A substituição do governador Tomé de Sousa por D. Duarte da Costa que, talvez orientado pelo governo de Lisboa, parecia desinteressado das capitanias do sul, não foi de molde a valorizar a presença portuguesa na Guanabara. Tal atitude haveria de conduzir ao reforço da presença franca, que teria o seu ponto alto nos finais de 1555. Então, um grupo de 600 franceses, chefiados por um Nicolau de Villegaignon – curiosa figura de jurista, militar e aventureiro – fixou-se na Guanabara, ai criando o núcleo de uma França Antártica que, durante cinco anos, constituiu uma grave ameaça para o futuro do Brasil português. Mas não impediu a continuação do projecto de criação da cidade portuguesa que então, com maior veemência, se impunha. Esta tentativa dos franceses ultrapassava já largamente a situação anterior, transformando-a numa ameaça de força capaz de expulsar os próprios portugueses do Rio de Janeiro! Dominando a pequena ilha de Serigipe – depois chamada de Vilaganhão – os franceses transformaram-na em reduto muralhado, de modo a assegurarem, naturalmente pela força, a respectiva presença. Villegaignon sonhou fundar a partir dali os alicerces de uma futura cidade, a que chamaria Henryville, em homenagem ao seu rei. Disputando o Sul do Brasil e escolhendo a sua melhor zona estratégica, o comandante levantaria uma cidade à semelhança do que fizera, por exemplo, Constantino, imperador de Roma, em Contantinopla. Seria a resposta ao favor régio que esta expedição tivera, uma vez que fora apoiada pelos reis Henrique II e Catarina de Médicis, além de contar com o auxílio do almirante de Coligny, chefe dos huguenotes franceses. Já não se tratava, pois, de um um acto de pirataria, mas de uma violação dos direitos portugueses pela Coroa de França, concretizando uma ameaça que o rei de Portugal de há muito arriscava. Era a afirmação do poder francês que, como grave ameaça à coroa portuguesa, só desapareceu em 1560.

(Manuela Mendonça, “A tardia ocupação da região de Guanabara. Insensatez política ou mentalidade antiga?”, in “Raízes Medievais do Brasil Moderno – Actas”, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 2008, pp. 293 – 294)