Temos, portanto, dentro da corrente tradicional, várias posições que importa distinguir. Num primeiro grupo incluiremos todos aqueles que nos apresentam os Índios com qualidades e defeitos, embora diferentes dos Europeus.

É nesta primeira categoria que se integra a quase totalidade das obras que estudámos. A ela pertencem os historiadores, viajantes e exploradores dos séculos XVI a XVIII, os colonizadores (Jesuítas), Nuno Marques Pereira, os Índios de Basílio da Gama, excepto Lindóia, os de Santa Rita Durão, excepto Paraguassú e em parte, Gupeva, os de Tenreiro Aranha, Rocha Pita, Domingos do Loreto Couto, Ribeiro de Sampaio, Joaquim José Lisboa, Frei Francisco de S. Carlos, Cavaleiro de Oliveira, e, em parte, Cruz e Silva.

No entanto, mesmo no conjunto de todos estes autores, há uma certa evolução na forma por que se tratam o Índio.

Os viajantes e exploradores viam-no como um ser curioso, de que importava sobretudo descrever as singularidades de costumes. Com os colonizadores nota-se já uma mudança – o Índio passa a interessar em si mesmo, como pessoa humana capaz de um comportamento moral, devido ao maior contacto que os colonizadores com ele tinham. Há, assim, um progresso nítido.

Em seguida o Índio entra na literatura propriamente dita, onde é visto e descrito quer mais quer menos favoravelmente, ora sob uma forma um tanto exterior, ora com mais profundidade.

Existe aqui também uma nova transição, e de grande importância, a marcar. Com Basílio da Gama, os Índios ganham personalidade. Continuam a ser bons e maus – mas com a diferença de que, enquanto em todos os outros escritores eram atribuídos defeitos e qualidades ao Índio em geral, encontramos neste os dois aspectos dissociados – Índios bons e Índios maus, como em qualquer obra podemos encontrar personagens boas e más.

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Numa outra alínea poderíamos incluir aqueles que se apresentam como verdadeiros Europeus. Tais são Lindóia, de O Uraguai de Basílio da Gama, Paraguassú, do Caramurú de Santa Rita Durão, e Guaçu, do mesmo poema.

A europeização da primeira é ainda bastante leve. Com Paraguassú vai-se já mais longe. Quanto a Lindóia, nada tinha havido que contrariasse expressamente as características físicas da raça a que pertencia, mas aquela é já descrita como possuindo tez branca e olhos claros. Além disso, Lindóia aparece apenas actuando mas não raciocinando sobre questões filosóficas. Paraguassú conversa com Diogo Álvares Correia por tal forma que seria impossível numa Índia ainda inculta e afastada de qualquer civilização, como era quando Diogo Álvares a conheceu.

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Ainda dentro da corrente tradicional, temos a contar com um terceiro grupo – aqueles que, referindo-se ao Índio, apenas se interessam por ele na medida em que lhes serve para a exaltação da acção civilizadora e cristianizadora dos Portugueses. Não interessam os costumes, nem saber se são verdadeiramente homens, se são bons ou maus, se melhores ou piores que os Europeus. Interessa apenas dizer que são selvagens, bárbaros, pondo em relevo o esforço dispendido e a vitória conseguida. É esta a posição de Cláudio Manuel da Costa no seu poema Vila-Rica, de Alvarenga Peixoto em O Sonho, ao descrever-nos um Índio que, representando todo o Brasil, é o primeiro a louvar e a agradecer a civilização que lhe foi trazida, confessando-se leal súbdito dos monarcas portugueses, e ainda de José Bonifácio de Andrade e Silva, que, nos seus já citados Apontamentos para a civilização dos Índios bravos do Império do Brasil, faz a apologia da acção desenvolvida. Em todos eles o Índio está praticamente ausente e é quase um pretexto.

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 107 a 109

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