Nenhuma das obras de que até aqui nos ocupámos tem, no entanto, o interesse das de Pero de Magalhães Gândavo, Autor de uma Historia da Província de Santa Cruz e do Tratado das Terras do Brasil no qual se contem informações das cousas que há nestas partes (1.ª ed. 1576).

Na primeira destas obras, depois de uma descrição da terra, das povoações, mantimentos, frutos, aves, peixes e outros animias, encontramos um capítulo sobre um monstro marinho, que tem o interesse de nos revelar que, na verdade, havia quem acreditasse afincadamente na existência desses seres estranhos e cruéis que povoavam paragens desconhecidas […].

São também cheias de interesse as notas que nos deixa sobre os costumes dos selvagens. Depois de os descrever fisicamente, diz que são desagradecidos, desumanos, cruéis, vingativos e excessivamente crédulos. Fala, como todos os outros exploradores e viajantes, da ausência da Fé, de Lei e de Rei entre os indígenas, simbolizada pela falta de F. L. R. no seu alfabeto […]

A posição de Gândavo é, apesar disso e no seu conjunto, bastante desfavorável aos Índios. Na segunda das suas obras a que nos referimos, ao ocupar-se dos Índios Aimorés – encontraremos daqui em diante distinções entre os Índios das várias tribos – diz:

«Vivem entre os matos como brutos animais (…). Finalmente, não tem rosto direito a ninguém, senão à traição fazem a sua».

E, depois de, entre outros factos, falar das suas lutas, da poligamia, do costume que tinham de comer carne humana e, mais demoradamente, do seu aspecto exterior, acrescenta:

«Outras muitas bestialidades usam estes Índios, que aqui não escrevo».

[…]

Na verdade, em todos os textos que até agora estudámos, cremos que, como primeira característica comum a todos eles, se nota o facto de o Índio ser visto por uma forma parcelar e, portanto, muito exterior e muito imediata, nos aspectos que mais rapidamente ressaltam de um primeiro contacto.

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 38 a 41

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