Quem vos fala é Presidente de um país que já foi por ele qualificado como não mais subdesenvolvido mas ainda injusto. É verdade! Essas diferenças sociais, as concentrações de renda, que são mais marcantes ainda no Brasil do que em Portugal, não vão desaparecer, não se vão esboroar apenas pela vontade ou apenas pela denúncia da sua existência. Elas dependerão de uma acção determinada, de uma acção coesa, de uma acção sustentada pela sociedade que se alonga no tempo, que não provoca o milagre da distribuição dos pães, mas que precisa de ter sempre vivo este valor de uma busca de mais igualdade e de melhor distribuição da prosperidade que o mundo hoje é capaz de gerar.

Em mais do que uma oportunidade, ao referir a este tema, eu disse que se no passado nós, brasileiros, podíamos nos escudar na falta de recursos para proporcionar vida melhor a todos, hoje, já não nos é dado mais essa válvula de escape. Hoje, a luta pela democracia, a luta pela igualdade, a luta pelos direitos humanos tornou-se um imperativo moral, porque nós já temos condições de dar os passos. Passos que poderão ser tímidos – e, às vezes, o são; às vezes, implicam uma parada táctica, mas não podem, nunca, perder de vista no horizonte o objectivo final, que é o de transformar esses valores milénio afora, mas quanto antes melhor, em valores que deixem de ser apenas palavras mas que passem a ser modos de viver. É para esse modo de viver justo, melhor e comum que brasileiros e portugueses estamos cada vez mais unidos. E eu não poderia deixar de, embora improvisadamente, diante desta Assembleia que me recebeu de forma tão calorosa, dizer também, de dentro da minha alma, os valores que animam a minha luta.

É com esta nota de confiança que concluo minhas palavras. Confiança em um futuro partilhado, que inclua nossos vizinhos. Confiança no progresso e na justiça social. Confiança na democracia e em nossa capacidade de sermos dela guardiães. Confiança no universalismo lusófono. Confiança no encantamento mútuo que desde Pêro Vaz de Caminha aproxima brasileiros e portugueses.

Muito obrigado.

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da República Federativa do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 19 a 23

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