Falámos até aqui de obras que foram escritas a partir de um contacto directo, embora mais ou menos prolongado, com o Índio do Brasil. Mas teriam estes escritos despertado profundo interesse na Metrópole? É para duvidar que assim tenha acontecido.

A leitura dessas narrações despertaria certamente curiosidade. Mas, acima de tudo isso, havia um facto que, desde o início do século XVI, vinha monopolizando todas as atenções – o descobrimento do caminho marítimo para a Índia, que exercia um poder fascinante sobre as mentalidades do século. Como já vimos, o próprio prestígio de que a América gozou foi em parte motivado pela confusão que se estabeleceu entre ela e a Índia.

De qualquer forma, aos Portugueses interessava muito mais o caminho que eles próprios tinham descoberto; e, quando o engano de Colombo se desfez, maior realce essa descoberta ganhou ainda.

Percorrendo a historiografia portuguesa dos séculos XVI e XVII, damo-nos bem conta deste predomínio da Índia sobre o Brasil.

Além daqueles que com este tiveram contacto directo, e de que já nos ocupámos, as referências que a ele se fazem são poucas e rápidas, existindo apenas uma obra que se ocupa exclusivamente do Brasil, enquanto os tratados sobre a Índia abundam.

Essa obra que trata do Brasil é a Nova Lusitania, história da guerra brasílica de Francisco de Brito Freire.

Nela se ocupa o Autor dos esforços empregados e das lutas travadas para conseguir conservar e civilizar o Brasil, fazendo também referências aos seus habitantes: 

«Inclinados a tomarem por molheres suas cunhadas. Cobardes. Sopresticiosos. Amigos de se lavar nos rios. Chamando tambem Parascé, com pouca corrupção de Parasceve, a aquelle modo barbaro, das suas festas mais solenes».

Refere-se ainda a outros costumes, tantas vezes descritos pelos viajantes, como os de andarem nus, furarem os beiços, comerem carne humana – e, embora as descrições sejam bastante breves, são as mais extensas que se encontram entre os historiadores.

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, p. 55