Apesar da determinação das longitudes nos séculos XV a XVII ser obtida por estima, o seu cálculo não levava normalmente a erros excessivos, pelo que muitos autores têm admitido que Pedro Álvares Cabral ordenou intencionalmente um desvio para ocidente, com o objectivo de conhecer uma terra de que poderia ter informações de natureza muito imprecisa ou por querer saber se para ocidente haveria alguma terra no âmbito da demarcação do Tratado de Tordesilhas. A tese da intencionalidade do desvio da armada para ocidente tem a seu favor, entre outros argumentos, a informação registada na carta que Mestre João Farras escreveu a D. Manuel de Porto Seguro no dia 1 de Maio de 1500, na qual recomendava ao rei que visse a situação do sítio de onde escrevia num mapa que tinha Pêro Vaz da Cunha, o Bisagudo, e se deduz ser posterior a 1482, ainda que ele fosse incompleto, pois não indicava se aquela terra era habitada. Seria de estranhar que Mestre João estivesse a remeter o rei para uma das ilhas míticas que nessa altura ainda se registavam nos mapas. Devemos observar, contudo, que o eventual conhecimento dessa terra não se encontrava registado na carta padrão do Armazém da Guiné, pois se ela lá estivesse indicada Mestre João Farras não teria de evocar aquele mapa na posse de um particular.

Pedro Álvares Cabral não conhecia a terra situada na região de Porto Seguro onde desembarcou, mas poderia ter recebido instruções no sentido de que, no decorrer da sua navegação, durante a qual necessitava de se afastar para ocidente, forçasse o rumo nessa direcção para verificar se ali poderia haver terras, de que já haveria indicações, nomeadamente no mapa-mundi de Pêro Vaz Bisagudo. Não se pode excluir a possibilidade de haver informações, recolhidas desde, pelo menos, 1493 o período das negociações que levaram a deslocar mais 270 léguas para ocidente a linha divisória acordada no Tratado de Tordesilhas, no âmbito das quais se abarcava o território brasileiro. Como também já referimos, a zona correspondente à foz do Amazonas poderia ter sido já explorada por Duarte Pacheco Pereira em 1498, de acordo com as afirmações que nesse sentido ele faz no seu Esmeraldo de Situ Orbis, e vão ao encontro de indicações expressas pelos Reis Católicos em 1493 e por Cristóvão Colombo em 1498. Quando neste último ano o genovês foi ao arquipélago de Cabo Verde, de onde rumou para ocidente, tinha como objectivo identificar terras que suspeitava serem do conhecimento de D. João II quando este negociou o Tratado de Tordesilhas, tendo sido então que ele descobriu a Venezuela.

“Breve História dos Descobrimentos e Expansão de Portugal”, de José Manuel Garcia, Editorial Presença, 1999, pp. 69 e 70

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