Maio 2009


O QUOTIDIANO DE UM SOLDADO PORTUGUÊS NA ÍNDIA

No século XVI, a maior parte dos portugueses que partia de Lisboa em direcção à Índia faziam-no como soldados, procurando nas longínquas paragens do Oriente uma forma de enriquecer, escapando assim à miséria em que viviam em Portugal. Como viviam estes homens, e como era o seu dia-a-dia nesta empresa tão perigosa como irresistível, como era a busca da fortuna? É sobre este tema que nos vamos debruçar hoje, começando por tratar de uma questão fundamental: se os Descobrimentos Portugueses foram uma empresa essencialmente comercial e pacífica, como foi possível que a guerra desempenhasse no Oriente um papel tão importante, cabendo aos soldados uma função de primeiro plano?

Nas palavras de um homem da armada de Vasco da Gama, os portugueses chegaram á Índia em busca de “cristãos e especiaria”. Estas eram, de facto, as duas motivações mais importantes, desde que o rei D. João II traçara o seu plano de alcançar o continente asiático por via marítima: encontrar as comunidades cristãs, que se supunham muito numerosas, da Índia, de forma a estabelecer uma aliança contra o Mundo Muçulmano, e localizar as fontes das ricas especiarias orientais, nomeadamente a pimenta, obtendo assim grandes lucros com o seu transporte para a Europa. Tudo isto seria feito mediante contactos pacíficos e tratados comerciais, como já havia ocorrido na costa ocidental africana.

No entanto, quer os homens da armada de Vasco da Gama, quer o próprio rei D. Manuel I estavam redondamente enganados, como cedo viriam a descobrir. Em primeiro lugar, a Índia não era povoada de cristãos, mas antes de hindus, não existindo assim qualquer tipo de comunhão religiosa. Mas o mais importante é que os portugueses encontraram nos mares do Oriente os seus velhos inimigos, os muçulmanos. Estes, para além de numerosos, eram também muito poderosos e influentes, controlando precisamente o que mais interessava aos portugueses na costa ocidental indiana: o comércio marítimo das especiarias. Assim, os portugueses cedo compreenderam que o mundo do Oceano Índico era bem mais hostil do que pensavam inicialmente.

É que, ao contrário do Atlântico, o Índico não era um oceano “virgem”: o comércio marítimo estava já estabelecido por um conjunto de comunidades mercantis, sendo as muçulmanas as mais poderosas. Como cedo viriam a descobrir, os portugueses enfrentaram uma competição feroz por parte destas últimas, que não viam com bons olhos a chegada destes estrangeiros. Para procurarem um lugar no seio do comércio asiático e garantirem a sua própria segurança, os portugueses teriam assim que recorrer à força militar. Foi logo na segunda viagem, a de Pedro Álvares Cabral, que esta questão se tornou evidente. A partir deste momento, e à medida que se construíam os alicerces do que viria a ser o Estado da Índia, foi necessário o envio constante de navios, artilharia e soldados, de forma a proteger o comércio e os pontos de fixação portugueses, que se estenderam de Moçambique a Malaca, e daqui à China e ao Japão.

A vida de um soldado português na Índia não era fácil. O primeiro grande obstáculo a enfrentar era a própria viagem para a Índia, longa, difícil e geralmente sujeita a todo o tipo de adversidades. Chegado a Goa, o soldado colocava-se ao serviço do vice-rei ou de outra figura poderosa e influente, que lhe garantia o sustento enquanto não embarcasse para servir numa armada ou numa fortaleza, como geralmente ocorria. É claro que trazer uma carta de recomendação do reino, por parte de alguém importante, podia ser uma ajuda preciosa para o início da sua carreira. É que as tropas portuguesas não estavam organizadas em corpos de exército disciplinadas (como acontece hoje em dia), com uma hierarquia, um salário e uma residência fixa para os soldados.

Deste modo, o soldado recém-chegado à Índia tinha muitas vezes que procurar os seus próprios meios de subsistência, estando geralmente dependente de quem o sustentava. O melhor caminho a seguir era embarcar numa das armadas que regularmente partiam para as diversas fortalezas que os portugueses detinham por todo o Índico, podendo a partir daí, consoante as oportunidades, a relação estabelecida com os capitães e o seu próprio desempenho, auferir rendimentos que lhe permitissem melhorar a sua condição, ou mesmo, e em casos excepcionais, enriquecer.

A vida de um soldado no Oriente era difícil e perigosa. As armadas e fortalezas portuguesas estavam frequentemente sujeitas á hostilidade de reis vizinhos, de piratas ou corsários. A uma vitória militar, que geralmente proporcionava aos simples soldados uma parte dos despojos e do saque, podia-se seguir um desaire, um naufrágio ou um ataque inimigo que deitasse tudo a perder. Os soldados eram mal pagos, vendo-se muitas vezes obrigados a vender as suas armas para poder sobreviver, quando a sorte não lhes era favorável. A dureza e ingratidão da vida nas fortalezas e armadas portuguesas levava a que muitos soldados procurassem um modo alternativo de vida, procurando aproveitar as oportunidades que o seu valor e os seus conhecimentos podiam proporcionar. Muitos acabavam por se envolver directamente em actividades comerciais, certamente muito mais rendosas do que a simples vida soldadesca

Existia uma via mais radical. Muitos portugueses, ao longo dos séculos XVI e XVII, deixavam pura e simplesmente o serviço a que estavam obrigados e fugiam para fora da alçada das autoridades portuguesas, embrenhando-se na vastidão do espaço asiático. Tal podia ocorrer por simples desejo de aventura e de busca da fortuna, por fuga à justiça ou por qualquer outro motivo. Alguns portugueses chegaram mesmo a abjurar a sua religião e a converter-se ao Islão, passando então a designar-se por “renegados”. Esta gente seguia então uma vida aventurosa, como piratas ou soldados da fortuna, servindo muitas vezes como mercenários em exércitos locais, até mesmo de reis inimigos dos portugueses. Eram muito cobiçados, pois tinham conhecimentos de armas de fogo ligeiras e de artilharia que eram procuradas pelos reis asiáticos. Havia assim, uma miragem da riqueza e da promoção social subjacente a este tipo de vida. Para um soldado faminto e mal pago numa fortaleza, compreende-se que a fuga fosse uma tentação a que era difícil resistir. O Golfo do Bengala e os mares da China eram as áreas mais propícias à actividades de tais homens, já que o poderio das armadas portuguesas era aqui mais débil, e o número de fortalezas, diminuto. Não raras vezes, estes homens acabavam, mais cedo ou mais tarde, por voltar a contactar as autoridades portuguesas, oferecendo possibilidades de conquista ou de comércio à Coroa, ou simplesmente mostrando vontade de regressar para junto dos seus, por vezes para Portugal.

A vida de Fernão Mendes Pinto ilustra bem as peripécias, as glórias e as dificuldades por que passavam os portugueses no Oriente. Tal como aconteceu consigo, os soldados conseguiam muitas vezes regressar a Portugal, solicitando então ao rei uma recompensa pelos serviços prestados, que era geralmente uma pequena quantia, claramente insuficiente para cobrir toda uma vida de trabalhos, perigos e dificuldades por que passaram.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Militar (século XVII). Depois de exercer o cargo de governador de Malaca, foi nomeado governador-geral do Brasil, em 1621, numa altura em que os holandeses fundavam a Companhia das Índias Ocidentais. Empenhou-se então na defesa da Baía e de Pernambuco, mas encontrou várias dificuldades, ou mesmo má vontade, como foi o caso do bispo D. Marcos de Teixeira, com quem entrou em conflito. Recebendo a notícia de que os holandeses tinham enviado uma frota para atacar a Baía, tentou tomar todas as providências, mas após o desembarque do inimigo em Salvador, a 8 de Maio de 1624, depois de dois dias de luta, seria preso e a população obrigada a fugir. Juntamente com outros prisioneiros foi então enviado para a Holanda, permanecendo em cativeiro durante mais de dois anos. Regressado a Portugal, seria detido durante longos meses, acabando por ser absolvido em tribunal.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

OS PORTUGUESES NO TECTO DO MUNDO

É por todos bem conhecida a primazia portuguesa na descoberta do Mundo, colocando em contacto culturas e civilizações anteriormente isoladas. No que toca ao continente asiático, os portugueses fizeram a primeira ligação marítima entre a Europa e a Índia, seguindo-se depois o Golfo de Bengala, a Insulíndia e finalmente o Extremo Oriente, a China e o Japão. No entanto, tudo isto se refere a viagens e rotas marítimas. O vastíssimo interior do continente asiático permanecia na sua maior parte isolado. Vamos hoje falar do papel fundamental desempenhado por alguns portugueses no descobrimento das mais remotas regiões deste continente, nomeadamente os Himalaias, o Tibete e o interior da China.

O continente asiático despertara desde há muito a curiosidade dos europeus, pelo seu carácter longínquo e misterioso. Porém, as informações que circulavam na Europa durante a Idade Média eram escassas e confusas. O principal nome sob o qual a China era conhecida nessa altura era o de Cataio, que o célebre viajante Marco Polo celebrizou. Este veneziano descreveu o Cataio como um poderoso reino do Extemo Oriente, governado pelo Grão Cã, tendo o relato da sua viagem conhecido uma grande divulgação por toda a Europa, inclusivamente em Espanha e em Portugal. Havia, aliás, outras informações que identificavam este rico e grandioso reino asiático com o mítico Prestes João, um poderoso reino cristão que se acreditava existir algures no Oriente, e que seria um valoroso aliado dos cristãos na luta contra o Mundo Muçulmano. A origem desta confusão parece estar relacionada com a existência de algumas tribos cristãs na Ásia Central, cuja importância e dimensão terão sido enormemente exageradas. Aliás, parece que o nome de “Cataio” terá derivado do nome de uma destas tribos cristãs, os Kithai.

Na Europa, havia quem desconfiasse destas informações, mas igualmente quem nelas acreditasse sem reticências. Cristóvão Colombo, por exemplo, empreendeu a sua famosa viagem de descobrimento em busca do Cataio e do Cipango, ou seja, do Japão, julgando tê-los encontrado quando desembarcou nas Antilhas. Os portugueses, pelo contrário, nunca deram grande crédito a tais expectativas e informações. Para D. João II e os seus homens, o Preste João localizava-se não na Ásia mas sim na Etiópia, e o objectivo a atingir pelos seus navios era a verdadeira Índia, através de um esforço prático de navegação e não de qualquer nebulosa tradição medieval.

A viagem de Vasco da Gama permitiu a criação de uma via de comunicação entre a Europa e a Índia. Nos anos seguintes, e à medida que se fixavam por estas paragens, os portugueses prosseguiam o seu avanço para Leste. A conquista de Malaca em 1511 abriu-lhes as portas do Extremo Oriente, e foi aqui que obtiveram informações concretas sobre a China, onde chegaram algum tempo depois. Aliás, o nome “China” foi adoptado pelos portugueses por via da língua malaia, passando depois para a maior parte das línguas europeias. Ao longo do século XVI, os portugueses passaram a frequentar a costa chinesa, fundando Macau, e estabelecendo-se igualmente no Japão. A presença portuguesa era quase exclusivamente comercial, e marcada pelo seu carácter marítimo: o que os portugueses conheciam era uma parte da costa, os portos, os marinheiros e os mercadores chineses. Logo, as informações que chegavam a Lisboa diziam respeito à faceta marítima da China.

Deste modo, ao longo de todo o século XVI, circulavam pela Europa duas fontes paralelas referentes à China: uma tradicional, medieval, obtida por via continental e terrestre, que falava do reino do Cataio; e uma moderna e marítima, que descrevia as costas chinesas, trazida por quem conhecia a China por mar. A fusão entre estas duas facetas só foi feita muito tardiamente. Só no século XVII é que se concluiu que a China e o Cataio eram um único país. Até lá, discutiu-se sobre a relação entre estas duas entidades: uns diziam ser o Cataio um reino independente da China; outros, que se tratava de uma província da mesma.

O esforço decisivo para se acabar de vez com estas dúvidas foi empreendido pelos Jesuítas, já nos finais do século XVI. É que a velha ideia da possível existência de um poderoso reino cristão na Ásia não havia sido esquecida, pelo que tal tinha que ser definitivamente tirado a limpo.

O europeu que pela primeira vez fez a viagem da Índia para a China por terra era português, e chamava-se Bento de Góis. Natural de Vila Franca do Campo, em S. Miguel, era jesuíta e iniciou a sua jornada em 1602. Falava persa e viajou disfarçado de muçulmano, de modo a melhor passar despercebido. A sua viagem durou vários anos, até que atingiu finalmente Socheu, junto à célebre Muralha da China. A ele se deveu, pela primeira vez, a prova definitiva de que o Cataio e a China eram o mesmo reino. Faleceu pouco depois, devido aos rigores e dificuldades que sofreu ao longo da sua jornada. As informações que recolheu sobre esta questão foram transmitidas a outros elementos da sua Ordem, que assim as divulgaram.

Para o conhecimento geográfico, esta viagem revestiu-se da maior importância, pois permitiu pela primeira vez juntar as duas tradições e acabar de vez com o debate sobre o mítico Cataio. Para a Companhia de Jesus, porém, as notícias não foram as melhores, pois Bento de Góis não deu sinais da existência de cristãos, cuja existência era já duvidosa. No entanto, o esforço para os encontrar não esmoreceu. Pelo contrário, foi dirigido noutro sentido, num reino remoto, para lá dos Himalaias: o Tibete.

Tal tarefa foi entregue e levada a bom termo pelo jesuíta português António de Andrade, natural da vila de Oleiros, que em 1624 parte de Agra a caminho dos Himalaias. A viagem foi marcada pelas terríveis condições do clima, pela dificuldade dos caminhos e sobretudo pelo frio intenso, como descreve numa das suas cartas:

“O trabalho que passámos foi muito excessivo, porque nos acontecia muitas vezes ficar encravados na neve, ora até aos ombros, ora até aos peitos, de ordinário até aos joelhos. Nos pés, mãos e rosto não tínhamos sentimentos, porque com o demasiado rigor do frio ficávamos totalmente sem sentido; aconteceu-me, pegando em não sei quê, cair-me um bom pedaço do dedo sem eu dar fé disso, sem sentir ferida, se não fora o muito sangue que dela corria. Os pés foram apodrecendo, de maneira que, de muito inchados, no-los queimavam depois com brasas vivas e ferros abrasados e com muito pouco sentimento nosso”.

Chegou finalmente ao Tibete, tendo aí regressado no ano seguinte e convertido o rei local ao Cristianismo, o que considerou ser uma grande vitória missionária. Curiosamente, chamou ao Tibete o “Grão-Cataio”, o que prova como as informações de Bento de Góis ainda não haviam sido plenamente aceites, tendo ainda decorrido algum tempo até se tornarem conhecimento geral.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Historiador e militar (Coruche, 1625? – Lisboa, 1692). Oriundo de uma família abastada, participou nas guerras da Restauração nomeadamente na Batalha do Montijo (1644). Em 1653 foi nomeado almirante da esquadra da Companhia do Comércio do Brasil que, no ano seguinte, teve a derradeira vitória sobre a resistência holandesa em Pernambuco. Em 1655, ascendeu a general da segunda frota da mesma companhia e, em 1658, foi governador da praça de Juromenha. Três anos mais tarde, recebeu o governo de Pernambuco, cargo que manteve até 1664, assumindo a governação da cidade de Beja, em 1665. Publicou diversos livros de grande valor histórico e literário, de onde se destaca A Relação da Viagem Que Fez ao Brasil a Armada da Companhia, Ano de 1665 (1667) e Nova Lusitânia, História da Guerra Brasílica (1675). Esta última obra, que é considerada um clássico da língua portuguesa, representa o primeiro grande estudo no domínio da história da América portuguesa.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

A CONCORRÊNCIA LUSO-HOLANDESA NO SÉCULO XVII

Ao longo da sua História, Portugal desenvolveu um conjunto de laços e ligações particulares com alguns países da Europa. É sobejamente conhecida a relação conturbada com Espanha, desde mesmo os primórdios da fundação da nacionalidade. É igualmente conhecida a antiga aliança com a Inglaterra, velha de 600 anos, que juntava os interesses comuns dos dois países predominantemente marítimos. Mas hoje vamos abordar um caso igualmente significativo, mas menos conhecido. Referimo-nos ao caso da Holanda, ou mais correctamente aos Países Baixos, cujas ligações a Portugal remontam aos primeiros tempos da nossa História. Vamos tratar, em concreto, de um período de cerca de 60 anos em que, contrariando a longa tradição de amizade, portugueses e holandeses foram acérrimos inimigos, no que ficou para a História como o primeiro grande conflito à escala planetária.

Quem tomar o relacionamento entre Portugal e a Holanda entre a Idade Média e o século XVI, encara certamente com estranheza – para não dizer espanto – o período de concorrência entre os dois povos inaugurado nos finais daquele século. A ligação tradicional e a amizade entre os dois países tinha raízes profundas. Sendo ambas potências marítimas, uma na encruzilhada de África com a Europa, do Mediterrâneo com o Atlântico, e a outra no cruzamento do Mar do Norte com a Europa Central, desde o século XII que desenvolviam um intenso comércio mutuamente proveitoso. Com o arranque dos Descobrimentos Portugueses, tal passou a ser ainda mais vincado, pois a Holanda funcionava como centro distribuidor dos produtos africanos, brasileiros e asiáticos para a Europa, a partir de Lisboa. Os interesses dos dois países, que no século XVI eram assim complementares, passaram a partir de determinada altura a divergir. Tal ocorreu na verdade a partir da década de 1580.

A partir da década de 1580, Portugal passa a ter como rei Filipe II de Castela, que após um breve período conturbado conseguira tomar o trono português. Assim, a partir desta data, Portugal e Espanha passam a ter um destino comum. Ao mesmo tempo que Portugal se une á Espanha, os holandeses seguem o caminho oposto: tendo estado sob domínio espanhol, desencadeiam a certa altura uma revolta, proclamando a independência. Assim, deste modo, Portugal e Países Baixos encontram-se, na década de 1580, súbita e inesperadamente em campos opostos. Tal não significava necessariamente inimizade declarada. Em princípio, a rebelião das Províncias Unidas era um problema que a Coroa de Castela teria que enfrentar e a que os portugueses eram alheios, pelo que o comércio entre os portos portugueses e os flamengos se manteve intenso. Porém, o que viria a acontecer foi que o rei espanhol, embora tivesse jurado nas Cortes de Tomar que a política externa portuguesa manteria a sua autonomia, passou a conduzi-la segundo os interesses espanhóis. Na prática, o que aconteceu foi que os inimigos de Espanha passaram a ser igualmente inimigos de Portugal: entre os mais importantes contavam-se a Inglaterra e a Holanda, dois aliados tradicionais de Portugal. O rastilho do conflito foi aceso em 1595, ano em que Filipe II encerrou de vez os portos portugueses à navegação holandesa e confiscou os bens dos navios que se encontravam na barra de Lisboa. Os holandeses viram-se assim definitivamente privados do acesso às mercadorias ultramarinas, sobretudo orientais. Nesse mesmo ano enviariam a sua primeira expedição ao Oriente, abrindo assim o caminho a um período de concorrência e hostilidade entre os dois países.

A primeira viagem holandesa ao Oriente não se pode considerar propriamente um sucesso, devido às terríveis baixas, à desorientação da tripulação e à precaridade do seu percurso, pois só regressaria aos Países Baixos três anos mais tarde, mas abriu caminho a outras expedições e à decisiva penetração holandesa na Ásia, o que veio de facto a ocorrer rapidamente. Inicialmente pacíficas e meramente comerciais, as navegações holandesas tornaram-se gradualmente mais exigentes, tanto mais que os portugueses cedo passaram a combater os intrusos por todos os meios ao seu alcance. Passou-se assim rapidamente a um estado de guerra não-declarada. Os holandeses, considerando que os portugueses não tinham o direito de lhes vedar o acesso á Índia e ás especiarias orientais, passaram a atacar indiscriminadamente as posições portuguesas, tanto as armadas como as fortalezas, conseguindo alcançar importantes vitórias. Na verdade, o Estado da Índia português, minado por diversas dificuldades (que iam desde a corrupção generalizada do sistema ao atrofiamento da sua estrutura organizativa), estava militarmente incapacitado de responder eficazmente a tal concorrência. Os portugueses, dispersos por um império que se estendia do Brasil ao Japão e com recursos humanos, financeiros e políticos limitados, não podiam competir com uma potência europeia melhor armada, financiada e organizada, tanto mais que outras potências passaram a entrar igualmente na corrida, ingleses, franceses e até dinamarqueses.

As primeiras viagens holandesas foram pacíficas e cautelosas. Só gradualmente, à medida que os portugueses reagiam com dureza crescente, é que o procedimento se modificou. É preciso ver que, aos olhos das autoridades portuguesas, os holandeses eram piratas e considerados rebeldes e ainda por cima de religião protestante. Estava assim aberto o caminho á competição desenfreada e á guerra total, que alastrou do Oriente para o continente americano. Também aqui os holandeses atacaram as possessões portuguesas, nomeadamente no norte do Brasil. O ritmo deste conflito prosseguiu de forma crescente até á década de 1630. É sabido que o assalto holandês generalizado ás posições ultramarinas portuguesas e a indiferença com que os reis espanhóis encaravam a questão foram uma das motivações que levaram á revolta e á Restauração da independência. A partir de 1640, Portugal encontra-se novamente em boas relações com a Holanda, como aliás com outras potências inimigas de Espanha, como a Inglaterra.

A Restauração portuguesa, em Dezembro de 1640, deveria em princípio ter posto fim à pressão holandesa sobre os portugueses: estes já não eram súbditos do rei espanhol, mas sim de um novo rei que rapidamente procuraria o apoio holandês para a sua causa, retomando a velha relação de amizade entretanto interrompida. Acontece que os holandeses estavam muito pouco receptivos a aceitar tal argumento, tanto mais que a sua posição de vantagem lhes permitia antever novas vitórias perante o enfraquecido poder português; o assalto prosseguiu, portanto, quer no Oriente, quer no Atlântico. Só em 1669, é que a paz foi assinada, pelo Tratado de Haia. As relações luso-holandesas foram finalmente normalizadas, retomando a tradição de amizade e complementariedade económica – agora sob outros moldes – que fizera a sua História até à década de 1580.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Em 1638, na qualidade de piloto-mor, seguiu para Pernambuco (Brasil) na armada chefiada pelo conde da Torre, D. Fernando de Mascarenhas, para ali combater os holandeses, que haviam tomado a região. Aportando em Salvador em 1639, foi ferido em combate, acabando por falecer devido aos ferimentos. Como reconhecimento pelo serviço prestado à nação, a sua filha passou a receber uma tença anual, a partir de 1645.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

PÊRO MAGALHÃES DE GÂNDAVO

Com o descobrimento do Brasil pela armada de Pedro Álvares Cabral, no ano de 1500, abriu-se aos portugueses o vasto continente Sul-Americano, que viria a ser lenta e gradualmente explorado no decorrer dos séculos seguintes. É verdade que durante a primeira metade do século XVI, os portugueses estavam sobretudo virados para a Índia e o Oriente, mas a terra brasileira passou a despertar cada vez mais o interesse de todos. Assim, os portugueses começaram por se fixar ao longo da linha de costa, avançando depois gradualmente para o interior. Um dos aspectos mais interessantes deste contacto é o facto de depararem com uma terra completamente estranha, com produtos, animais, plantas e habitantes nunca anteriormente conhecidos na Europa, e que despertavam naturalmente uma grande curiosidade. Famos hoje falar da primeira História do Brasil, escrita ainda no século XVI, onde são descritos estes aspectos e onde é traçado o primeiro balanço da presença portuguesa naquela região. A obra chama-se História da Província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil, e o seu autor é o português Pêro Magalhães de Gândavo.

Pouco de conhece da vida de Pêro Magalhães de Gândavo. Nasceu provavelmente em Braga, por volta de 1540, sendo descendente de uma família de comerciantes flamengos oriundos da cidade de Gand, daí o seu apedido Gândavo. Em Braga viveu boa parte da sua vida, tendo ali casado e ensinado Latim e Português. Era, aliás, um bom conhecedor da nossa língua, tendo escrito uma obra de ortografia e gramática portuguesa. Partiu a certa altura para o Brasil, tendo então tomado contacto com aquela terra, que lhe serviu de inspiração para a obra de que falamos aqui hoje. A sua História da Província Santa Cruz. Já no seu tempo era comum a designação de “Brasil”, mas o autor justifica, logo no início da obra, porque se deveria antes chamar esta terra de Santa Cruz, nome pelo qual fora baptizada e que caía gradualmente no esquecimento:

“Não nos esqueçamos do nome de Cristo por outro que lhe deu o vulgo mal considerado, depois que o pau da tinta começou a vir a estes reinos. Ao qual chamamos brasil por ser vermelho e ter semelhança de brasa, e daqui ficou a terra com este nome de Brasil. Mas que para nesta parte magoemos ao Demónio, que tanto trabalhou e trabalha por extinguir a memória da Santa Cruz e desterrá-la dos corações dos homens, tornemos-lhe a restituir seu nome, e chamemos-lhe Província de Santa Cruz, como em princípio.”

Sendo Gândavo o primeiro historiador do Brasil, é natural que esta obra fosse pioneira no que se refere à descrição da terra brasileira. De facto, o autor ocupa a maior parte do trabalho com a descrição de uma série de aspectos locais. Em primeiro lugar, os animais, que eram em boa parte deconhecidos: o papa-formigas, o tatu, uma série de aves e peixes exóticos são descritos com espanto, estranheza e maravilha. Chega mesmo a descrever um suposto monstro que teria aparecido na capitania de S. Vicente, e que fora morto pelos portugueses da localidade.

Os habitantes locais não são esquecidos. Gândavo descreve os índios brasileiros segundo, evidentemente, os padrões da sua época: os usos e costumes, o carácter e o modo de vestir, a cor, os cabelos e a linguagem são os aspectos masi salientes da sua descrição. Sendo Gândavo um homem de letras, não deixa de assinalar algumas característica da língua local, nomeadamente o facto de haver diferenças consoante os grupos e as tribos índias. O que mais o impressiona, como era normal para a mentalidade portuguesa da época, são alguns dos ritos religiosos, nomeadamente supostas práticas de canibalismo que alegadamente existiam e que lhe causam o maior horror. Para contrabalançar estas apreciações, não deixa de assinalar o sucesso da missionação dos jesuítas naquela terra, que por esta altura conhecia um rápido avanço. As plantas brasileiras merecem igualmente a sua atenção. A que descreve com maior cuidado é a mandioca, assinalando as suas utilidades, assim como as características de cada parte da planta. Descreve a bananeira, que os portugueses trouxeram de S. Tomé, sendo os seus frutos muito apreciados localmente, dizendo que “parecem-se na feição com pepinos, e criam-se em cachos; esta fruta é muito saborosa, e das boas que há na terra; tem uma pele como de figo (ainda que mais dura), a qual lhe lançam fora quando a querem comer, mas faz dano à saúde, e causa febre”. Também os cajús e os ananases despertaram-lhe a curiosidade. Eis como descreve estes últimos:

“Outra fruta há nesta terra, muito melhor e mais prezada dos moradores de todas, que se cria numa planta humilde junto do chão: a qual planta tem umas pencas como de erva babosa. A esta fruta chamam ananases e nascem como alcachofras, os quais parecem naturalmente pinhas, e são do mesmo tamanho e alguns maiores. Depois que são maduros, têm um cheiro muito suave, e comem-se aparados, feitos em talhadas. São tão saborosos, que a juízo de todos, não há fruta neste reino que no gosto lhes faça vantagem”.

A História da Província de Santa Cruz não se limita a aspectos descritivos. Para além de relatar a descoberta do Brasil pelos portugueses, assim como os primórdios da colonização, descreve ainda as diversas capitanias em que se dividia o território brasileiro. Traça, por fim, um retrato das potencialidades que esta terra reservava aos portugueses, tal como a vastidão do território e dos seus recursos.

Pouco mais se conhece da vida de Pêro Magalhães de Gândavo. Sabe-se que viveu durante algum tempo no Brasil, regressando posteriormente a Portugal. Em 1576 é chamado de novo a esta terra, desta vez para desempenhar o cargo de Provedor da Baía. Em 1579 era ainda vivo, nada mais se sabendo da sua biografia. Embora fosse conhecido na sua época como humanista e letrado, ficou na História como o autor da obra sobre o Brasil. Esta foi publicada ainda em vida do autor, em 1575. Uma das curiosidades mais interessantes acerca desta obra é que ela prova que Gândavo conheceu pessoalmente Luís de Camões. Foi aqui, como prólogo ao corpo da obra, que o poeta publicou pela primeira vez trabalhos seus. Trata-se, neste caso, de um conjunto de tercetos e um sonetos dedicados a D. Leonis Pereira, que fora capitão de Malaca, e a quem Gândavo dedica igualmente a sua obra.

Foi primeiro visconde Pedro Jaques de Magalhães (cerca de 1600-1688), um dos mais ilustres oficiais do Exército e da Armada portugueses. Iniciou a carreira na América do Sul, mas com a Restauração D. João IV chamou-o ao reino, tal como a outros militares que por lá se encontravam. Em 1646 era governador da praça de Olivença. Cinco anos depois chefiou, como general, uma armada para combater os holandeses no Brasil, que na altura dominavam Pernambuco. Pedro Jaques, por mar, e Francisco Barreto, por terra, lideraram o cerco que obrigou os holandeses à capitulação, em 1654. […]

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

PÊRO DA COVILHÃ

O papel excepcional que os portugueses desempenharam no Descobrimento do Mundo, nos séculos XV e XVI, é hoje aceite sem reservas por todos. De entre os homens que mais contribuiram para tal processo destacam-se no corrente ano as figuras do Infante D. Henrique e do rei D. João II, por se comemorar os 600 anos do nascimento daquele e os 500 anos do Tratado de Tordesilhas. Porém, os manuais de História destacam igualmente outros nomes, como os de Gil Eanes, Bartolomeu Dias ou Vasco da Gama. Estes foram, de facto, protagonistas dos feitos mais memoráveis. No entanto, outros homens contribuíram igualmente para a empresa dos Descobrimentos, embora o seu nome seja por vezes esquecido. Vamos hoje falar de Pêro da Covilhã, um homem cujo papel tem sido subalternizado, mas que desempenhou na sua época uma missão notável e verdadeiramente decisiva para o projecto expansionista do rei D. João II.

As origens de Pêro da Covilhã, assim como a sua data de nascimento, são obscuras. Parece ter nascido entre 1450 e 1455, tendo partido muito novo para Castela, onde serviu o duque de Medina Sidónia durante a sua juventude. Por volta de 1474 encontrava-se de novo em Portugal, estando ao serviço da Casa Real. Reinava nessa altura D. Afonso V, que procurava apoios para a sua política de interferência na crise dinástica de Castela. O rei tentava por estes anos reclamar para si o trono castelhano, entrando em guerra aberta com os Reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Pero da Covilhã parece tê-lo acompanhado, já como escudeiro, quer nas incursões guerreiras que fez o rei em Espanha, que nas diligências que efectuou junto da corte francesa em busca de apoio para a sua causa. Parece que Pêro da Covilhã demonstrou aqui as suas capacidades diplomáticas, que lhe seriam preciosas mais tarde. De qualquer modo, já por esta altura passou a estar ao serviço do príncipe D. João, futuro D. João II, que passava agora a orientar directamente as viagens de Descobrimento. Ao serviço deste príncipe desempenhou igualmente algumas missões diplomáticas, tanto em Marrocos como em Castela.

Na década de 1480, o rei D. João II leva a cabo o seu projecto de alcançar a Índia contornando o continente africano, aproveitando a já longa experiência portuguesa de navegação no Atlântico e a vantagem técnica que os portugueses possuíam sobre as outras nações europeias. Tal só poderia ser executado mediante um rigoroso plano, que o rei põe em prática. A principal fase deste plano consistia no avanço ao longo da costa africana tentanto encontrar a passagem para o Oceano Índico; tal foi o objectivo das viagens de Diogo Cão e, um pouco mais tarde, de Bartolomeu Dias. No entanto, enquanto enviava os seus navios, o rei procurava igualmente obter informações directas sobre o Oriente, enviando emissários por terra. A primeira tentativa consistiu no envio de frei António de Lisboa e Pero de Montarroio, mas estes homens, não sabendo árabe, não conseguiram ir longe. É aqui que o rei chama Pêro da Covilhã para uma nova missão: viajar por terra ao Oriente e obter informações sobre a passagem entre o Oceano Atlântico e o Índico, sobre o comércio das especiarias da Índia e sobre as condições que os portugueses encontrariam quando lá chegassem. Deu-lhe por companheiro Afonso de Paiva, que também sabia árabe, e preparou cuidadosamente a missão.

Em 1487, ao mesmo tempo que partia de Lisboa a expedição de Bartolomeu Dias, saíam Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva por via terrestre em direcção ao Oriente. Atravessaram Espanha até Barcelona, onde seguiram por barco para Alexandria e depois para o Cairo, no Egipto. Integraram-se então numa caravana com direcção a Adém, no Mar Vermelho. Iam disfarçados de mercadores, o que lhes facilitava os movimentos uma vez que haviam há muito entrado em terras de muçulmanos. Ao chegarem a Adém, os portugueses separaram-se: Afonso de Paiva seguiu para a Etiópia, enquanto Pêro da Covilhã tinha como destino a Índia, combinando encontrar-se posteriormente no Cairo. Afonso de Paiva não chegaria a cumprir a sua missão, pois morreu antes de penetrar na Abissínia. Já Pêro da Covilhã teve melhor sorte. De facto, cumpriu á risca as ordens do rei, tendo de imediato seguido para a costa ocidental indiana. Cananor, Calecut, Goa foram as suas etapas, onde recolheu informações sobre as rotas comerciais que ligavam a Índia ao Extremo Oriente e á Europa. Completou a sua imagem do comércio oriental seguindo para Ormuz, no Golfo Pérsico. Para além da recolha de informações de índole comercial, Pêro da Covilhã ia também incumbido de inspeccionar a costa oriental africana, o que fez por volta de 1490, tendo chegado até Sofala.

Tendo obtido as informações julgadas necessárias, regressa então ao Cairo, onde toma conhecimento da morte do seu companheiro Afonso de Paiva. Contacta então outros dois homens do rei D. João II, os judeus mestre José e o rabino Abraão, que o informam das novas ordens régias: fazer um relatório detalhado das suas viagens a mestre José, que estava de regresso a Portugal, conduzir o outro agente a Adém, e finalmente dirigir-se á Etiópia, substituindo Afonso de Paiva. Era esta a nova pesada tarefa que o rei lhe ordenava, o que se dispõe imediatamente a cumprir. Estava-se então em 1491.

O resto da vida de Pêro da Covilhã é mal conhecido, mas não deixa por isso de despertar grande interesse. Como vimos, dirigiu-se á Etiópia após ter cumprido a missão de que tinha provido do reino. A Etiópia era nessa época um reino quase desconhecido na Europa; aqui era designada pelo nome de reino cristão do Prestes João, e circulavam histórias sobre o seu imenso poder que, aliado aos portugueses, poderia ser um excelente apoio contra o Mundo Muçulmano. Na verdade, tratava-se de um pequeno estado, pobre e fraco, como Pêro da Covilhã certamente constatou em 1492 ou 93, data da sua chegada. Foi bem recebido na corte etíope, tendo entregue cartas de D. João II para o rei. Porém, foi impedido de regressar a Portugal. E nada mais se soube de Pêro da Covilhã até que em 1526 chega á Etiópia uma embaixada portuguesa, que o encontra ainda vivo, já com mais de 70 anos e ocupando um lugar importante na corte etíope.

Paulo Jorge de Sousa Pinto – texto de apoio a programas de rádio sob a designação “Era uma vez… Portugal”, emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Militar (séculos XVI e XVII). Oficial do Exército, foi por vezes confundido com o seu filho e homónimo, que enveredou igualmente pela carreira das armas e, tal como o pai, se revelou um notável militar. Sabe-se que Diogo Gomes de Figueiredo (pai) lutou contra os holandeses na Baía (1624) e que três anos mais tarde integrava a armada que naufragou ao largo da costa francesa. Participou ainda na Guerra da Restauração, falecendo em 1685, já com a patente de general de Artilharia. Deixou obra poética e dois volumes sobre o manejo das armas: Livro da Destreza das Armas, que ficou inédito, e Memorial da Prática do Montante, que dedicou ao príncipe D. Teodósio (filho de D. João IV), de quem foi mestre. Existem no entanto dúvidas de atribuição de autoria entre pai e filho, por exemplo no que respeita ao Parecer, obra que aliás já foi referida como pertencente a um terceiro homónimo.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

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