I – Estudos e biografias de Vasco da Gama

Com um total de 99 títulos, é certamente a categoria mais genérica e mais vasta, abarcando desde pequenos trabalhos de investigação e artigos de enciclopédia até às grandes biografias. Procurou-se remeter para a secção VII todos os trabalhos meramente ilustrativos ou de simples divulgação. Há, evidentemente, obras de valor muito desigual, mas é aqui que se encontram os principais estudos sobre Vasco da Gama. O mais antigo, que nos pode parecer hoje de valor limitado, é o do Visconde de Santarém. Trata-se de um pequeno opúsculo datado de 1839, extraído da Encyclopédie des Gens du Monde, (tomo XII, 1ª pte., p. 87 e segs.), no qual o primeiro grande vulto da historiografia dos Descobrimentos Portugueses traça o perfil do navegador, submetendo ao seu método positivista as fontes cronísticas então disponíveis e o relato chamado de Álvaro Velho, publicado no ano anterior.

O ano de 1880, com o centenário da morte de Camões e a trasladação dos restos de Vasco da Gama para Lisboa, marca uma nova fase de trabalhos acerca do capitão, ainda muito marcados pela figura do Poeta e da sua epopeia, como se verá abaixo. Só em 1898 é que o feito do Gama seria celebrado, motivando a edição de um grande conjunto de trabalhos. O mais importante dos quais terá sido talvez o de Teixeira de Aragão, com o nome de Vasco da Gama e a Vidigueira: estudo histórico, que constitui a primeira grande biografia do navegador, apoiada por um apêndice documental. Trata-se, na verdade, da 3ª edição, revista e aumentada, de uma obra anterior, iniciada em 1871 com o nome de D. Vasco da Gama e a vila da Vidigueira. Por esta altura, estalam os primeiros debates: um deles ocorreria entre o Visconde de Sanches Baena e António Zeferino Cândido, tendo este saído na defesa do que considerava ser a “honra” de Vasco da Gama, alegadamente ofendida pelos esforços do Visconde em denegrir a sua imagem em relação a Pedro Álvares Cabral.

Em 1902, uma descendente do almirante da Índia, D. Maria Teles da Gama, edita Le comte amiral D. Vasco da Gama, com a intenção clara de louvar os feitos do navegador e de traçar o percurso da Casa da Vidigueira até ao momento. Mau-grado a sua importância na época, é uma obra de valor desigual e de estrutura assaz estranha e desiquilibrada, com uma 1ª parte onde é traçada a biografia de Vasco da Gama e a História de Portugal até à época dos Filipes, para saltar subitamente para a trasladação das ossadas do conde-almirante, na década de 1880. Uma 2ª parte descreve as relações com a Etiópia no século XVI; uma 3ª relata a descendência de Vasco da Gama até ao presente, com um apêndice documental, desde o século XVI ao XIX; por fim, uma 4ª parte, que consta do relato da primeira viagem, chamado de Álvaro Velho.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174