A CARREIRA DA ÍNDIA E A VIDA A BORDO DAS NAUS

Com a chegada de Vasco da Gama à Índia, em 1498, os portugueses passaram a ter o caminho aberto para a navegação entre a Europa e o continente asiático. A ligação entre Lisboa e a costa indiana, sobretudo Goa, era um aspecto fundamental para a expansão portuguesa no Oriente, obrigando à criação de uma rota permanente de comunicação. Assim se criou a chamada “carreira da Índia”, que mais não era do que a ligação permanente, através da melhor rota conhecida, entre aqueles dois portos. A viagem entre Lisboa e Goa era um empreendimento arriscado, longo e difícil, percorrendo uma longa distância através do Atlântico, a passagem do Cabo da Boa Esperança e o rumo á costa indiana; era, no entanto, uma prova por que passavam todos aqueles que se destinavam ao Oriente, ou que de lá regressavam, soldados, fidalgos, missionários ou mercadores.

A viagem de Lisboa à Índia era uma aventura perigosa. Os pilotos portugueses conheciam melhor do que ninguém as diversas etapas da viagem, o seu tempo de duração, os seus pontos difíceis e os seus riscos. A viagem era feita, na sua maior parte, sem haver vista de terra. Por um lado, tal era a prova evidente dos profundos conhecimentos náuticos dos pilotos portugueses, da sua prática de navegação, mas levava frequentemente a situações de perigo iminente. No navio, invariavelmente uma nau, viajavam várias centenas de pessoas, dispostas a partilhar naquele navio um espaço de tempo que rondava, na melhor das hipóteses, os seis meses. Em cada viagem havia um calendário que tinha que ser escrupulosamente cumprido, quer na ida, quer na volta, de forma a tomar os ventos favoráveis e as melhores condições naturais. Um atraso, quer á partida, quer no decorrer da viagem podia obrigar o navio a fazer escala e a atrasar-se vários meses, se se perdesse a monção, ou seja, o vento adequado que sopra nesse sentido apenas durante metade do ano.

No decorrer de uma viagem, vários eram os perigos que espreitavam. Os que mais preocupavam os pilotos eram as condições naturais. Eram frequentes as tempestades, sobretudo no Atlântico, que podiam tanto afundar o navio como afastá-lo da sua rota, não permitindo regressar ao rumo certo na brevidade necessária e comprometer assim toda a viagem. A passagem do cabo da Boa Esperança era o ponto mais crítico de toda a jornada, a manobra mais temida: a turbulência atmosférica nessa região era especialmente severa, a existência de recifes um risco real. Se os ventos fortes eram um perigo, a falta de vento era igualmente temida: é o que se chamava na época “calmaria”. Sem vento, com um calor sufocante, os navios paravam, os alimentos degradavam-se mais rapidamente, surgiam as epidemias, a moral a bordo decaía rapidamente, dando lugar ao desalento, á angústia e ao pânico. As calmarias existiam geralmente á latitude do equador, no Atlântico, podendo arrastar-se durante vários dias, como aconteceu á nau Santiago, que partiu de Lisboa rumo á Índia em 1585:

“Continuando o caminho com bom vento entraram na costa da Guiné, e nas calmarias daquela paragem, tão celebrada dos marinheiros da Índia, gastaram 17 dias, passando a Linha a 27 de Maio, de calma tão enfadonha e tão ardente, que as do Alentejo ficam como frios da Noruega em comparação daquela paragem.”

Um dos problemas que afligiam todos os que viajavam a bordo era a alimentação: os alimentos frescos estragavam-se em pouco tempo, pelo que a sua renovação era desejável mas nem sempre possível. A água potável degradava-se igualmente com grande rapidez. O seu preço a bordo dos navios aumentava constantemente, obrigando a um racionamento rigoroso. As escalas, em Cabo Verde, em Santa Helena ou em Moçambique eram, portanto, indispensáveis. Não era raro declararem-se epidemias a bordo, afectando uma boa parte das pessoas a bordo, resultado de má nutrição e condições de higiene deploráveis. O escorbuto, resultante da carência de vitamina C, era uma das doenças inevitáveis. A medicina da época, desconhecedora da causa da maior parte destas doenças, limitava-se geralmente a fazer sangrias, o que agravava ainda mais a condição dos doentes. Eis uma descrição, de 1560:

“Iam a bordo 500 e tantas pessoas; não ficaram senão só 15 que não passassem por esta fúria de enfermidades e doenças gravíssimas, assim os homens do mar (…) como os mais fidalgos, soldados, mulheres e meninos. E veio a coisa a tanto, que houve muitos dias juntos 350 doentes, e dia em que se davam 70 e 80 sangrias, e sangravam por meu mandado o barbeiro da nau, o piloto e o sota-piloto, e um grumete que o fazia muito bem. E deram-se por todas 1130 e tantas sangrias”.

Um dos aspectos mais interessantes destas viagens refere-se á religiosidade e superstição a bordo, que crescia á medida que a jornada avançava e que os perigos se sucediam. A bordo viajavam invariavelmente clérigos, geralmente missionários de várias ordens religiosas, a caminho ou de regresso da Índia. Abandonados no meio do oceano, confrontando-se com forças poderosas que não compreendiam nem conheciam, em risco permanente de naufrágio ou de epidemia, os homens agarravam-se ás suas convicções religiosas. As viagens são assim momentos de grande fervor religioso. Sucediam-se as preces, as orações e mesmo as procissões a bordo, pedindo protecção divina contra uma tempestade que se avizinhava ou agradecendo o bom rumo seguido ou o vento favorável encontrado. Aliás, considerava-se que as adversidades mais não eram do que castigos pelos pecados cometidos por cada um, pelo que o estado de pureza espiritual era avidamente procurado, multiplicando-se as confissões e os actos religiosos.

Alguns perigos que os navios portugueses enfrentavam eram, no entanto, bem terrenos. Referimo-nos aqui aos navios de piratas ou corsários que frequentemente infestavam as águas do Atlântico. Até ao final do século XVI, o risco era ainda menor, embora presente. Basta relembrar o episódio de Fernão Mendes Pinto, que á partida para a Índia foi atacado por uma navio de piratas franceses logo junto a Sesimbra, sendo despojado dos seus bens e lançado em terra. A partir da década de 1580 o problema agravou-se: Filipe II torna-se rei de Portugal, pelo que os ingleses e holandeses, inimigos dos espanhóis, passam a atacar também os navios portugueses, sujeitos então a depredações constantes. No fim do século, ingleses e holandeses passam o Cabo da Boa Esperança e chegam ao Oriente, procurando estabelecer também posições no Índico. Assim, a guerra de pirataria e corso do atlântico alargou-se igualmente ao Oriente, sujeitando a navegação portuguesa a uma pressão terrível. A guerra naval passou, então, a juntar-se aos perigos das viagens para a Índia, agravando com outros riscos as condições de vida a bordo.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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