OS PORTUGUESES NO TECTO DO MUNDO

É por todos bem conhecida a primazia portuguesa na descoberta do Mundo, colocando em contacto culturas e civilizações anteriormente isoladas. No que toca ao continente asiático, os portugueses fizeram a primeira ligação marítima entre a Europa e a Índia, seguindo-se depois o Golfo de Bengala, a Insulíndia e finalmente o Extremo Oriente, a China e o Japão. No entanto, tudo isto se refere a viagens e rotas marítimas. O vastíssimo interior do continente asiático permanecia na sua maior parte isolado. Vamos hoje falar do papel fundamental desempenhado por alguns portugueses no descobrimento das mais remotas regiões deste continente, nomeadamente os Himalaias, o Tibete e o interior da China.

O continente asiático despertara desde há muito a curiosidade dos europeus, pelo seu carácter longínquo e misterioso. Porém, as informações que circulavam na Europa durante a Idade Média eram escassas e confusas. O principal nome sob o qual a China era conhecida nessa altura era o de Cataio, que o célebre viajante Marco Polo celebrizou. Este veneziano descreveu o Cataio como um poderoso reino do Extemo Oriente, governado pelo Grão Cã, tendo o relato da sua viagem conhecido uma grande divulgação por toda a Europa, inclusivamente em Espanha e em Portugal. Havia, aliás, outras informações que identificavam este rico e grandioso reino asiático com o mítico Prestes João, um poderoso reino cristão que se acreditava existir algures no Oriente, e que seria um valoroso aliado dos cristãos na luta contra o Mundo Muçulmano. A origem desta confusão parece estar relacionada com a existência de algumas tribos cristãs na Ásia Central, cuja importância e dimensão terão sido enormemente exageradas. Aliás, parece que o nome de “Cataio” terá derivado do nome de uma destas tribos cristãs, os Kithai.

Na Europa, havia quem desconfiasse destas informações, mas igualmente quem nelas acreditasse sem reticências. Cristóvão Colombo, por exemplo, empreendeu a sua famosa viagem de descobrimento em busca do Cataio e do Cipango, ou seja, do Japão, julgando tê-los encontrado quando desembarcou nas Antilhas. Os portugueses, pelo contrário, nunca deram grande crédito a tais expectativas e informações. Para D. João II e os seus homens, o Preste João localizava-se não na Ásia mas sim na Etiópia, e o objectivo a atingir pelos seus navios era a verdadeira Índia, através de um esforço prático de navegação e não de qualquer nebulosa tradição medieval.

A viagem de Vasco da Gama permitiu a criação de uma via de comunicação entre a Europa e a Índia. Nos anos seguintes, e à medida que se fixavam por estas paragens, os portugueses prosseguiam o seu avanço para Leste. A conquista de Malaca em 1511 abriu-lhes as portas do Extremo Oriente, e foi aqui que obtiveram informações concretas sobre a China, onde chegaram algum tempo depois. Aliás, o nome “China” foi adoptado pelos portugueses por via da língua malaia, passando depois para a maior parte das línguas europeias. Ao longo do século XVI, os portugueses passaram a frequentar a costa chinesa, fundando Macau, e estabelecendo-se igualmente no Japão. A presença portuguesa era quase exclusivamente comercial, e marcada pelo seu carácter marítimo: o que os portugueses conheciam era uma parte da costa, os portos, os marinheiros e os mercadores chineses. Logo, as informações que chegavam a Lisboa diziam respeito à faceta marítima da China.

Deste modo, ao longo de todo o século XVI, circulavam pela Europa duas fontes paralelas referentes à China: uma tradicional, medieval, obtida por via continental e terrestre, que falava do reino do Cataio; e uma moderna e marítima, que descrevia as costas chinesas, trazida por quem conhecia a China por mar. A fusão entre estas duas facetas só foi feita muito tardiamente. Só no século XVII é que se concluiu que a China e o Cataio eram um único país. Até lá, discutiu-se sobre a relação entre estas duas entidades: uns diziam ser o Cataio um reino independente da China; outros, que se tratava de uma província da mesma.

O esforço decisivo para se acabar de vez com estas dúvidas foi empreendido pelos Jesuítas, já nos finais do século XVI. É que a velha ideia da possível existência de um poderoso reino cristão na Ásia não havia sido esquecida, pelo que tal tinha que ser definitivamente tirado a limpo.

O europeu que pela primeira vez fez a viagem da Índia para a China por terra era português, e chamava-se Bento de Góis. Natural de Vila Franca do Campo, em S. Miguel, era jesuíta e iniciou a sua jornada em 1602. Falava persa e viajou disfarçado de muçulmano, de modo a melhor passar despercebido. A sua viagem durou vários anos, até que atingiu finalmente Socheu, junto à célebre Muralha da China. A ele se deveu, pela primeira vez, a prova definitiva de que o Cataio e a China eram o mesmo reino. Faleceu pouco depois, devido aos rigores e dificuldades que sofreu ao longo da sua jornada. As informações que recolheu sobre esta questão foram transmitidas a outros elementos da sua Ordem, que assim as divulgaram.

Para o conhecimento geográfico, esta viagem revestiu-se da maior importância, pois permitiu pela primeira vez juntar as duas tradições e acabar de vez com o debate sobre o mítico Cataio. Para a Companhia de Jesus, porém, as notícias não foram as melhores, pois Bento de Góis não deu sinais da existência de cristãos, cuja existência era já duvidosa. No entanto, o esforço para os encontrar não esmoreceu. Pelo contrário, foi dirigido noutro sentido, num reino remoto, para lá dos Himalaias: o Tibete.

Tal tarefa foi entregue e levada a bom termo pelo jesuíta português António de Andrade, natural da vila de Oleiros, que em 1624 parte de Agra a caminho dos Himalaias. A viagem foi marcada pelas terríveis condições do clima, pela dificuldade dos caminhos e sobretudo pelo frio intenso, como descreve numa das suas cartas:

“O trabalho que passámos foi muito excessivo, porque nos acontecia muitas vezes ficar encravados na neve, ora até aos ombros, ora até aos peitos, de ordinário até aos joelhos. Nos pés, mãos e rosto não tínhamos sentimentos, porque com o demasiado rigor do frio ficávamos totalmente sem sentido; aconteceu-me, pegando em não sei quê, cair-me um bom pedaço do dedo sem eu dar fé disso, sem sentir ferida, se não fora o muito sangue que dela corria. Os pés foram apodrecendo, de maneira que, de muito inchados, no-los queimavam depois com brasas vivas e ferros abrasados e com muito pouco sentimento nosso”.

Chegou finalmente ao Tibete, tendo aí regressado no ano seguinte e convertido o rei local ao Cristianismo, o que considerou ser uma grande vitória missionária. Curiosamente, chamou ao Tibete o “Grão-Cataio”, o que prova como as informações de Bento de Góis ainda não haviam sido plenamente aceites, tendo ainda decorrido algum tempo até se tornarem conhecimento geral.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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