Quais as circunstâncias históricas que tornaram possível o aparecimento do Índio como tema literário?

Quais os meios por que as coisas do Brasil se foram progressivamente tornando conhecidas na Europa?

Qual o resultado do contacto deste conhecimento com as ideias que já existiam na Europa sobre os selvagens?

São estas as perguntas a que, antes de mais, nos propomos responder.

Quando, em 1492, Cristóvão Colombo aportou, na América Central, em S. Salvador, não lhe era fácil dar-se conta de que um Novo Mundo se tinha aberto aos Europeus.

Levado pela ideia de alcançar as Índias pelo Oeste, facilmente se convenceu de que tinha chegado ao seu destino. E quando, em 1500, Pedro Álvares Cabral desembarcava num território que viria em seguida a formar a província portuguesa do Brasil, continuava-se ainda na mesma ilusão.

É difícil agora, a distância, darmo-nos bem conta da emoção que se deve ter verificado quando, em 1507, o florentino Américo Vespúcio deu conta de que não era a Índia o território descoberto, mas sim um território completamente desconhecido, e da curiosidade intensa, quase da impaciência febril, que da Europa se ia apoderando, de conhecer exactamente as possibilidades que se encontravam nas terras recém-descobertas.

Assim se compreende que, desde então, e durante um largo período de tempo, os olhos da Europa tenham estado fixados no Novo Mundo.

Quer procurando expandir para além-mar o património recebido e a religião da terra-mãe, quer cedendo a um desejo imperioso de novidade e libertação, em breve se estabeleceu entre a velha Europa e o Novo Mundo uma cadeia de circulação e relações que não viria mais a ser interrompida.

A Espanha, desde 1519, até à segunda metade do século XVI, ocupa o México (1519-1522), o Perú (1532-1535(, a Venezuela (1520-1540), o Iucatão (1527-1547), a Colômbia (1538) e, finalmente, a Argentina e o Paraguai. Portugal continuava  ocupado na colonização do Brasil e, fascinados pelas novas descobertas, logo, após Espanhóis e Portugueses, se lançaram Franceses, Ingleses e Holandeses na rota do Novo Mundo.

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 7, 8