Permitam-me recordar que durante um hiato de nossa história faltamos ao ideal de congraçamento democrático. Refugiamo-nos no arbítrio, sob um discurso nacionalista, de costas para a comunidade internacional. Mas foi com convicção redobrada na democracia que retomamos à normalidade constitucional. Afastamos de vez o estigma do autoritarismo e retomamos o diálogo com o mundo, inclusive para defender, com o amparo da opinião pública interna, o valor universal da democracia.

Não faço esta digressão por gosto académico, mas imbuído da responsabilidade de homem público, com os olhos postos no presente. Brasil e Portugal comungam hoje do sentimento de mais estrito repúdio à intolerância política e étnica, manifeste-se ela dentro ou fora de nossas fronteiras. O Brasil que faz questão de situar o respeito à democracia como condição para ingresso e permanência no Mercosul é inteiramente solidário com a preocupação do Governo português em não aceitar o recrudescimento autoritário em solo europeu. Já se foi o tempo dos autocratas, das sociedades divididas.

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Apraz-me perceber a afinidade dos objectivos que hoje se perseguem no Brasil e em Portugal. Coincidimos em perseguir eficiência económica com equidade social. Reconhecemos o papel primordial do mercado na geração de riquezas, mas prezamos a função insubstituível do Estado como garante da coesão social. Estamos empenhados em avançar os respectivos processos de integração, mas não descuramos do objectivo mais amplo de associação dos mercados regionais. Continuamos, Brasil e Portugal, universalistas. Disse, ao iniciar, que Brasil e Portugal têm essa vocação universalista. Reiterei a importância da integração regional no mesmo sentido que o nosso Presidente aqui acabou de se referir. Integração regional indispensável para que possamos fazer frente aos desafios deste processo actual de globalização.

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da República Federativa do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 19 a 23