Todos estes dados que até aqui reunimos contribuem para nos dar uma rápida visão do lugar cada vez maior que o novo continente ia ocupando nas preocupações europeias. Mas mais nos interessa agora notar que, para além de todo este progresso material e de todos os factores económicos que estiveram em jogo durante o longo período de colonização da América, houve sempre – inúmeras provas o atestam – um interesse mais directo, de cada indivíduo, de cada explorador, por tudo o que de novo ou de diferente tinham conhecimento. E é assim que, quer por cartas, quer em narrativas de viagens, se apressam a comunicar tudo o que os impressiona ou deslumbra àqueles que, igualmente sedentos de novidade, mas impossibilitados de partir, ficaram na Europa.

O botânico preocupa-se em conhecer as espécies de plantas, de árvores, de flores, como o zoólogo vibra ao saber da existência de animais até então desconhecidos da ciência. Mas é sobretudo o homem, o Índio americano, com os seus costumes, com as suas concepções religiosas e morais e mesmo com a sua vida prática, que preocupa a sociedade europeia e que esta se empenha em conhecer nas suas menores manifestações.

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Os Descobrimentos foram, sabemo-lo bem, um dos factores dominantes do Renascimento. As concepções pseudo-científicas da Idade Média caíram como um baralho de cartas e com elas se foi, pouco a pouco, fragmentando e desagregando o teocentrismo que a tinha dominado e que foi progressivamente cedendo o lugar a novos valores. […]

Sem o homem do Renascimento, o Índio da América apenas teria existido na literatura como simples curiosidade ou diversão do espírito. E, ao mesmo tempo que aquele o enriqueceu com novas perspectivas, este forneceu-lhe matéria e temas preciosos e inesgotáveis.

Assim se compreende a avidez com que toda e qualquer informação sobre esses novos povos era acolhida. As cartas, as longas narrativas ou as simples notações de viagens, eram recebidas com entusiasmo, lidas, traduzidas, comentadas.

Desde que Colombo tornou conhecida a sua descoberta, não se descansou mais na Velha Europa. As cartas tornaram-se objecto de todas as atenções e constituíram o germe que iria dar origem a algumas das mais completas e das mais belas narrativas de viagem.

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 8 a 10