O que notamos já nestes textos é uma atitude diferente daquela dos primeiros exploradores e viajantes.

O interesse pela conversão do gentio, já manifestado por Caminha, torna-se aqui o ponto fundamental, a constante de pensamento do Padre Manuel da Nóbrega.

Os costumes dos indígenas interessam portanto não já apenas em si mesmos, como curiosidade, mas na medida em que se opõem à religião católica, e é sobretudo na intenção de fazer conhecer aos membros da Companhia, que se encontravam na Europa, as dificuldades do seu ministério, que Nóbrega os descreve. De princípio entusiasma-se com a facilidade com que aceitam tudo o que lhes ensinam – 

«Ho Irmão Vicente Rijo insina ha doctrina aos minimos cada dia, tambem tem escola de ler e escrever; parece-me bom modo este para trazer os Indios desta terra, hos quais tem grande desejos de aprender e, perguntados se querem, mostram grandes desejos. Desta maneira ir-lhes-ey insinando as orações e doctrinando-os na fé até serem habiles para o baptismo. Todos estes que tratam connosco, dizem que querem ser como nós».

– mas em breve reconhece que, se acatam facilmente os ensinamentos que lhes ministram, nem por isso abandonam os seus costumes e são igualmente crédulos para com tudo o que lhes queiram dizer.

Apesar de todas as contrariedades, Manuel de Nóbrega não perde a coragem. Está bem firme na crença de que é possível a conversão dos Índios, e essa convicção reflecte-se precisamente no Diálogo sobre a Conversão do Gentio (1556-1557), um dos documentos mais interessantes desta época.  

 O diálogo trava-se, hipoteticamente, entre os irmãos Gonçalo Alvarez e Mateus Nogueira. Censuram primeiro a antropofagia dos Índios, a sua falta de governo (rei) e de religião; mas pior do que tudo é serem inconstantes. […]

Em resumo: chegou-se, em primeiro lugar, à conclusão de que os Índios são homens como todos os outros, possuidores de uma alma e, portanto, capazes de se converterem. E se esses selvagens são tão «bestiais» enquanto os europeus são «políticos e avissados», isso depende única e simplesmente das condições em que foram criados. São, portanto, na sua essência, iguais a todos os outros homens, deles diferindo apenas por circunstâncias exteriores.

No que respeita ao caso particular da sua conversão, pesando as vantagens e desvantagens que possuem em relação aos Europeus, chega-se à conclusão de que são no fundo mais fáceis de converter do que os civilizados.

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 44 a 48

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