Para lá disso, um rei poeta que plantou caravelas; um Infante genial e fanático que sonhou impérios; tecnologias de ponta na arte de marear a privilegiar-nos na grelha de partida.

E assim como, segundo alguns, às tantas Deus teria dito «faça-se Newton», terá dito também: «descubra-se a América». Ter-se-iam encarregado disso, como agentes da sua vontade, Colombo, Vespúcio e Cabral. Colombo terá descoberto a hoje América do Norte, supondo que tinha aportado à Índia. E nessa ilusão morreu, apesar de por mais de uma vez ter repetido a façanha. Vespúcio terá chegado até à foz do rio Amazonas, nas igualmente sem saber aonde. Cabral terá atingido Porto Seguro julgando ter aportado a uma ilha.

Se houvéssemos de perfilhar a tese do achamento por erro, ou por acaso, contra a tese da intencionalidade, tudo se teria passado à revelia de uma deliberada intenção. A descoberta do depois chamado Novo Mundo, identificar-se-ia antes com a vontade de um Deus que gostasse de «jogar aos dados».

Sou, claramente, pela tese da intencionalidade. Não, ou não só, porque é a que melhor serve o meu orgulho de ser português. Mas por um conjunto de razões, entre as quais avulta a opção feita por D. João II no Tratado de Tordesilhas, a qual melhor se compreende conhecendo ele as terras a haver segundo a partilha feita.

Os argumentos em contrário encontram fácil contraveneno na política de sigilo praticada pelos reis de Portugal e de Castela. O sigilo valia mesmo em relação a Vaz de Caminha, o prodigioso cronista do achamento? Ou limitou-se ele a colaborar no segredo?

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da Assembleia da República, António Almeida Santos, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 11 a 15