Os estudiosos já nos fizeram compreender que o achamento da Terra de Vera Cruz não se deu por acaso. O Novo Mundo estava na rota do capitalismo comercial. O Brasil foi revelado ao Ocidente na esteira da globalização das trocas. Mas isto não ocorreu de maneira mecânica, aleatória. A conquista se fez, sabemos todos, segundo o espírito empreendedor da Corte manuelina, segundo a mesma «ética aventureira» que Sérgio Buarque de Holanda consideraria mais tarde o «elemento orquestrador por excelência» do território brasileiro. Da epopeia de Cabral às entradas e bandeiras foi providencial a capacidade do português de desvendar novos caminhos, sempre com maleabilidade.

Fernando Pessoa disse uma vez que «nunca um verdadeiro português foi português, foi sempre tudo». Outra não é a mensagem que se extrai da formação do povo brasileiro. O colonizador soube transigir e se adaptar às culturas indígena e africana, criando o tipo versado nos trópicos a que tantas loas fez Gilberto Freyre. O tempo viria confirmar que a lição foi bem aprendida, com a acolhida pelo Brasil nos últimos 150 anos de contribuições étnicas de todos os continentes. Somos, mais do que nunca, híbridos, lusitanamente híbridos.

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da República Federativa do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 19 a 23