis, permitiu um rápido avanço para Sul. De facto, devido á aridez da costa saariana, os portugueses, resolvido que estava o grande problema náutico que era o regresso ao reino, passam a aventurar-se cada vez para mais longe.

Em 1441, Antão Gonçalves contacta com os primeiros azenegues e regressa com alguns produtos, mas é a expedição de Nuno Tristão, em 1443, a mais importante: chega a Arguim, onde os portugueses criarão uma feitoria, e traz os primeiros escravos. Pela primeira vez, os descobrimentos criam possibilidades de real rentabilidade económica, e o Infante D. Henrique recebe os primeiro dividendos: no mesmo ano, o regente entrega-lhe os quintos das presas e dos resgates, ou seja, um quinto de tudo o que fosse capturado ou traficado cabia-lhe de pleno direito. No ano seguinte executa-se a primeira grande expedição comercial: Antão Gonçalves, Diogo Afonso e Gomes Pires estabelecem as bases do comércio pacífico na região do Rio do Ouro. Resgatam uma grande quantidade de escravos, que serão vendidos em Lagos. São estabelecidos os primeiros contactos com os reis da região, de forma a permitir a continuidade do comércio.

No entanto, o fim da regência de D. Pedro, após a batalha de Alfarrobeira, em 1449, provoca novo abrandamento das viagens de descobrimento. O rei D. Afonso V ressuscita as expedições militares a Marrocos como prioridade da Coroa, com a conquista de Alcácer-Ceguer e Arzila. Por outro lado, os lucros do comércio atenuam a necessidade de avanço para sul, e novos problemas náuticos surgem. Surge também hostilidade por parte de algumas populações, como as dos Rios da Guiné, onde é morto Nuno Tristão. Zurara descreve assim o episódio:

“(…)Começando assim de seguir pelo rio avante, a maré crescia; com a qual foram assim entrando, seguindo contra umas casas que viam á mão direita. E sucedeu que, antes de saírem em terra, saíram da outra parte 12 barcos, nos quais estariam uns 70 ou 80 guinéus, todos negros, e com arcos nas mãos. E porque a água crescia, passou-se a além um barco dos guinéus, e pôs os que levava em terra, de onde começaram a assetar aos que iam nos batéis. (…) Ali foi morto aquele nobre cavaleiro Nuno Tristão, muito desejoso desta vida, porque não houvera lugar de comprar sua morte como valente homem (…)”.

No entanto, o ritmo de exploração abranda mas não cessa. O desenvolvimento do comércio atinge uma nova fase com o estabelecimento permanente em Arguim, enquanto se atinge um triunfo diplomático importante: a bula papal “Romanus Pontifex”, em 1455, que atribui a Portugal o exclusivo do comércio africano.

Em 1460, á data da morte do Infante D. Henrique, os portugueses haviam já atingido a Serra Leoa, no Golfo da Guiné. Os Descobrimentos, embora ainda sejam um empreendimento secundário, constituem já um vector importante na política nacional. De facto, só com D. João II os Descobrimentos se tornarão uma verdadeira empresa de Estado, com um objectivo bem definido: a Índia. Mas sem o impulso decisivo do Infante D. Henrique, cuja personalidade excepcional permitiu vencer os obstáculos existentes e prosseguir uma empresa aparentemente ingrata, o papel primordial de Portugal no processo do Descobrimento do Mundo teria sido certamente bem diferente.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Fundador da cidade de Santos (Porto, 1507? – Santos, 1592). Fidalgo da Casa Real, partiu para o Brasil, em 1530, na esquadra de Martim Afonso de Sousa, capitão-donatário de São Vicente, de quem obteve por doação (1532) várias terras na parte setentrional daquela ilha. Regressado a Portugal, em 1536 recebeu da esposa de Martim Afonso de Sousa a sesmaria de Jeritatiba, uma das mais vastas do litoral da capitania de São Vicente, que incluía a ilha Pequena (actual ilha Barnabé). Ali se instalou com os seus familiares, pelo menos até 1541, iniciando a cultura de cana-de-açúcar. Seria um dos iniciadores da grande propriedade rural, tendo adquirido terras no litoral, de onde exportava os seus produtos para o continente. Ainda em 1541, conseguiu do capitão-mor de São Vicente a transferência do antigo porto situado na Ponta da Praia, para o lagamar do Enguaguaçu, junto a um pequeno morro (mais tarde chamado Outeiro de Santa Catarina) perto do qual fora construída uma capela, já cercada por várias casas. Com o aumento do comércio marítimo e o início da exploração da mão-de-obra escrava, a povoação, que cresceu rapidamente, passaria a ser conhecida como Porto de São Vicente. Em 1543,fundou ali uma igreja e a primeira misericórdia que houve no Brasil e em toda a América, denominada Santa Casa da Misericórdia de Santos. Investido das funções de capitão-mor, concedeu o foral de vila à povoação por ele fundada, com o nome de Vila do Porto de Santos, actualmente cidade de Santos. Com os seus domínios progressivamente alargados, em 1662 obteve de António Rodrigues de Almeida a ilha de Maberecanã e, cinco anos depois, uma vasta região ao longo do rio Mereti, vindo ainda a receber sesmaria de Ambaí, em reconhecimento pelos serviços prestados. Importante foi também a sua actividade na exploração mineira, devendo-se-lhe o primeiro ouro encontrado em território paulista.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

FRANCISCO VIEIRA DE FIGUEIREDO

Uma das facetas mais interessantes da história da presença portuguesa no Oriente nos séculos XVI e XVII é a história dos que daqui partiram em busca de uma vida melhor, esperando encontrar na Índia formas de enriquecer e escapar à pobreza em que viviam em Portugal. A verdade, porém, é que raramente conhecemos com algum pormenor tais biografias. A vida dos vice-reis ou governadores, de grandes figuras da nobreza ou de grandes guerreiros é bem mais fácil de traçar. Sobre a história individual dos de origem humilde, mesmo que por lá tenham enriquecido, há geralmente pouco a relatar. Uma das excepções a esta regra é Francisco Vieira de Figueiredo. Outro motivo adicional de interesse acerca desta figura é o facto de ter vivido numa época já distante dos primeiros tempos áureos do Estado da Índia, marcada, pelo contrário, pela recessão e pelas dificuldades crescentes que os portugueses sentiam no Oriente face a outras potências europeias, como os holandeses ou os ingleses. É, assim, desta figura excepcional que vamos hoje falar, traçando as principais etapas da sua vida e da sua importância para a história da presença portuguesa na Ásia.

Francisco Vieira de Figueiredo nasceu no Azambujal, perto de Ourém, algures nos princípios do século XVII. Era de origem humilde, sabendo-se apenas ter sido o seu avô pedreiro de profissão. Partiu para a Índia como muitos outros no seu tempo: jovem, sem dinheiro e provavelmente alistado como soldado para servir no Oriente. Tal terá ocorrido em 1622 ou 1623. Nada se sabe dos primeiros anos de estadia na Índia. Provavelmente, suportou as privações inerentes à dura vida de soldado, mas cedo terá preferido esquivar-se a tais dificuldades passando a estabelecer-se como mercador, o que sem dúvida lhe alargava consideravelmente os horizontes. Alguns anos mais tarde vamos encontrá-lo já como mercador estabelecido na costa do Coromandel, ou seja na costa oriental indiana onde os portugueses ainda possuíam algumas pequenas cidades costeiras, nomeadamente Negapatão onde Figueiredo viveu durante alguns anos.

O Estado Português da Índia vivia nesta altura momentos particularmente difíceis. Desde os finais do século XVI que holandeses e ingleses haviam chegado aos mares do Oriente, procurando também eles buscar a fonte dos ricos produtos asiáticos que os portugueses haviam sido os primeiros a contactar directamente. Inicialmente virados unicamente para o comércio, quer os holandeses quer os ingleses foram a pouco e pouco competindo directamente com os portugueses, acabando por atacar directamente as armadas e cidades portuguesas. Estando nesta altura sujeito a Espanha, Portugal não possuía força suficiente para enfrentar tão poderosa ameaça aos seus interesses asiáticos. A Restauração da independência nacional, em 1640, poucas melhoras pôde fazer à situação que se apresentava cada vez mais difícil. Os holandeses eram quase senhores absolutos dos mares do Extremo Oriente, continuando a atacar os navios e cidades portuguesas. É neste cenário que irá sobressair a figura de Francisco Vieira de Figueiredo.

Francisco Vieira de Figueiredo não foi um guerreiro, nem praticou feitos heróicos que merecessem louvores especiais. O seu papel no seio do conflito luso- holandês foi, no entanto, de primeiro plano. Por volta de 1642, Figueiredo transfere-se da Índia para o sultanato de Macassar, na actual Indonésia, que passa a ser a sede dos seus negócios. Macassar, nesta altura já um reino muçulmano, protegia os potugueses, partilhando a mesma aversão aos holandeses e às suas pretensões monopolistas. É preciso entender que estes eram agora senhores quase absolutos daqueles mares, sobretudo após terem conquistado Malaca aos portugueses. Um mercador português como Vieira de Figueiredo, que vivia do comércio marítimo de longo curso, entre esta região, a Índia e a China, vivia sob permanente ameaça das armadas holandesas. A sua suprema habilidade foi a de conseguir estabelecer as melhores relações com o sultão de Macassar, que os holandeses não se atreviam a desafiar abertamente. Este sultão, aliás, para além da simpatia que sentia pelos portugueses, falava português, assim como muitos da sua corte. Figueiredo, através da sua ligação ao sultão, conseguiu diversos vistos para os seus navios junto dos holandeses, chegando mesmo a viajar directamente para Goa, como emissário do sultão, não tendo os holandeses outro remédio senão facultar a passagem dos seus navios.

A habilidade deste português levou-o mesmo a ser bem recebido pelas autoridades holandesas em Batávia, hoje Jakarta. Este bom relacionamento foi, porém, de curta duração. Os holandeses deixaram de ver com bons olhos o crescimento do poder e influência deste homem, pelo que, aproveitando o fim de um período de tréguas com Portugal, passaram a atacar os seus navios. Figueiredo respondeu à letra, convencendo o sultão de Macassar a fazer guerra aos holandeses. Não levou, porém, a melhor, sendo obrigado a pedir a paz pouco depois. Instalou-se assim um clima de desconfiança e tensão entre este homem e os holandeses, como descreve numa carta ao vice-rei português:

“[os holandeses] fazem-me grandes cortesias e desejam muito de se meter comigo; eu lhes faço as mesmas com grande cautela, porque de Jacarta tenho aviso de quem sabe de seus conselhos, me não fie deles por nenhum caso, e que veja como aceito seus brindes, suposto que eu não bebo vinho; se o embaixador me convidasse à sua nau, que não fosse. Tudo o experimentei, porque me convidou, e escusei-me (…)”

Durante vários anos, Francisco Vieira de Figueiredo continuou a promover as actividades anti-holandesas, em colaboração com o sultão de Macassar. Fê-lo inteiramente por sua conta e risco, já que não recebeu nenhum tipo de apoio por parte das autoridades portuguesas a quem, na verdade, as suas acções muito convinham. Em 1660, finalmente, as autoridades holandeses decidiram-se a eliminar de vez este incómodo adversário, atacando Macassar e forçando todos os portugueses a abandonar o reino. Manobrando com grande habilidade junto do governador holandês, Figueiredo conseguiu pemanecer durante mais alguns anos. É por esta altura que o rei de Portugal o nomeia para a Ordem de Cristo, como reconhecimento pelos serviços prestados. Tal não deixou de suscitar algumas invejas: diziam muitos que a sua origem humilde o impedia de receber tal honra, já que a mesma estava destinada a pessoas de qualidade, como se dizia na época, ou seja, fidalgos. O parecer acabou por lhe ser favorável, não antes de se averiguar não possuir sangue judeu nem mouro.

Francisco Vieira de Figueiredo viveria pouco mais. Em 1665, decididamente fartos desta figura, os holandeses obrigaram-no a deixar Macassar, instalando-se então em Larantuca, não longe de Timor. Aqui viria a morrer dois anos depois. A ele se deveu, para além do fortalecimento das raízes portuguesas na região, a manutenção do comércio de diversos produtos locais nas mãos dos portugueses. Mais importante, num processo que se estende até aos nossos dias, foi o seu contributo decisivo para o reforço da presença portuguesa em Timor, que os holandeses nunca conseguiram eliminar.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Bispo brasileiro (Campos, Rio de Janeiro, 1742 – Lisboa, 1821). Eclesiástico desde os 30 anos de idade, em 1785 licenciou-se em Direito Canónico pela Universidade de Coimbra. Foi, sucessivamente, arcediago da Catedral do Rio de Janeiro (1784), deputado da Inquisição em Lisboa (1785), director-geral dos Estudos e governador interino de Pernambuco. Durante a sua governação fundou o seminário de Olinda (1794), onde estudariam os sacerdotes enciclopedistas que participaram nos movimentos revolucionários de 1817 e 1824. Regressado a Portugal, foi bispo de Miranda e Bragança (1802) e de Elvas (1806-1817) e inquisidor-mor do Reino (1818), vindo a tornar-se deputado às Cortes Constituintes de 1820. No campo económico, foi um inovador na sua época e no seu meio, tendo-se revelado um homem extremamente pragmático. Entre outras obras, são de sua autoria: Ensaio Económico sobre o Comércio de Portugal e Suas Colónias (1794), Discurso, sobre o Estado Actual das Minas do Brasil (1804) e Análise sobre a Justiça do Comércio do Resgate de Escravos da Costa de África (1808).

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

São por demais conhecidos, na História da Literatura Portuguesa, alguns autores que aliaram a produção literária á dura vida de soldado, sendo os casos mais citados os de Luís de Camões, Diogo do Couto e Fernão Mendes Pinto. Todos conhecem a célebre alocução do Poeta em trazer numa mão a espada, e noutra a pena, sintetizando a ligação entre a escrita e a vida militar. Vamos hoje falar de uma personagem que personifica na perfeição esta imagem. Trata-se de um dos maiores nomes da Literatura Portuguesa do século XVII, por vezes um pouco esquecido, e cuja riqueza do seu trabalho é bem a medida da sua vida aventurosa e atribulada: D. Francisco Manuel de Melo.

D. Francisco Manuel de Melo nasceu em Lisboa, a 23 de Novembro de 1608. Descendia de família fidalga, pelo menos por parte do pai. A sua infância e juventude foi a normal para um elemento da nobreza do seu tempo: teve a sua educação no Paço, e estudou no colégio de Santo Antão, da Companhia de Jesus. Tendo manifestado uma especial inclinação para a Matemática, escreve a sua primeira obra aos 17 anos, nesta disciplina. Porém, logo com esta idade viria a virar-se para a vida militar, que seguiu até ao fim da sua vida. Aos 18 anos teve então o seu baptismo de fogo: em 1626 embarca numa armada destinada a esperar as naus da Índia. Nesta época, a navegação portuguesa, sobretudo os navios que regressavam do Oriente carregados de ricas mercadorias, sofriam o assalto constante de corsários holandeses e ingleses, pelo que a protecção dos navios de carga era uma preocupação constante. De qualquer modo, esta primeira incursão de D. Francisco Manuel de Melo nas lides da guerra foi uma experiência terrível, pois uma tempestade fez dispersar a armada pelas costas do norte de Espanha e a fez naufragar. O desastre, de que a má organização da armada foi em parte culpada, havia de marcar o autor, que lhe dedicou mais tarde uma das suas Epanáforas, a Epanáfora Trágica. É o próprio que confessa a forma como o episódio marcou a sua vida e a sua personalidade:

“Cumprindo-se hoje trinta anos que passei este naufrágio, me está a memória com tanta viveza representando aqueles trabalhos, como se realmente agora me vira entre eles”.

Nos anos seguintes, D. Francisco Manuel de Melo vive a vida da Corte a que se dedica com algum empenho, repartindo o tempo entre a escrita, os corredores dos palácios de Madrid e a vida militar. É por esta altura que escreve as suas primeiras obras em verso. Tal como Camões, era irrequieto e turbulento, tendo ficado registado o duelo que trava com um castelhano em plena cidade de Lisboa. Porém, ao contrário do Poeta, D. Francisco Manuel de Melo ultrapassa este percalço sem dificuldade. Pelo contrário, consegue uma boa posição na corte, em grande parte pelos seus serviços militares. É primeiro armado cavaleiro, depois capitão, e finalmente em 1634 é admitido na Ordem de Cristo. É com o agravamento das condições de vida em Portugal, com o despoletar das revoltas que mais tarde conduzirão á Restauração, que a sua vida irá mudar substancialmente.

Até esta altura, D. Francisco Manuel de Melo não havia despertado ainda para os problemas políticos. Eis então que, em 1637, estala a revolta de Évora. Devido ao seu prestígio e ás capacidades que lhe eram reconhecidas, é enviado como representante do Duque de Bragança, e depois como embaixador de Filipe IV, para conduzir os contactos e as negociações com os rebeldes. Parece que o governo espanhol não terá ficado muito satisfeito com a sua acção, pois envia-o de imediato para a Flandres. Será preso pouco depois, por motivos desconhecidos, mas que indicam já um mau relacionamento com o governo espanhol. No ano de 1640, nas vésperas do 1º de Dezembro, D. Francisco Manuel de Melo está na Catalunha, comandando um exército com o objectivo de combater a revolta contra o governo de Madrid. Quando estala igual rebelião em Portugal, é acusado de simpatia para com os revoltosos e preso durante quatro meses. Acabará por alcançar a liberdade, mas foge imediatamente para Inglaterra onde se declara partidário de D. João IV. Eis como, após uma série de peripécias, D. Francisco Manuel de Melo adere á causa da Restauração em Portugal.

A sua vida ao serviço de D. João IV não ocorreu, porém, como esperara. O seu feitio turbulento, assim como inimizades que criou junto de homens próximos do rei acabariam por lhe provocar graves problemas. Entretanto, fixa-se em Lisboa, cidade onde nasceu, e participa no esforço de defesa contra a tentativa de invasão espanhola em 1643. No ano seguinte, como já assinalámos, é preso devido a intrigas de corte onde se deixa enredar. Permaneceu recluso longos anos, até que em 1655 parte degredado para o Brasil.

D. Francisco Manuel de Melo, degredado para o Brasil, fixou-se na Baía, onde esperava certamente acabar os seus dias. Porém, as alterações políticas em Portugal acabaram por alterar este cenário. D. João IV, que se lhe havia mostrado hostil, morre no ano seguinte, pelo que o escritor decide tentar a sua sorte e regressar ao reino. Muda-se primeiro para os Açores, onde pediu para regressar a Lisboa, o que faz em 1659. Porém, a sua sorte só muda dois anos mais tarde, quando o conde de Castelho Melhor, seu amigo pessoal, toma o governo. É imediatamente amnistiado, sendo-lhe entregues importantes responsabilidades políticas, nomeadamente junto da Santa Sé onde a influência espanhola minava a posição diplomática portuguesa. Teve então finalmente ocasião de publicar alguns trabalhos seus, as Obras Morais e Cartas Familiares. Viajou, tendo frequentado a corte inglesa assim como a Cúria Papal. A sua influência política em Portugal era cada vez mais importante, mas D. Francisco Manuel de Melo não viveria o suficiente para a exercer. Morreria em 1666, após uma vida tumultuosa e acidentada.

A sua obra literária é, com a do Padre António Vieira, a mais importante do século XVII. Escreveu sobre os mais variados temas, em teatro como em prosa e em verso, onde pontificam tanto o humor como o conhecimento da língua portuguesa, o rigor formal como o estilo cuidado. Escreveu obras de crítica social, de que a mais famosa é o Auto do Fidalgo Aprendiz. Deixou uma série de importantes obras de historiador, onde relata vários episódios em que participou directamente, e que reuniu com o nome de Epanáforas de Vária História Portuguesa. O seu trabalho mais conhecido mostra o seu carácter multifacetado, até pelo facto de o autor ter permanecido solteiro: trata-se da célebre Carta de Guia de Casados.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Governador do Pará (séculos XVIII e XIX). Cavaleiro da Ordem de Malta, foi capitão-de-fragata do Corpo de Marinha Real. Nomeado governador do estado do Grão-Pará e Rio Negro, em 1790, teve uma fecunda administração, ocupando o cargo até 1803. Promoveu a paz entre os indígenas e colonos e conseguiu a liberdade total dos nativos, com a abolição, em 1798, do regime do Directório. Promoveu e regulamentou o comércio, organizou as relações mercantis com Mato Grosso e Goiás, e incentivou a agricultura, sendo o responsável pela introdução do arado. Importando escravos de África para suprimir a falta de mão-deobra, fundou várias cidades e estabeleceu escolas em regiões do interior e em Belém, cidade onde fez grandes melhoramentos. Na capital, em 1798 criou um jardim botânico, onde passaram a ser feitas experiências com exemplares da flora nacional e estrangeira. Tendo em vista a defesa da costa e a ampliação do território com a tomada da Guiana Francesa, organizou o Arsenal da Marinha, mandando construir várias fragatas e outros navios de guerra. Deve-se-lhe ainda a instituição da festa de Nossa Senhora da Nazaré, um dos mais importantes cerimoniais no Brasil.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

FERNANDO OLIVEIRA

A época dos Descobrimentos foi fértil em vidas aventurosas, de que são conhecidos tantos exemplos. Ficou célebre, entre outras, a de Fernão Mendes Pinto, descrita pelo próprio na sua Peregrinação. Mas outras personagens, igualmente interessantes e não menos curiosas, viveram no século XVI uma vida recheada de peripécias. Entre elas destaca-se uma, pouco conhecida ou mesmo geralmente ignorada. Trata-se do Padre Fernando Oliveira, de cuja vida verdadeiramente excepcional e obra ímpar vamos hoje falar.

Fernando Oliveira nasceu em 1507, em Aveiro, não se possuindo informações seguras sobre a sua ascendência. Estudou durante a sua juventude em Évora, no Convento de S. Domingos, Ordem na qual ingressa. Cedo se distinguiram os seus dotes académicos, sobretudo na disciplina de Gramática. Porém, Fernando Oliveira aliava a mais fina inteligência a um carácter irrequieto e desassossegado, que lhe causaria diversos problemas ao longo da sua vida. O primeiro surgiu cedo quando, aos 25 anos, o nosso homem, por motivos desconhecidos, deserta da Ordem religiosa e e foge para Castela. Mas alguns anos mais tarde está de regresso. Publica então uma Gramática de Língua Portuguesa, a primeira que se conhece. Até 1545 exerce a profissão de professor, chegando a dirigir a educação dos filhos de João de Barros, o célebre cronista. Fernando Oliveira ganha a amizade de gente poderosa, que mais tarde lhe seria necessária em tempos de dificuldades. Sabe-se que por esta altura viajou a Itália, desconhecendo-se os motivos de tal estadia. De qualquer modo, o seu carácter irrequieto não se adaptava a uma vida sedentária, pelo que não ficou muito tempo em Lisboa. Nesse ano de 1545 alista-se como piloto, e com nome falso, numa armada francesa ancorada no porto. Esta parte rumo a Inglaterra, com o objectivo de defrontar as armadas inglesas. Fernando Oliveira participa nos combates que se seguem, alcançando uma grande notoriedade junto do almirante francês. Acabou por ser feito prisioneiro pelos ingleses, e levado para Inglaterra. Os seus dotes diplomáticos, a sua habilidade, inteligência e cultura levaram a que alcançasse grande prestígio na corte inglesa, mesmo junto do rei Henrique VIII. Vive durante alguns anos em Inglaterra, regressando depois a Lisboa, onde entrega a D. João III uma carta do rei inglês.

As aventuras de Fernando Oliveira, a sua estadia em Inglaterra, a simpatia que sentia pela religião protestante, o contacto com o rei inglês que se havia revoltado contra o Papa, acabaram por lhe criar problemas. Pouco depois do seu regresso a Portugal é denunciado á Inquisição como hereje, preso e interrogado. Só em 1551, e devido á amizade de gente influente, é posto em liberdade. Este período difícil não o fez esmorecer no seu gosto pela aventura. Embarca imediatamente numa armada com destino a Marrocos. Esta é atacada por uma frota de piratas argelinos, e derrotada. Tal deveu-se em grande parte á má preparação dos marinheiros portugueses que navegavam na armada, que rapidamente se desorientaram, como ficou escrito numa das suas obras:

“Os marinheiros eram lavradores de Entre Douro e Minho, e soldados vagabundos de Lisboa (…); desta feição equipadas as nossas caravelas, com a vista dos Turcos desatinou a gente delas de tal maneira que ferviam de uma para outra sem ordem, como formigueiro esgravatado. Uns faziam vela sem haver vento, (…) outros cortavam as amarras sem olhar para onde viravam as proas, outros deixavam os navios como homens que não cuidavam o que faziam. (…) A graça toda foi (…) quererem depois de perdidos dar a culpa uns a outros, tendo-a todos (…)”.

Foram os portugueses levados como prisioneiros para Argel, e mais uma vez conseguiu o nosso homem destacar-se, sendo encarregue das negociações com vista á obtenção do resgate. Regressado uma vez mais a Lisboa, segue para Coimbra, onde exerce o ofício de revisor na Imprensa da Universidade. Entre 1554 e 1555, Fernando Oliveira rege na mesma Universidade a cadeira de Humanidades. Mas os seus problemas não tinham ainda terminado. Fernando Oliveira era o que se pode chamar de um homem “sem papas na língua”, rebelde e irrequieto; a sua sinceridade e frontalidade grangeavam-lhe grandes amizades, mas criavam igualmente grandes inimigos. De qualquer modo, em 1555 é novamente preso pela Inquisição, que lhe criou problemas até ao fim da sua vida. Não sabemos a data da sua morte, e pouco conhecemos dos últimos anos da sua vida. Apenas sabemos que, mais tarde, quando contava cerca de 58 anos de idade, D. Sebastião lhe concedeu uma pensão vitalícia de 20 000 reis.

O padre Fernando Oliveira deixou-nos algumas obras escritas, sendo as mais importantes as que tratam de náutica e construção naval, onde revela ser um profundo conhecedor. A mais famosa chama-se “A arte da guerra do mar”. É um tratado de guerra naval, verdadeiramente notável e avançado para a época, onde se pode notar a lucidez e inteligência do autor ao tratar de problemas ainda actuais no nosso tempo. Eis como define ser a guerra justa:

“Mal feito é fazer guerra sem justiça, e os cristãos a não podemos fazer a nenhuns homens que seja, de qualquer condição nem estado. (…) doutro modo seria falso nosso nome, e poder-nos-iam culpar de hipócritas, como aqueles de que Cristo diz; dizem e não fazem. Os quais ele mesmo chama hipócritas, que quer dizer falsos e mentirosos. Mentiroso é aquele que apregoa vinho e vende vinagre, aquele que se nomeia pacífico e faz guerra sem justiça.”

No resto da obra, o padre Fernando Oliveira traça o quadro completo da vida naval, desde a qualidade das madeiras para a construção dos navios, a escolha, treino e comportamento dos marinheiros e soldados, as tácticas navais, os equipamentos, materiais e mantimentos adequados, as condições de navegação, os ventos e marés. Tal decorria do conhecimento prático que tinha dos navios e navegação, do contacto com as gentes e lides do mar. Veja-se, por exemplo, e para terminar, o que diz acerca dos mantimentos adequados para os navios:

“O biscoito, que é a principal vitualha, de trigo é o melhor, porque o centeio e cevada são mais húmidos e frios, e o pão deles toma mais bolor e corrompe-se mais cedo; o melhor é muito seco, e sendo muito cozido segundo se requere para biscoito por tempo esboroa-se e desfaz-se em pó.”

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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