O QUOTIDIANO DE UM SOLDADO PORTUGUÊS NA ÍNDIA

No século XVI, a maior parte dos portugueses que partia de Lisboa em direcção à Índia faziam-no como soldados, procurando nas longínquas paragens do Oriente uma forma de enriquecer, escapando assim à miséria em que viviam em Portugal. Como viviam estes homens, e como era o seu dia-a-dia nesta empresa tão perigosa como irresistível, como era a busca da fortuna? É sobre este tema que nos vamos debruçar hoje, começando por tratar de uma questão fundamental: se os Descobrimentos Portugueses foram uma empresa essencialmente comercial e pacífica, como foi possível que a guerra desempenhasse no Oriente um papel tão importante, cabendo aos soldados uma função de primeiro plano?

Nas palavras de um homem da armada de Vasco da Gama, os portugueses chegaram á Índia em busca de “cristãos e especiaria”. Estas eram, de facto, as duas motivações mais importantes, desde que o rei D. João II traçara o seu plano de alcançar o continente asiático por via marítima: encontrar as comunidades cristãs, que se supunham muito numerosas, da Índia, de forma a estabelecer uma aliança contra o Mundo Muçulmano, e localizar as fontes das ricas especiarias orientais, nomeadamente a pimenta, obtendo assim grandes lucros com o seu transporte para a Europa. Tudo isto seria feito mediante contactos pacíficos e tratados comerciais, como já havia ocorrido na costa ocidental africana.

No entanto, quer os homens da armada de Vasco da Gama, quer o próprio rei D. Manuel I estavam redondamente enganados, como cedo viriam a descobrir. Em primeiro lugar, a Índia não era povoada de cristãos, mas antes de hindus, não existindo assim qualquer tipo de comunhão religiosa. Mas o mais importante é que os portugueses encontraram nos mares do Oriente os seus velhos inimigos, os muçulmanos. Estes, para além de numerosos, eram também muito poderosos e influentes, controlando precisamente o que mais interessava aos portugueses na costa ocidental indiana: o comércio marítimo das especiarias. Assim, os portugueses cedo compreenderam que o mundo do Oceano Índico era bem mais hostil do que pensavam inicialmente.

É que, ao contrário do Atlântico, o Índico não era um oceano “virgem”: o comércio marítimo estava já estabelecido por um conjunto de comunidades mercantis, sendo as muçulmanas as mais poderosas. Como cedo viriam a descobrir, os portugueses enfrentaram uma competição feroz por parte destas últimas, que não viam com bons olhos a chegada destes estrangeiros. Para procurarem um lugar no seio do comércio asiático e garantirem a sua própria segurança, os portugueses teriam assim que recorrer à força militar. Foi logo na segunda viagem, a de Pedro Álvares Cabral, que esta questão se tornou evidente. A partir deste momento, e à medida que se construíam os alicerces do que viria a ser o Estado da Índia, foi necessário o envio constante de navios, artilharia e soldados, de forma a proteger o comércio e os pontos de fixação portugueses, que se estenderam de Moçambique a Malaca, e daqui à China e ao Japão.

A vida de um soldado português na Índia não era fácil. O primeiro grande obstáculo a enfrentar era a própria viagem para a Índia, longa, difícil e geralmente sujeita a todo o tipo de adversidades. Chegado a Goa, o soldado colocava-se ao serviço do vice-rei ou de outra figura poderosa e influente, que lhe garantia o sustento enquanto não embarcasse para servir numa armada ou numa fortaleza, como geralmente ocorria. É claro que trazer uma carta de recomendação do reino, por parte de alguém importante, podia ser uma ajuda preciosa para o início da sua carreira. É que as tropas portuguesas não estavam organizadas em corpos de exército disciplinadas (como acontece hoje em dia), com uma hierarquia, um salário e uma residência fixa para os soldados.

Deste modo, o soldado recém-chegado à Índia tinha muitas vezes que procurar os seus próprios meios de subsistência, estando geralmente dependente de quem o sustentava. O melhor caminho a seguir era embarcar numa das armadas que regularmente partiam para as diversas fortalezas que os portugueses detinham por todo o Índico, podendo a partir daí, consoante as oportunidades, a relação estabelecida com os capitães e o seu próprio desempenho, auferir rendimentos que lhe permitissem melhorar a sua condição, ou mesmo, e em casos excepcionais, enriquecer.

A vida de um soldado no Oriente era difícil e perigosa. As armadas e fortalezas portuguesas estavam frequentemente sujeitas á hostilidade de reis vizinhos, de piratas ou corsários. A uma vitória militar, que geralmente proporcionava aos simples soldados uma parte dos despojos e do saque, podia-se seguir um desaire, um naufrágio ou um ataque inimigo que deitasse tudo a perder. Os soldados eram mal pagos, vendo-se muitas vezes obrigados a vender as suas armas para poder sobreviver, quando a sorte não lhes era favorável. A dureza e ingratidão da vida nas fortalezas e armadas portuguesas levava a que muitos soldados procurassem um modo alternativo de vida, procurando aproveitar as oportunidades que o seu valor e os seus conhecimentos podiam proporcionar. Muitos acabavam por se envolver directamente em actividades comerciais, certamente muito mais rendosas do que a simples vida soldadesca

Existia uma via mais radical. Muitos portugueses, ao longo dos séculos XVI e XVII, deixavam pura e simplesmente o serviço a que estavam obrigados e fugiam para fora da alçada das autoridades portuguesas, embrenhando-se na vastidão do espaço asiático. Tal podia ocorrer por simples desejo de aventura e de busca da fortuna, por fuga à justiça ou por qualquer outro motivo. Alguns portugueses chegaram mesmo a abjurar a sua religião e a converter-se ao Islão, passando então a designar-se por “renegados”. Esta gente seguia então uma vida aventurosa, como piratas ou soldados da fortuna, servindo muitas vezes como mercenários em exércitos locais, até mesmo de reis inimigos dos portugueses. Eram muito cobiçados, pois tinham conhecimentos de armas de fogo ligeiras e de artilharia que eram procuradas pelos reis asiáticos. Havia assim, uma miragem da riqueza e da promoção social subjacente a este tipo de vida. Para um soldado faminto e mal pago numa fortaleza, compreende-se que a fuga fosse uma tentação a que era difícil resistir. O Golfo do Bengala e os mares da China eram as áreas mais propícias à actividades de tais homens, já que o poderio das armadas portuguesas era aqui mais débil, e o número de fortalezas, diminuto. Não raras vezes, estes homens acabavam, mais cedo ou mais tarde, por voltar a contactar as autoridades portuguesas, oferecendo possibilidades de conquista ou de comércio à Coroa, ou simplesmente mostrando vontade de regressar para junto dos seus, por vezes para Portugal.

A vida de Fernão Mendes Pinto ilustra bem as peripécias, as glórias e as dificuldades por que passavam os portugueses no Oriente. Tal como aconteceu consigo, os soldados conseguiam muitas vezes regressar a Portugal, solicitando então ao rei uma recompensa pelos serviços prestados, que era geralmente uma pequena quantia, claramente insuficiente para cobrir toda uma vida de trabalhos, perigos e dificuldades por que passaram.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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