MANUEL GODINHO DE ERÉDIA
E O DESCOBRIMENTO DA AUSTRÁLIA PELOS PORTUGUESES

Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao Brasil e ao Japão, a dobrar o Cabo Bojador e o da Boa Esperança, os primeiros a contactar directamente a Índia e o Extremo Oriente; estas informações não constituem novidade, são dados correntes, divulgados pelos manuais escolares, pelas obras de divulgação, até pela imprensa. Mas outros permanecem menos conhecidos, ou mesmo ignorados pelo público. Em época de comemorações dos Descobrimentos Portugueses, seria talvez conveniente não deixar cair no esquecimento o papel relevante, muitas vezes de primeiro plano, que os portugueses tiveram no descobrimento ou exploração pioneira de outras terras e lugares. Entre estes poder-se-iam incluir a Florida, a Califórnia, o Tibete, a Nova Guiné e a Austrália. É sobre este último caso que nos vamos debruçar hoje, assim como a história de um homem singular, que viveu e morreu sem conseguir concretizar a sua sonhada viagem a uma terra a sul de Timor, que se pensa hoje ser possivelmente o continente australiano: Manuel Godinho de Erédia.

O Descobrimento da Austrália pelos europeus é tradicionalmente atribuído aos holandeses, sendo 1616 a data oficial, embora se aceite que lá terão chegado dez anos antes, em 1606 portanto. Porém, causa estranheza aos historiadores o facto de os portugueses, que levavam sobre os holandeses uma vantagem de quase cem anos de navegação nos mares vizinhos, não terem tocado esta terra. De facto, não chegou ao nosso tempo nenhum registo da eventual chegada dos portugueses ao continente australiano, embora algumas pistas dispersas provoquem ainda hoje controvérsia entre os defendem e os que negam a primazia portuguesa do descobrimento deste continente. Isto, porém, tem explicações muito concretas: em primeiro lugar, grande parte dos portugueses que ao longo do século XVI percorreram os mares da Ínsulíndia, por entre Malaca, as Molucas ou Timor, eram mercadores ou aventureiros, que viajavam por conta própria ou ao serviço de outrem, desligados das autoridades portuguesas. Assim, se lá tivessem aportado, é natural que tal passasse totalmente despercebido. Depois, a Austrália, a escassas centenas de quilómetros a sul de Timor, fica fora do mundo conhecido da época, assim como das rotas comerciais que cruzavam o rosário de ilhas que se estende desde Samatra ás Filipinas e á Nova Guiné. Logo, só por acidente, engano ou intenção deliberada é que se lá chegaria. E foi precisamente isto o que se passou com Manuel Godinho de Erédia, que durante anos lutou para conseguir organizar uma expedição a uma terra a que chamava por vezes a “Ilha do Ouro”, e que consideram alguns ser a Austrália.

Manuel Godinho de Erédia nasceu em Malaca em 1563, filho do português João de Erédia Aquaviva e de uma princesa macassar. Era, portanto, um mestiço, e viveu em Malaca grande parte da sua vida, tendo estudado durante a sua juventude no colégio dos Jesuítas desta cidade. Escreveu durante a sua vida vários tratados geográficos, em que descreve várias regiões e reinos orientais, mas foi sobretudo como cartógrafo que atingiu alguma notoriedade, conhecendo-se hoje mais de duzentos mapas e plantas da sua autoria. Nos finais do século XVI, portanto em plena idade adulta, Erédia começa a escrever ao rei e ao vice-rei da Índia, propondo uma expedição ás tais “Ilhas do Ouro”, que albergavam grandes riquezas. Em carta ao vice-rei D. Francisco da Gama, diz:

“(…) não posso deixar de fazer lembrança a Vossa Senhoria Ilustríssima como o escopo ou alvo do descobrimento do ouro depende também de conhecer os tempos que cursam no Mar do Ouro, porque fora deste conhecimento e ordem se acharão tempos mui ásperos do Mundo. (…) sendo eu provido nesta monção de Setembro, posso estar em Malaca todo o Novembro, e por Dezembro fazer a viagem até chegar a Solor, donde posso partir em Janeiro para Timor ou Ende ou Sabo, e invernar em qualquer destas ilhas e nelas tomar melhor informação do ouro, e por Agosto ou Setembro com o nome de Deus Todo-Poderoso cometer o Descobrimento da feliz Ilha do Ouro.”

O estudo da figura de Manuel Godinho de Erédia e do seu projecto não é fácil, assim como o não é conseguir determinar com segurança se a terra que prendia atingir era ou não a Austrália. As suas concepções geográficas, se por vezes são bastante rigorosas e fiáveis, noutras são mais do que duvidosas, misturando factos e dados com lendas e informações distorcidas e falsas. As histórias que veicula sobre as Ilhas do Ouro resultam da junção, por este autor, de duas tradições: as geografias da Antiguidade, que chamavam á península malaia “Aurea Chersoneso”, ou Península do Ouro; e das lendas malaias, que por sua vez também falam de diversas ilhas do Ouro, em várias regiões. Erédia, como luso-malaio nascido em Malaca, foi provavelmente influenciado pelas duas, e daí a sua teimosia em levar adiante o seu projecto. Convém, aliás, dizer que há notícia de já anteriormente vários portugueses terem procurado as lendárias Ilhas do Ouro, embora não se saiba nada do resultado das suas pesquisas.

O que distingue Erédia, para além da sua teimosia, é o facto de ser um bom conhecedor da região, da sua História e Geografia. Na carta atrás citada, demonstra de facto um conhecimento dos ventos e das condições naturais do mar localizado entre Timor e a Austrália. É, assim, possível que adquirisse de facto conhecimento das terras autralianas, talvez efectuando viagens de reconhecimento, e que esperasse apenas autorização das autoridades portuguesas para retirar daí possíveis benefícios.

Se Erédia chegou ou não á Austrália, é ainda um problema por resolver. Das suas obras pode-se ler, de facto, que conhecia de facto algo sobre o continente australiano. De qualquer modo, a chegada dos holandeses aos mares do Oriente, nos fins do século XVI, veio afastar definitivamente as suas esperanças. As dificuldades financeiras e militares, que cresciam perante esta nova ameaça, não propiciavam de facto o financiamento do seu projecto. Sabe-se, sim, que até ao fim da sua vida Manuel Godinho de Erédia escreveu incessantemente ao rei e ao vice-rei, de forma a obter apoio para a sua proposta. Em 1609 o rei escreve ao vice-rei da Índia a pedir conselho sobre o valor e seriedade das cartas que Erédia lhe escrevia:

“E porque dos descobrimentos que nelas diz não há cá nenhuma memória vos encomendo vejais as ditas cartas, e o chameis e tomeis toda a informação necessária da substância e utilidade das coisas que propõe, e do que nelas se pode fazer, e se será útil encarregar-lhe o cargo de Cosmógrafo-mor e com que ordenado (…)”.

Porém, os pareceres que são enviados não lhe são favoráveis, e o assunto vai sendo posto de parte á medida que os problemas do Estado da Índia crescem. Manuel Godinho de Erédia morre em data incerta, antes de 1623, sem conseguir concretizar o sonho da sua vida. Ironicamente, após a sua morte as autoridades portuguesas, conhecedoras da chegada dos holandeses a uma nova terra que se viria a revelar a Austrália, mandam efectuar buscas aos seus papéis e apontamentos; isto revela, provavelmente, que o seu projecto acabou por ser considerado válido, embora fosse já tarde demais para levar a cabo o que Erédia tentou durante tantos anos, em vão, concretizar.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação ”Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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