PÊRO DA COVILHÃ

O papel excepcional que os portugueses desempenharam no Descobrimento do Mundo, nos séculos XV e XVI, é hoje aceite sem reservas por todos. De entre os homens que mais contribuiram para tal processo destacam-se no corrente ano as figuras do Infante D. Henrique e do rei D. João II, por se comemorar os 600 anos do nascimento daquele e os 500 anos do Tratado de Tordesilhas. Porém, os manuais de História destacam igualmente outros nomes, como os de Gil Eanes, Bartolomeu Dias ou Vasco da Gama. Estes foram, de facto, protagonistas dos feitos mais memoráveis. No entanto, outros homens contribuíram igualmente para a empresa dos Descobrimentos, embora o seu nome seja por vezes esquecido. Vamos hoje falar de Pêro da Covilhã, um homem cujo papel tem sido subalternizado, mas que desempenhou na sua época uma missão notável e verdadeiramente decisiva para o projecto expansionista do rei D. João II.

As origens de Pêro da Covilhã, assim como a sua data de nascimento, são obscuras. Parece ter nascido entre 1450 e 1455, tendo partido muito novo para Castela, onde serviu o duque de Medina Sidónia durante a sua juventude. Por volta de 1474 encontrava-se de novo em Portugal, estando ao serviço da Casa Real. Reinava nessa altura D. Afonso V, que procurava apoios para a sua política de interferência na crise dinástica de Castela. O rei tentava por estes anos reclamar para si o trono castelhano, entrando em guerra aberta com os Reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Pero da Covilhã parece tê-lo acompanhado, já como escudeiro, quer nas incursões guerreiras que fez o rei em Espanha, que nas diligências que efectuou junto da corte francesa em busca de apoio para a sua causa. Parece que Pêro da Covilhã demonstrou aqui as suas capacidades diplomáticas, que lhe seriam preciosas mais tarde. De qualquer modo, já por esta altura passou a estar ao serviço do príncipe D. João, futuro D. João II, que passava agora a orientar directamente as viagens de Descobrimento. Ao serviço deste príncipe desempenhou igualmente algumas missões diplomáticas, tanto em Marrocos como em Castela.

Na década de 1480, o rei D. João II leva a cabo o seu projecto de alcançar a Índia contornando o continente africano, aproveitando a já longa experiência portuguesa de navegação no Atlântico e a vantagem técnica que os portugueses possuíam sobre as outras nações europeias. Tal só poderia ser executado mediante um rigoroso plano, que o rei põe em prática. A principal fase deste plano consistia no avanço ao longo da costa africana tentanto encontrar a passagem para o Oceano Índico; tal foi o objectivo das viagens de Diogo Cão e, um pouco mais tarde, de Bartolomeu Dias. No entanto, enquanto enviava os seus navios, o rei procurava igualmente obter informações directas sobre o Oriente, enviando emissários por terra. A primeira tentativa consistiu no envio de frei António de Lisboa e Pero de Montarroio, mas estes homens, não sabendo árabe, não conseguiram ir longe. É aqui que o rei chama Pêro da Covilhã para uma nova missão: viajar por terra ao Oriente e obter informações sobre a passagem entre o Oceano Atlântico e o Índico, sobre o comércio das especiarias da Índia e sobre as condições que os portugueses encontrariam quando lá chegassem. Deu-lhe por companheiro Afonso de Paiva, que também sabia árabe, e preparou cuidadosamente a missão.

Em 1487, ao mesmo tempo que partia de Lisboa a expedição de Bartolomeu Dias, saíam Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva por via terrestre em direcção ao Oriente. Atravessaram Espanha até Barcelona, onde seguiram por barco para Alexandria e depois para o Cairo, no Egipto. Integraram-se então numa caravana com direcção a Adém, no Mar Vermelho. Iam disfarçados de mercadores, o que lhes facilitava os movimentos uma vez que haviam há muito entrado em terras de muçulmanos. Ao chegarem a Adém, os portugueses separaram-se: Afonso de Paiva seguiu para a Etiópia, enquanto Pêro da Covilhã tinha como destino a Índia, combinando encontrar-se posteriormente no Cairo. Afonso de Paiva não chegaria a cumprir a sua missão, pois morreu antes de penetrar na Abissínia. Já Pêro da Covilhã teve melhor sorte. De facto, cumpriu á risca as ordens do rei, tendo de imediato seguido para a costa ocidental indiana. Cananor, Calecut, Goa foram as suas etapas, onde recolheu informações sobre as rotas comerciais que ligavam a Índia ao Extremo Oriente e á Europa. Completou a sua imagem do comércio oriental seguindo para Ormuz, no Golfo Pérsico. Para além da recolha de informações de índole comercial, Pêro da Covilhã ia também incumbido de inspeccionar a costa oriental africana, o que fez por volta de 1490, tendo chegado até Sofala.

Tendo obtido as informações julgadas necessárias, regressa então ao Cairo, onde toma conhecimento da morte do seu companheiro Afonso de Paiva. Contacta então outros dois homens do rei D. João II, os judeus mestre José e o rabino Abraão, que o informam das novas ordens régias: fazer um relatório detalhado das suas viagens a mestre José, que estava de regresso a Portugal, conduzir o outro agente a Adém, e finalmente dirigir-se á Etiópia, substituindo Afonso de Paiva. Era esta a nova pesada tarefa que o rei lhe ordenava, o que se dispõe imediatamente a cumprir. Estava-se então em 1491.

O resto da vida de Pêro da Covilhã é mal conhecido, mas não deixa por isso de despertar grande interesse. Como vimos, dirigiu-se á Etiópia após ter cumprido a missão de que tinha provido do reino. A Etiópia era nessa época um reino quase desconhecido na Europa; aqui era designada pelo nome de reino cristão do Prestes João, e circulavam histórias sobre o seu imenso poder que, aliado aos portugueses, poderia ser um excelente apoio contra o Mundo Muçulmano. Na verdade, tratava-se de um pequeno estado, pobre e fraco, como Pêro da Covilhã certamente constatou em 1492 ou 93, data da sua chegada. Foi bem recebido na corte etíope, tendo entregue cartas de D. João II para o rei. Porém, foi impedido de regressar a Portugal. E nada mais se soube de Pêro da Covilhã até que em 1526 chega á Etiópia uma embaixada portuguesa, que o encontra ainda vivo, já com mais de 70 anos e ocupando um lugar importante na corte etíope.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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