Um outro Jesuíta que, um pouco posteriormente, se ocupou do Brasil, foi o Padre Fernão Cardim, terceiro Provincial da Companhia nessa região. É Autor de três tratados, Do Clima e terra do Brasil e de algumas cousas notaveis que se achão assi na terra como no mar, Do Principio e Origem dos Indios do Brasil e Narrativa Epistolar, posteriormente reunidos num só volume, Tratados da terra e gente do Brasil. […]

As que para nós têm mais interesse são esta e a Narrativa Epistolar.

Apesar dos seus tão falados costumes de matar os contrários e comer carne humana, os Índios aparecem nestas obras a uma luz bastante favorável. Em primeiro lugar é elogiada a sua liberalidade […]

Posição já muito diferente quanto aos Índios tem o Padre Simão de Vasconcelos. Refere-se aos mesmos factos que Cardim, mas dá maior relevo aos desfavoráveis. Se reconhece que «são liberaes, engenhosos, magnanimos, e davidosos», também diz que «vivem a maneira de feras selvagens montanhesas; nem seguem fé, nem lei, nem rei, pela qual razão faltam na sua lingua F. L. R.».

[…]

Importa agora salientar que os testemunhos destas figuras principais que apontamos não se encontram isolados, mas sim enquadrados num conjunto. Há dezenas de outros Jesuítas que, trabalhando no Brasil e escrevendo para a Europa, nos deixaram indicações que vêm confirmar o que Nóbrega, Anchieta, Cardim e Simão de Vasconcelos disseram. Essas cartas, assim como algumas destes Autores que citámos, publicadas em várias colectâneas como Cartas Jesuíticas, Novas Cartas Jesuíticas e Cartas Avulsas, foram agora reunidas numa só obra, Monumenta Brasiliae, por Serafim Leite, S. J..

As referências destas cartas aos Índios do Brasil são pouco extensas.

Mostram-se uns Autores desfavoráveis aos indígenas, outros favoráveis, mas nada acrescentam ao que disseram aqueles cujas obras analisámos. Têm, no entanto, o interesse de, em conjunto, confirmarem toralmente os factos apontados pelos Autores a quem dedicámos particular referência.

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 51 a 54

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