Se é verdade que a globalização como processo do capitalismo comercial antecede de séculos e coincide com o século dos Descobrimentos, se é verdade que, em algum momento, Portugal esteve à frente, à vanguarda mesmo, desse primeiro processo de integração do mundo sob a égide capitalista, não deixa de ser verdade que, pelos desenvolvimentos mais recentes – não apenas em função dos desenvolvimentos tecnológicos mas também pela dispersão da localização das empresas, das indústrias, e pela capacidade que os centros de comando têm hoje de, à distância, controlarem os fluxos de produção –, não deixa de ser verdade, repito, que a globalização, que agora se antecipa, se desenvolve no plano financeiro e que esse plano financeiro, somada ao desenvolvimento tecnológico inexcedível – pelo menos, até agora – das múltiplas formas de comunicação rápida, com a Internet à frente de todas, não deixa de ser uma forma de globalização que, ao mesmo tempo que possibilita avanços e permite integrações inesperadas, também traz ameaças fortemente inesperadas. E a referência feita pelo Dr. Almeida Santos às crises de Ásia, às crises da Rússia e suas consequências sobre a América Latina e, especialmente, sobre o Brasil, são a prova mais eloquente de que, independentemente da gestão doméstica, em certos momentos, os fluxos que advêm dessas modificações rápidas do capital podem produzir consequências que são não só inesperadas como podem vir a ser desastrosas. E só não o foram no caso brasileiro porque nós tínhamos a capacidade interna, doméstica, nacional, de reagir e de manter a coesão social.

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“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da República Federativa do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 19 a 23