O nome era conhecido. A personalidade do descobridor não tanto!

Mas não no-lo descrevem com cópia de pormenores o Pêro Vaz de Caminha, na parte relativa ao achamento, e o Piloto Anónimo, na parte que diz respeito ao prosseguimento da viagem até à Índia e regresso, após ter lançado as primeiras bases do nosso comércio com o Oriente?

Sim e não. Descrevem as suas determinações, as suas cautelas, os seus ardis, a sua tolerância, a sua ira quando em Calecut foi precisa violência e foi precisa coragem. Mas não os seus antecedentes, a sua personalidade, o que veio a saber-se depois. As pazadas de ingratidão e esquecimento sobre ele lançadas fizeram o resto.

Cinquenta anos depois, Camões, o genial cantor da nossa gesta de quinhentos, incensa o Infante e o Gama, exalta o Albuquerque e o Magalhães, tantos outros. Sobre Cabral, nem um verso a registar o seu nome. De Lisboa ao Japão e a Timor, não há lugar que não refira ou mesmo descreva. Sobre o depois Brasil, só ao fechar o pano do seu imortal poema assim avaramente se lhe refere: «Mas cá onde mais alarga ali tereis / Parte também que o pau vermelho nota. / De Santa Cruz o nome lhe poreis / Descobri-la-á a primeira vossa frota».

O próprio Fernando Pessoa, que na sua Mensagem quase não deixa grande figura histórica sem poema, e multiplica os que dedica ao «louco» rei Sebastião, esquece Cabral e a descoberta do Brasil.

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da Assembleia da República, António Almeida Santos, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 11 a 15