A ACÇÃO MISSIONÁRIA DO INFANTE D. HENRIQUE

Comemoramos este ano os 600 anos do nascimento do grande impulsionador dos Descobrimentos, o Infante D. Henrique. É, assim, altura de prestarmos especial atenção a esta figura e ao modo como patrocinou e promoveu a Expansão Portuguesa e as viagens de Descobrimento. Uma vez que os factores políticos e económicos suscitam geralmente uma maior atenção, vamos hoje falar um pouco sobre uma faceta por vezes menosprezada: a acção missionária que D. Henrique desenvolveu e que o acompanhou ao longo de toda a sua vida, a qual é indissociável do processo dos Descobrimentos.

Quando se fala dos Descobrimentos Portugueses do século XV, nomeadamente a sua fase inicial a que esteve associado o Infante D. Henrique, apontam-se diversas motivações que teriam estado na origem do arranque das viagens e da Expansão Portuguesa em geral. Uma merece a nossa atenção no programa de hoje: a motivação religiosa. Na verdade, é para nós hoje um pouco difícil compreender a mentalidade dos homens do século XV. Vivendo num mundo em que o dinheiro e os valores materiais e económicos são dominantes, sentimos por vezes dificuldades em entender as motivações dos homens daquela época. Porém, é certo que os Descobrimentos estão associados numa primeira fase ás campanhas militares de conquista de Marrocos, e estas tinham como uma das principais motivações o espírito de cruzada, ou seja, a guerra santa aos muçulmanos. Assim, nesta primeira fase, iniciada com a conquista de Ceuta em 1415, o projecto de conquista de Marrocos aos infiéis desempenhava o papel mais importante. Considerava-se na época que guerrear os muçulmanos era, mais do que um meio de obter glória militar ou proveitos materiais, a obrigação fundamental de todo o guerreiro cristão, contribuir para o alargamento da Cristandade e, assim, a forma mais nobre de servir a Deus; é o que se designa na época por Serviço de Deus.

O Infante D. Henrique sentia de um modo profundo esta motivação. Imbuído de um íntimo apelo religioso, encarava como fundamental este serviço. Assim se entende que tenha sido o principal promotor da tentativa de conquista de Tânger e da continuação da conquista marroquina. Porém, o avanço português em Marrocos deparava com enormes dificuldades, pelo que outro projecto germinava gradualmente na mente de D. Henrique, e que foi um dos motores dos Descobrimentos: explorar as costas do continente africano, avançando para Sul e procurando contornar deste modo as potências muçulmanas do Norte de África em busca de aliados cristãos que, segundo algumas informações, existiriam a Oriente. Estava neste caso o lendário reino cristão do Preste João, que era na realidade a Etiópia, e que poderia ser um valioso aliado contra os mouros. A isto juntava uma vontade profunda e genuína de alargar a Cristandade e de expandir a Fé Cristã. Estas duas motivações, entre outras, foram expressas pelo cronista Gomes Eanes de Zurara. Sobre as cinco razões que levaram o Infante a promover os Descobrimentos, diz:

“A quarta razão foi porque, de 31 anos que guerreava os Mouros (…), queria saber se se achariam naquelas partes alguns príncipes cristãos em que a caridade e amor de Cristo fosse tão esforçada que o quisessem ajudar contra aqueles inimigos da Fé.

A quinta razão foi o grande desejo que havia de acrescentar a santa fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e trazer a ela todas as almas que se quisessem salvar (…)”

É evidente que a motivação religiosa não era a única; curiosidade de conhecer as terras que ficavam a sul do Cabo Bojador, assim como interesse em obter lucros com o comércio com essas terras era motivos igualmente válidos. Mas na época não havia contradição entre o interesse material e o serviço de Deus. A empresa dos Descobrimentos podia perfeitamente servir ambos, como veio de facto a acontecer. Na verdade, á medida que se exploravam as costas de África e que se aperfeiçoavam os conhecimentos técnicos de navegação, foram-se desenvolvendo os contactos com as populações locais, e o comércio começou a dar proveitos consideráveis. Comércio e Fé andavam assim a par, sem nenhuma contradição, como se pode constatar em diversos episódios.

Em 1441 Antão Gonçalves traz, no regresso a Portugal, três homens cativos que capturou na costa africana. Com estas acções pretendia-se obter informações sobre a região em causa e, através da cristianização destes homens, cumprir igualmente o objectivo missionário. Mas um deles era um homem de uma família real na sua terra, e portanto diz que os seus dariam vários escravos, pelo menos 10, em troca da sua liberdade. O Infante concorda, e devolve-o á sua terra. Diz o cronista que assim se salvavam dez almas, em vez de três. Aqui se vê como o objectivo económico (neste caso a obtenção de escravos) aliava-se á motivação puramente religiosa, sem que nenhuma contradição fosse achada nisso. Quando os portugueses atingem a costa a sul do Sara, o interesse missionário aumenta subitamente. Constatam que as populações já não são muçulmanas, portanto já não inimigas, e que poderiam mais facilmente ser convertidas ao Cristianismo. O factor religioso mantém, assim, a sua validade.

A captura de escravos, se hoje fere a nossa sensibilidade actual, era na época vista sob outro prisma. Na verdade, considerava-se que a cristianização compensava largamente o infortúnio da captura e da redução á escravatura. Assim, a 8 de Agosto de 1445 realizava-se em Lagos a primeira venda de escravos africanos. O cronista Zurara, porém, não deixa de ser sensível á tristeza destes homens arrancados á sua terra, sobretudo á separação de famílias, descrevendo o panorama do seguinte modo:

“(…) uns tinham as caras baixas e os rostos lavados com lágrimas, olhando uns contra os outros; outros estavam gemendo mui dolorosamente, esguardando a altura dos céus (…) outros feriam seu rosto com suas palmas, lançando-se estendidos em meio do chão; outros faziam suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume de sua terra (…)”.

No entanto, tudo isto era largamente compensado, pensava-se na época, pela possibilidade de se baptizar e cristianizar esta gente, com que o Infante se congratulava:

“O Infante era ali, em cima de um poderoso cavalo (…); toda a sua principal riqueza estava em sua vontade, considerando com grande prazer na salvação daquelas almas que antes estavam perdidas. E certamente que seu pensamento não era vão, pois logo que tinham conhecimento da língua, com pequeno movimento se tornavam cristãos.”

Os Descobrimentos do século XV têm, deste modo, uma forte motivação religiosa que convém não esquecer. É preciso ainda relembrar que o Infante D. Henrique era também o administrador da Ordem de Cristo, sob cuja égide se faziam as viagens, se explorava o litoral africano, se colonizava a Madeira e os Açores. Em 1460, á data da sua morte, os portugueses haviam já avançado até á Serra Leoa. Os Descobrimentos prosseguiriam a bom ritmo, primeiro sob o arrendamento a particulares e mais tarde sob a orientação firme do rei D. João II. Mas a motivação religiosa nunca esmoreceu; pelo contrário, ampliou-se consideravelmente, primeiro em África e depois no Brasil e no Oriente. Os interesses materiais e os espirituais continuaram a pesar igualmente na epopeia dos Descobrimentos. Basta lembrar a célebre resposta de um marinheiro português da armada de Vasco da Gama, quando interrogado na Índia sobre os objectivos dos portugueses: “vimos em busca de cristãos e especiaria”.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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