A CONQUISTA PORTUGUESA DE MALACA NAS FONTES MALAIAS

Uma das conquistas mais importantes realizadas por Afonso de Albuquerque, o grande construtor do império marítimo português no Oriente, foi a de Malaca. A cidade era, a data da chegada dos portugueses, uma das mais importantes e ricas do Oriente, uma vez que dominava o comércio de longo curso que ligava o Extremo Oriente á Índia. A história da conquista portuguesa é já sobejamente conhecida: em 1509 chega a Malaca Diogo Lopes de Sequeira, com a missão de abrir ali uma feitoria e estabelecer um acordo de comércio. Porém, e apesar de terem sido inicialmente bem recebidos, os portugueses acabaram por ser atacados e muitos feitos prisioneiros, tendo Diogo Lopes de Sequeira conseguido fugir. Tal hostilidade deveu-se sobretudo ás intrigas da poderosa comunidade muçulmana da cidade, que conseguiu convencer o sultão a agir deste modo. O resto da história é bem conhecido: um pouco mais tarde, Afonso de Albuquerque vai pessoalmente pedir satisfações e resgatar os portugueses, e acaba por tomar a cidade. Não vamos descrever estes acontecimentos. Pelo contrário, vamos hoje falar um pouco sobre o que dizem as histórias malaias a tal respeito.

A conquista portuguesa de Malaca ficou registada em diversas crónicas malaias. Não se trata de descrições factuais, como nós o entendemos, mas sim histórias que passaram á tradição local, e que foram mais tarde passadas a escrito. É evidente que a sua versão do ocorrido é muito diferente da das fontes portuguesas. Os portugueses são geralmente chamados de “Francos”, nome que designava todos os cristãos europeus. Porém, no primeiro contacto, houve malaios que tomaram os portugueses por habitantes do Bengala, no norte da Índia. Eis um registo desse primeiro contacto, na crónica malaia mais importante, os “Anais Malaios”:

“Pouco depois chegou um navio dos Francos de Goa, a fazer comércio com Malaca; e os Francos perceberam como o porto era próspero e bem povoado. A gente de Malaca, por seu lado, acorreu em grande número a ver como eram os Francos. Todos ficaram espantados, e disseram: Estes são Bengalis brancos! Á volta de cada Franco juntou-se um aglomerado de malaios, alguns puxando a sua barba, outros tocando na sua cabeça, outros tirando o seu chapéu, outros ainda mexendo na sua mão. E o capitão do navio ancorou e apresentou-se ao Bendara Sri Maraja, que o adoptou como seu filho e lhe concedeu muitas honrarias, enquanto o capitão lhe deu uma corrente de ouro”.

É evidente que esta história não é o relato de alguém que tenha assitido a este facto, mas sim o que ficou na tradição malaia deste primeiro contacto. Esta mesma crónica descreve mais adiante a forma como os portugueses se apossaram da cidade: um primeiro ataque directo falhou, mas o vice-rei jurou vingança, e alguns anos depois toma a cidade com uma grande armada. A crónica descreve longamente este facto, relatando os feitos heróicos dos capitães malaios, destacando porém a superioridade militar portuguesa. Algo que terá causade grande impressão era a artilharia portuguesa, como no passo seguinte:

“Ao chegar a Malaca os navios abriram fogo com os seus canhões. E a gente de Malaca ficou assustada e cheia de medo com o som do canhão, e disseram: “Que som é este, como um trovão?”. E quando as balas de canhão atingiram a gente de Malaca, de modo que alguns tiveram as suas cabeças arrancadas, alguns, os seus braços, e outros, as suas pernas, a gente de Malaca ficou cada vez mais espantada ao ver que espécie de artilharia era esta, e disseram: “O que será esta arma redonda, que no entanto é suficientemente afiada para nos matar?”

Apesar de bem diferente da versão portuguesa dos acontecimentos, estes “anais malaios” não deixam, porém, de ser em muitos pontos coincidentes com o que dizem as fontes portuguesas, nomeadamente a distinção entre a primeira viagem de Diogo Lopes de Sequeira e a posterior expedição militar, comandada pelo vice-rei, a que a crónica chama inclusivamente “Fongso de Albuquerque”. Há, porém, outras crónicas malaias que mancionam igualmente os portugueses. Uma há que relata toda a história do domínio português de Malaca, desde a conquista até á tomada da cidade pelos holandeses. É, porém, bem mais romanceada. Aqui se relata como os portugueses tomaram a cidade á traição, seduzindo os malaios com ouro para ganhar a sua confiança:

“Eis uma história dos tempos de outrora: os Frangues chegam à terra de Malaca. Chega então o capitão do navio a traficar, com vários outros capitães de navios, e trazem a el-Rei Sultão Ahmed Xá um presente de ouro, reais, roupas e cadeias de Manila; e fica o Sultão assaz contente com o capitão português. E assim, ao cabo de pouco tempo, quanto fosse desejo dos capitães, tudo era satisfeito pelo Sultão Ahmed Xá. Vários foram os ministros que observaram respeitosamente:

-Não seja a Alteza de Meu Senhor demasiado confiante para com essa gente branca, pois na modesta opinião de todos os vossos velhos servidores não é bom proteger o Meu Senhor a estes recém-chegados.

Então o Sultão Ahmed Xá falou:

-Meu tio bendara, e nobres tomungões, não vejo como possa esta gente branca provocar a perdição de nossa terra!

Eis então que os capitães dos navios começaram a dar cadeias de ouro de Manila aos vários notáveis do país de Malaca. E todos os nativos do país de Malaca quedam assaz agradados dos capitães dos navios portugueses.”

Seguidamente, descreve o estratagema usado pelos portugueses para tomar a cidade: aproveitaram a boa vontade do sultão para construír uma fortaleza, e depois usaram-na para atacar Malaca.

“Então de novo falou o Sultão Ahmed Xá ao capitão português:

-Que mais ainda desejam de nós estes nossos amigos, que tão belo presente nos trazem?

Disseram-lhe então os capitães todos dos navios:

-Nós desejaríamos pedir uma só coisa ao nosso bom amigo; isto se o nosso bom amigo deseja manter amizade connosco, gente branca.

E assim lhes respondeu o Sultão Ahmed Xá:

-Dizei-o pois, podemos escutar! Se é coisa que tenhamos, sem dúvida satisfaremos o desejo de nossos amigos!

Disseram então os capitães dos navios:

-Nós desejaríamos pedir um naco de terra, tamanho como uma pele de animal seca.

E el-Rei falou:

-Não se contristem os nosso amigos: tomai a terra que vos aprouver; se é de tal tamanho, possuí a terra.

Então o capitão português ficou assaz contente. E logo descem os portugueses a terra, trazendo enxadas de cavar, tijolos e cal. E vão buscar a tal pele, fazem dela uma corda, e com ela medem um quadrado. E fazem uma edificação grande em extremo, fortificada, e fazem ao mesmo tempo aberturas para canhões. E toda a gente de Malaca inquiria:

-Mas que aberturas são essas?

E respondiam os Portugueses:

-Isto são aberturas que a gente branca usa como janelas.

E eis qual foi o procedimento dos Portugueses: de noite, descarregaram bombardas de seus navios, e espingardas metidas em caixas, dizendo que havia roupas dentro delas: tal foi o procedimento dos Portugueses para iludir a gente de Malaca. Então, passado tempo, a casa de pedra ficou concluída e todas as suas armas prontas. E mais ou menos à meia-noite, quando a gente toda dormia, eis que os Francos bomberdeiam a cidade de Malaca. Depois disto, sob o bombardeamento dos Francos, à hora da meia-noite, eis que el-Rei Ahmed Xá com todo o povo fogem sem saber para onde, sem terem ocasião de resistir. E os Francos apossam-se de Malaca.”

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

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