Seguiu-se um período de alguma agitação e, enquanto estava no porto de S. Vicente, nos fins desse ano de 1564, Estácio de Sá recebeu um pedido dos vereadores de S. Paulo, solicitando-lhe que desistisse do projecto do Rio de Janeiro e conduzisse as suas forças para salvar São Paulo, também muito ameaçada pelos índios da região. Garantiam agora que de nada serviria fundar uma nova povoação na Guanabara, se a terra de Piratiniga estava em riscos de se perder. Mas esta era a perspectiva dos moradores de São Paulo, que viam o problema somente em função da sua capitania. Contudo, o plano de Estácio era o mais eficiente, porque considerava que a criação de uma cidade no Rio de Janeiro iria contribuir para a segurança de São Paulo, Importante era que se pusesse um rápido termo aos focos de resistência dos Tamoios, pois eles partiam de Guanabara para a ameaça que faziam a Brasil. Portanto, se ali fossem vencidos, S. Paulo mais facilmente obteria a paz. Era a unidade do Brasil português que estava em causa e a fundação do Rio de Janeiro iria contribuir para essa realidade.

E assim aconteceu. De Santos, a frota portuguesa dirigiu-se, em Janeiro de 1565, para a Guanabara. No dia 26 de Fevereiro entraram na baía – “verdadeira Babilónia de águas e de ilhas” na frase de Varnhagem – e foram desembarcar numa pequena península onde mais tarde se construiria o forte de S. João, à sombra do monte depois conhecido por Pão de Açúcar. Foi ali que Estácio de Sá fundou o novo povoado, que não era mais que uma modesta cerca. A 1 de Março, “começaram a roçar em terra”, cortando madeira e desbastando o mato, erguendo, a partir de então, o mais antigo núcleo da povoação. A essa pequena cerca deu Estácio de Sá o nome de S. Sebastião, em homenagem ao jovem rei de Portugal, sob cujo signo se erguia a nova cidade. Viveram-se dias terrivelmente difíceis para os primeiros moradores, pois os nativos, ajudados e até instigados por alguns franceses que se haviam refugiado no interior, atacavam o arraial tentando, a todo o custo, impedir a construção. Por isso mesmo se pode dizer que o primeiro mês de vida da cidade do Rio de Janeiro foi de extremo sacrifício para os defensores, que eram, na sua grande maioria, também povoadores. Aos ataques inimigos aliava-se a chuva abundante que não deixava de tombar e até as provisões se esgotaram, dando origem a grandes dificuldades e até mesmo à fome. A figura de Estácio de Sá foi determinante em todo o processo, numa actividade que levou o Padre Anchieta a escrever que o capitão: “nunca descansava nem de noite nem de dia”.

(Manuela Mendonça, “A tardia ocupação da região de Guanabara. Insensatez política ou mentalidade antiga?”, in “Raízes Medievais do Brasil Moderno – Actas”, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 2008, pp. 297 – 299)

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