A biografia do navegador português foi gradualmente explorada ao longo das décadas seguintes, no período que medeia os centenários da sua morte (1924) e do seu nascimento (1969). Foi editado um número considerável de trabalhos, o que permitiu um melhor conhecimento da vida, das acções e da época de Vasco da Gama. Além-fronteiras, o interesse crescente pela figura, como de um modo geral pela expansão portuguesa, traduziu-se sobretudo em obras de divulgação (cf. VII), embora alguns trabalhos mereçam aqui uma especial menção, como os de Jean-Paul Alaux (1931), Albert Tonneaux (1948) e Henry Hart (1950), que são, de algum modo, paradigmáticas. O primeiro é autor de um livro de cariz monumental, ilustrado e próximo das obras de divulgação, que encontra no trabalho de Tonneaux um tratamento diametralmente oposto: erudito e crítico, apesar da sua abordagem generalista. Sea Road to the Indies, de Hart, é um pouco a síntese de ambos, no que toca ao modo de análise dos temas e das questões. Trata-se de uma obra geral mas bem documentada, assente nas fontes portuguesas, procedendo o autor ao enquadramento da figura de Vasco da Gama na sua época. A sua intenção é, como afirma, divulgar a biografia do navegador e os seus feitos, assim como preencher o vazio informativo (certamente em obras de língua inglesa) sobre a contribuição dos portugueses para o descobrimento do Mundo.

Em Portugal, o mais importante estudo sobre a figura em causa viria a surgir em 1973, pelo punho de Armando Cortesão. Uma espécie de abordagem hiperbólica de várias teses presentes na historiografia portuguesa da época, como a célebre “política do sigilo” desenvolvida sobretudo por Jaime Cortesão, a obra de A. Cortesão gira em torno de vários vazios e dados intrigantes nas fontes e na conjuntura da época, nomeadamente no período nebuloso que medeia a expedição de Bartolomeu Dias e a viagem do Gama. Segundo o autor, estamos perante um verdadeiro “mistério”, de que Vasco da Gama é o protagonista. Partindo da discussão do significado da palavra “descobrimento” e passando pelo Tratado de Tordesilhas e pela política de D. João II, Cortesão conduz o seu raciocínio no sentido de demonstrar que o futuro Conde da Vidigueira terá comandado uma ou várias expedições para além do Rio do Infante (limite da viagem de Bartolomeu Dias), algures na década de 1490. Já na época em que a obra foi escrita, várias das premissas em que se apoia O Mistério de Vasco da Gama foram postas em causa, como as informações respeitantes ao célebre Ibn Madjid.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174