Mas, no ano que passa, não é a independência do Brasil que celebramos. É o seu achamento. E foram portugueses que o acharam. Acharam um Éden em que um punhado de inocentes havia escapado ao pecado original.

«Índios» foram chamados na sequência do erro de Colombo. Julgou – já o disse – ter chegado à Índia.

E foi a partir dessa prodigiosa natureza e desse fermento humano, depois caldeado com escravos de África, colonos e missionários europeus, que levedou essa Pátria sem igual que é o Brasil.

«Tal pai tal filho» – disse num poema célebre pela concisão o coração dividido de Jorge de Sena.

Mas não é inteiramente verdade. É-o na língua, no humanismo, no universalismo, no ideal da miscigenação, na afinidade das culturas… Mas não na alegria, no estoicismo boémio, no folclore, na filosofia de vida. Diónisos naturalizou-se brasileiro.

O Brasil, nestes tempos em que as identidades se nivelam e se apagam, permanece idêntico e único. Nessa medida ele é apenas igual a si próprio.

Nenhuma Pátria se fez sem sofrimento. E o Brasil não escapou à condenação de «ter de passar além da dor». O prodigioso solo do Brasil foi arroteado com sangue, suor e lágrimas. Mas não foram esses os «tijolos» com que se construiu o Mundo?

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da Assembleia da República, António Almeida Santos, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 11 a 15