PÊRO MAGALHÃES DE GÂNDAVO

Com o descobrimento do Brasil pela armada de Pedro Álvares Cabral, no ano de 1500, abriu-se aos portugueses o vasto continente Sul-Americano, que viria a ser lenta e gradualmente explorado no decorrer dos séculos seguintes. É verdade que durante a primeira metade do século XVI, os portugueses estavam sobretudo virados para a Índia e o Oriente, mas a terra brasileira passou a despertar cada vez mais o interesse de todos. Assim, os portugueses começaram por se fixar ao longo da linha de costa, avançando depois gradualmente para o interior. Um dos aspectos mais interessantes deste contacto é o facto de depararem com uma terra completamente estranha, com produtos, animais, plantas e habitantes nunca anteriormente conhecidos na Europa, e que despertavam naturalmente uma grande curiosidade. Famos hoje falar da primeira História do Brasil, escrita ainda no século XVI, onde são descritos estes aspectos e onde é traçado o primeiro balanço da presença portuguesa naquela região. A obra chama-se História da Província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil, e o seu autor é o português Pêro Magalhães de Gândavo.

Pouco de conhece da vida de Pêro Magalhães de Gândavo. Nasceu provavelmente em Braga, por volta de 1540, sendo descendente de uma família de comerciantes flamengos oriundos da cidade de Gand, daí o seu apedido Gândavo. Em Braga viveu boa parte da sua vida, tendo ali casado e ensinado Latim e Português. Era, aliás, um bom conhecedor da nossa língua, tendo escrito uma obra de ortografia e gramática portuguesa. Partiu a certa altura para o Brasil, tendo então tomado contacto com aquela terra, que lhe serviu de inspiração para a obra de que falamos aqui hoje. A sua História da Província Santa Cruz. Já no seu tempo era comum a designação de “Brasil”, mas o autor justifica, logo no início da obra, porque se deveria antes chamar esta terra de Santa Cruz, nome pelo qual fora baptizada e que caía gradualmente no esquecimento:

“Não nos esqueçamos do nome de Cristo por outro que lhe deu o vulgo mal considerado, depois que o pau da tinta começou a vir a estes reinos. Ao qual chamamos brasil por ser vermelho e ter semelhança de brasa, e daqui ficou a terra com este nome de Brasil. Mas que para nesta parte magoemos ao Demónio, que tanto trabalhou e trabalha por extinguir a memória da Santa Cruz e desterrá-la dos corações dos homens, tornemos-lhe a restituir seu nome, e chamemos-lhe Província de Santa Cruz, como em princípio.”

Sendo Gândavo o primeiro historiador do Brasil, é natural que esta obra fosse pioneira no que se refere à descrição da terra brasileira. De facto, o autor ocupa a maior parte do trabalho com a descrição de uma série de aspectos locais. Em primeiro lugar, os animais, que eram em boa parte deconhecidos: o papa-formigas, o tatu, uma série de aves e peixes exóticos são descritos com espanto, estranheza e maravilha. Chega mesmo a descrever um suposto monstro que teria aparecido na capitania de S. Vicente, e que fora morto pelos portugueses da localidade.

Os habitantes locais não são esquecidos. Gândavo descreve os índios brasileiros segundo, evidentemente, os padrões da sua época: os usos e costumes, o carácter e o modo de vestir, a cor, os cabelos e a linguagem são os aspectos masi salientes da sua descrição. Sendo Gândavo um homem de letras, não deixa de assinalar algumas característica da língua local, nomeadamente o facto de haver diferenças consoante os grupos e as tribos índias. O que mais o impressiona, como era normal para a mentalidade portuguesa da época, são alguns dos ritos religiosos, nomeadamente supostas práticas de canibalismo que alegadamente existiam e que lhe causam o maior horror. Para contrabalançar estas apreciações, não deixa de assinalar o sucesso da missionação dos jesuítas naquela terra, que por esta altura conhecia um rápido avanço. As plantas brasileiras merecem igualmente a sua atenção. A que descreve com maior cuidado é a mandioca, assinalando as suas utilidades, assim como as características de cada parte da planta. Descreve a bananeira, que os portugueses trouxeram de S. Tomé, sendo os seus frutos muito apreciados localmente, dizendo que “parecem-se na feição com pepinos, e criam-se em cachos; esta fruta é muito saborosa, e das boas que há na terra; tem uma pele como de figo (ainda que mais dura), a qual lhe lançam fora quando a querem comer, mas faz dano à saúde, e causa febre”. Também os cajús e os ananases despertaram-lhe a curiosidade. Eis como descreve estes últimos:

“Outra fruta há nesta terra, muito melhor e mais prezada dos moradores de todas, que se cria numa planta humilde junto do chão: a qual planta tem umas pencas como de erva babosa. A esta fruta chamam ananases e nascem como alcachofras, os quais parecem naturalmente pinhas, e são do mesmo tamanho e alguns maiores. Depois que são maduros, têm um cheiro muito suave, e comem-se aparados, feitos em talhadas. São tão saborosos, que a juízo de todos, não há fruta neste reino que no gosto lhes faça vantagem”.

A História da Província de Santa Cruz não se limita a aspectos descritivos. Para além de relatar a descoberta do Brasil pelos portugueses, assim como os primórdios da colonização, descreve ainda as diversas capitanias em que se dividia o território brasileiro. Traça, por fim, um retrato das potencialidades que esta terra reservava aos portugueses, tal como a vastidão do território e dos seus recursos.

Pouco mais se conhece da vida de Pêro Magalhães de Gândavo. Sabe-se que viveu durante algum tempo no Brasil, regressando posteriormente a Portugal. Em 1576 é chamado de novo a esta terra, desta vez para desempenhar o cargo de Provedor da Baía. Em 1579 era ainda vivo, nada mais se sabendo da sua biografia. Embora fosse conhecido na sua época como humanista e letrado, ficou na História como o autor da obra sobre o Brasil. Esta foi publicada ainda em vida do autor, em 1575. Uma das curiosidades mais interessantes acerca desta obra é que ela prova que Gândavo conheceu pessoalmente Luís de Camões. Foi aqui, como prólogo ao corpo da obra, que o poeta publicou pela primeira vez trabalhos seus. Trata-se, neste caso, de um conjunto de tercetos e um sonetos dedicados a D. Leonis Pereira, que fora capitão de Malaca, e a quem Gândavo dedica igualmente a sua obra.

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