O Estado, para ser capaz de corresponder a esse desafio e, ao mesmo tempo, não se apresentar como o oposto da vocação universalista da qual somos herdeiros, não pode mais ser o Estado que se encerra nos meandros da burocracia ou da tecnocracia e que responde autoritariamente aos «destinos imaginários» de um povo; senão que tem de ser um Estado poroso, permeável aos movimentos da sociedade, que conviva de uma forma absolutamente transparente com os fluxos e os refluxos da própria sociedade, sem o quê esse Estado deixará de ter viabilidade no mundo que se aproxima. Razão adicional, portanto, para que nós, brasileiros e portugueses, herdeiros desse espírito universalista, herdeiros também de experiências históricas não apenas como experiências históricas daqueles, como Portugal foi no passado, capazes de serem povos reitores do mundo, mas de uma experiência histórica de povos que, a duras penas, conseguem impor a sua identidade no mundo, para que nós caminhemos juntos nessa concepção, nessa compreensão do que significa esse regionalismo aberto e essa continuidade – se assim posso dizer – de um tipo de vocação diante de mudanças tão profundas como as que vêm ocorrendo no mundo contemporâneo. Eu dizia que nós continuamos empenhados em avançar os processos de integração, mas não podemos descurar do objectivo mais amplo de associação dos mercados regionais. Continuamos, portanto, Brasil e Portugal, universalistas.

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da República Federativa do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 19 a 23