É o segredo que explica as exíguas quatro linhas da carta de D. Manuel ao Rei de Espanha a anunciar a achamento, perdidas entre um vasto texto sobre a Índia.

É o segredo, conjugado com o pouco entusiasmo exteriorizado por Cabral após o achamento, e com o pouco interesse de início despertado pela boa nova. Só décadas depois a terra achada começou a ser povoada.

São o segredo e os 300 anos de silêncio sobre a carta de Caminha, entretanto desaparecida. É a chocante falta de notoriedade, ao tempo, do feito de Cabral e deste mesmo, logo preterido por Vasco da Gama no comando de uma nova expedição à Índia. Daí o seu exílio voluntário numa quinta em parte incerta do termo de Santarém, antecipando de séculos o retiro para Vale de Lobos do grande Alexandre Herculano.

É enfim o segredo e o facto insólito de Cabral ter sido enterrado em campa rasa, e só mais tarde transladado para a Igreja da Graça, em Santarém, com a seca inscrição do seu nome e nenhuma referência ao seu feito, onde viria a ser descoberto, curiosamente, por um historiador brasileiro, outros três séculos depois!

A Índia era a jóia das ambições e das cobiças. A ela, e aos que contribuíram para a sua descoberta, toda a honra e toda a glória. Títulos honoríficos e copiosas tenças premiaram Vasco da Gama. O esquecimento ou o quase esquecimento foi a paga de Álvares Cabral.

Quem, enfim, o tornou célebre e grande, como hoje se reconhece que foi? A celebridade e a grandeza de que veio a revestir-se a coisa achada: o portentoso Brasil. Perante o milagre da sua unidade, obra prima do génio português e brasileiro; da defesa e do alargamento do seu território, em reiterado desfeiteamento da linha divisória pactuada; tendo em conta o fraccionamento em 18 países da América espanhola; e sobretudo o prodígio da sua tão rica identidade, que fazem dele um caso civilizacional sem paralelo, quis-se naturalmente conhecer melhor quem o descobriu.

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da Assembleia da República, António Almeida Santos, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 11 a 15

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