Enquanto no reino se iam gizando os planos políticos, os homens presentes no Brasil iam percebendo a importância crescente do avanço para sul, com o estabelecimento de pontos de apoio ao longo da costa. E nessa perspectiva começou a ser apontado o local onde viria a ser construído o Rio de Janeiro, pela sua localização estratégica. Tal aconteceu com a já aludida expedição de Martim Afonso, que permaneceu de 30 de Março a 1 de Agosto de 1531 na Guanabara. O irmão deste capitão, Pero Lopes de Sousa, traçou, no roteiro por si elaborado, a primeira panorâmica desta zona, em língua portuguesa. Em texto sucinto, mas valioso, descreve a beleza da região: “A gente deste rio he como a da baia de todolos santos, senam quanto he mais gentil gente. Toda a terra deste Rio he de montanhas e serras mui altas, as melhores aguas ha neste Rio […]”. Estes dois irmãos estabeleceram-se na zona, sendo concedida a capitania de S. Vicente a Martim Afonso de Sousa, e a de Santo Amaro a Pêro Lopes de Sousa. Com a sua presença, dois padrões portugueses passariam a demarcar a respectiva soberania na zona que englobava já o local onde seria construída a futura cidade do Rio de Janeiro. E tal escolha não era indiferente ao nauta português, pois tinha ordem régia para “na repartição que disso se ouver de fazer escolhais a melhor parte […] nos melhores limites dessa costa […]”. Se escolheu esta zona foi porque acreditou no seu potencial, numa clara demonstração do crescente interesse dos portugueses pelas terras meridionais, mas também percebendo a importância estratégica da Guanabara.

Mas o grande centro de interesse oficial na política do Brasil continuava a ser as capitanias do Norte, sobretudo Pernambuco e a Baía. Por isso, era nessa porta de entrada do território que a Coroa fazia concentrar a parte mais forte da defesa, quase desguarnecendo a restante costa. Tal permitia que a acção dos corsários franceses continuasse a alargar-se até à zona do Cabo Frio, onde iam roubar madeira e amotinar os indígenas contra a presença dos mercadores e nautas portugueses. Nos anos de 1547 e 1548 essa ameaça tornara-se tão grave que Luís de Góis, morador em Santos, escreveu a D. João III alertando-o: “se com tempo e brevidade Vossa Alteza não socorre a estas capitanias e costa do Brasil, ainda que nós percamos as vidas e fazendas, Vossa Alteza perderá a terra”. Este e outros alertas levaram à criação, em 1549, do Governo Geral e à medida que se caminhava para uma melhor organização do território, mais clara se tornava a importância estratégica da Guanabara. Por isso iam aumentando as propostas para que o monarca ali mandasse fundar uma povoação, única maneira de evitar a perda da região, pois continuava a ser uma escala de corsários, sobretudo franceses.

(Manuela Mendonça, “A tardia ocupação da região de Guanabara. Insensatez política ou mentalidade antiga?”, in “Raízes Medievais do Brasil Moderno – Actas”, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 2008, pp. 289, 290)

Advertisements