Passados quase cem anos sobre a obra pioneira de Teixeira de Aragão, pouco mais se avançou no que toca à descoberta de nova documentação que permita iluminar a biografia do navegador, nomeadamente a sua juventude. Em 1990, Isaías da Rosa Pereira publicou, pela mão da Academia Portuguesa de História, documentação do cabido da Sé de Évora que demonstra o que já outros autores, como Teixeira de Aragão e o Visconde de Sanches Baena, haviam confusamente mencionado: que a 5 de Novembro de 1480 vários filhos de Estêvão da Gama receberam ordens de tonsura e que o futuro descobridor da Índia era um deles, mais precisamente o segundo. Um outro Vasco da Gama recebera igualmente a tonsura, na realidade o filho mais velho, mas ilegítimo, de Estêvão da Gama. Assim se explica o título da obra, perfeitamente escusado, já que a interrogação (Qual dos dois da Gama foi à Índia em 1497?), para além de não fazer qualquer sentido, nem sequer é ventilada pelo autor no decorrer do trabalho.

Exceptuando o biénio de 1997/98, poucos trabalhos acerca do navegador vieram a lume nos últimos anos. Um deles (da autoria do Marquês de Abrantes) aborda uma questão deveras interessante, a da ascensão social dos Gama. Contudo, acusa algumas insuficiências, a menor das quais não será certamente a ausência da mais elementar bibliografia, certamente mais útil ao leitor que a listagem das obras do autor, incluída no final do artigo.

Em 1995, R. V. Duchac, Professor de Filosofia em Marselha, desconhecido, tanto quanto foi possível apurar, nas lides da História dos Descobrimentos, publica um curioso trabalho chamado Vasco da Gama – L’orgueil et la blessure. Oscilando entre a ficção e o ensaio histórico, o autor utiliza uma personagem bíblica, o demónio Asmodeu, para narrar uma viagem a Lisboa (seguindo aparentemente os passos que o próprio terá percorrido) com o objectivo de escrever uma biografia do Gama. Introduz diversos elementos de reflexão, desde as peripécias da pesquisa bibliográfica (tanto nos alfarrabistas da cidade como na Biblioteca Nacional) a várias questões subjacentes à biografia do navegador: o estado actual dos descendentes do Gama, as relações deste com o seu irmão Paulo, o papel do pai (Estêvão da Gama), o problema da nomeação por D. João II para comandar a viagem, a trasladação dos restos mortais na década de 1880, entre outras. Embora Duchac não consiga escapar a uma certa abordagem “turística” a Lisboa e a Portugal, demonstre alguma ingenuidade, no que toca sobretudo ao tratamento da bibliografia e das fontes, que manifestamente conhece mal, e acabe por não distinguir exactamente onde acaba a História e começa a ficção, a obra não deixa de merecer atenção, por introduzir reflexões acerca do mito de Vasco da Gama e constituir um interessante ensaio sobre a personagem, saído da pena de um não-historiador.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174