Arinos de Melo Franco, tentando, e com muita felicidade, explicar o maior interesse dispensado aos indígenas do Brasil e da América Central, em detrimento daquele manifestado pelos Índios de outras regiões, dá-nos a conhecer que eram precisamente aqueles que melhor se prestavam para ilustrar um conceito de «bom selvagem» e de vida «natural». Na verdade, ao contrário do que sucedia com os habitantes da América do Norte e do extremo sul da América, a amenidade do clima tornava possível que andassem nus; esta circunstância, embora puramente exterior, dava-lhes, no entanto, um aspecto ainda menos civilizado e mais próximo da natureza do que aos restantes indígenas americanos e, além disso, os habitantes do Perú e do México encontravam-se num grau de civilização e cultura demasiadamente elevado para poderem ser vistos como representantes da primitiva inocência.

Acresce ainda o facto de que, nos começos do século XVI, as naus europeias se dirigiam sobretudo ao Brasil, que dessa forma se ia tornando muito mais conhecido do que qualquer outra região.

Por outro lado, sendo este nome de Brasil, que o comércio do pau de tinta fez prevalecer sobre a designação de «terra de Santa Cruz», já anteriormente atribuído a uma daquelas ilhas lendárias, desconhecidas e fabulosas, que povoavam a cartografia medieval, era inevitável que esta terra recém-descoberta com ela fosse identificada no pensamento de muitos; o interesse que despertou encontra-se atestado em numerosos documentos.

Assim, logo em 1500, deparamos com a carta de Pero Vaz de Caminha, a do Piloto Anónimo e a de D. Manuel aos Reis Católicos.

Em 1501, é um italiano, Giovanni Cretico, que se ocupa dos habitantes do Brasil.

Em 1502, ou inícios de 1503, outro italiano, Américo Vespúcio, escreve uma carta a Pedro Lourenço de Médicis, carta essa que ficou vulgarmente conhecida pelo nome de Mundus Novus e cuja influência veio a ser decisiva para os conhecimentos geográficos da época. […]

Quanto ao seu conteúdo, diz-nos que nela louva Américo Vespúcio a beleza e o clima do país, assim como a forma de viver dos seus numerosos habitantes. Viviam num regime comunitário, ignorando a propriedade, a moeda e o comércio, gozavam de uma liberdade moral completa, não tinham religião, e a sua idade alcançava, em média, cento e cinquenta anos.

Por tudo isto as cartas de Vespúcio constituem, na opinião de Arinos de Mello Franco, a base da formação do mito do «bom selvagem» […]

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 10 e 11