Escrevendo sobre o Brasil contemporaneamente aos exploradores e viajantes, há aqueles que nele se estabeleceram procurando civilizá-lo.

Dentre esses colonizadores, apenas os Jesuítas nos deixaram documentos sobre o Índio, pois às relações de carácter oficial interessavam apenas os problemas de organização externa. Os Jesuítas, procurando cristianizar os indígenas, ocupavam-se do Índio como pessoa, como homem capaz de um comportamento moral. Apressavam-se em seguida a dar conta dos seus trabalhos, dos seus progressos e dificuldades, aos restantes membros da Companhia, e assim nos deixaram numerosos textos cheios de interesse.

É em 1549, no dia 1 de Fevereiro, que os primeiros Jesuítas partem para o Brasil; são seis, e entre eles vai, como superior, o Padre Manuel da Nóbrega que, não só pela colaboração que prestou ao Governo Geral do Brasil, como pela firme resolução de trabalhar intensamente na conversão dos Índios, tanto relevo veio a ter entre os primeiros colonizadores. Se, contudo, a organização civil do Brasil sempre o interessou, tocava-lhe muito mais de perto a sorte dos Índios.

Diz Serafim Leite que, para além do interesse manifestado pelo modo de vida dos selvagens, aos Padres importava acima de tudo determinar a medida em que esses Índios poderiam ser cristianizados e civilizados.

É, na verdade, este, o objectivo de Manuel da Nóbrega, assim como de todos os outros membros da Companhia. Quanto ao aspecto sob o qual via os Índios, diz o Padre Manuel da Nóbrega em carta a Martin de Azpilcueta Navarro, depois de se referir às boas qualidades da terra, no que respeita ao seu clima e produção:

«Mas é muito de espantar ter dado (o Criador) tão boa terra tanto tempo a gente tão inculta, e que tão pouco o conhece, porque nenhum deus tem certo e qualquer que lhe dizem crêem. Regem-se por inclinação, a qual sempre prona est ad malum, e apetite sensual, gente absque consilio et sine prudentia. Têm muitas mulheres enquanto se contentam delas e elas deles, sem entre eles ser vituperado».

E, depois de ter falado do hábito que têm de comer os «contrários» que ficam prisioneiros de guerra, conclui:

«E nestas duas coisas, scilicet , em ter muitas mulheres e matar os seus contrarios, consiste toda a sua honra e esta é a sua felicidade e desejo, o qual tudo herdaram do primeiro e segundo homem e aprenderam daquele qui ab initio mundi homicida est».

Na Informação das terras do Brasil (Aos Padres e Irmãos da Companhia) refere-se às manhas dos feiticeiros, à facilidade com que nelas acreditam, à forma como tratam os mortos e, de novo, à maneira de matar os «contrários» aprisionados em guerra. Não são, no entanto, apenas os defeitos que contam. Têm também qualidades: possuem um certo sentido de família, são valentes e generosos.

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 42 e 43

Advertisements