A aproximação do corrente ano de 1998 trouxe uma nova vaga de estudos e ensaios sobre Vasco da Gama. Há três obras capitais que merecem a maior atenção, constituindo, cada uma à sua maneira, marcos na historiografia sobre o navegador: os trabalhos de Adão da Fonseca, Geneviève Bouchon e Sanjay Subrahmanyam.

Comecemos pela primeira. O autor é um historiador de renome e de bibliografia consagrada sobre a época, nomeadamente acerca da figura de Bartolomeu Dias. Profusamente ilustrada, numa verdadeira edição de luxo patrocinada pela Expo ’98, a obra não escapa, contudo, a uma certa convencionalidade no tratamento do tema. Divide-se em três partes, aliás, em sintonia com o título: “O Homem”, “A Viagem” (“a viagem de 1497”; “a viagem de 1502-1503”) e “A Época” (“a Índia que Vasco da Gama pensa encontrar”; “a Índia que Vasco da Gama encontra”; “Vasco da Gama e a política do seu tempo”). O discurso é meticuloso e pormenorizado, embora frequentemente descritivo, não arriscando grandes rasgos interpretativos nem tentativas de explicação de algumas questões ainda nebulosas, como o período de arrefecimento das relações entre o navegador e D. Manuel. Há alguns deslizes, como o de confundir a língua malaia com a malaiala (do sul da Índia), ao tratar do pequeno léxico, anexo ao relato da primeira viagem, dito de Álvaro Velho (p. 179). Embora o erro se possa imputar a F. Hümmerich, de onde foi retirada a informação, não deixa de revelar falta de cuidado. O capítulo dedicado à Viagem é rigoroso e seguro, com quadros comparativos da armada de Vasco da Gama e a de Cabral, listas de tripulantes e de mantimentos e, finalmente, a calendarização pormenorizada das duas viagens efectuadas pelo Gama. Já a terceira parte revela um menor à-vontade, sobretudo quando traça o quadro do mundo do Índico nos finais do século XV, escorando-se então em G. Bouchon, S. Subrahmanyam e C. R. Boxer. Um epílogo-balanço completa a obra, devidamente ilustrado com uma citação de Jean-Paul Sartre. Em apêndice, apresenta o relato dito de Álvaro Velho. A bibliografia, analítica e comentada, é muito útil; lamente-se apenas a falta de um índice remissivo.

Segue-se a obra de Geneviève Bouchon. Trata-se de um trabalho que em nada desmerece o longo currículo da autora, Directeur de recherche do Centre National de la Recherche Scientifique de Paris, especialista de História do Índico e responsável, a par de outros nomes, pelo relançamento dos estudos sobre a expansão portuguesa na Ásia. A estrutura do livro não apresenta novidades: inicia-se com os antecedentes e o enquadramento da biografia de Vasco da Gama e termina com a morte do protagonista. O aparato crítico, no que toca a notas de rodapé, é mínimo e as preocupações de erudição, quase inexistentes. A obra é escrita em tom desenvolto e ritmado, quase narrativo, mas é dotada de um grande rigor, conseguindo dosear o enquadramento histórico com o pormenor explicativo, os dados aceites pela historiografia com o campo da mera hipótese. Numa palavra, lê-se num fôlego, demonstrando uma grande segurança no que toca às questões de história asiática e um notável cuidado e contenção quando aborda problemas em que se sente menos à vontade, nomeadamente as referentes à História de Portugal. Aqui chega a cometer alguns deslizes, o mais flagrante dos quais será porventura o de afirmar, ao falar da alteração da conjuntura política após a morte de D. João II e os que denegriam o defunto monarca, que este apenas explorara costas desertas, com expedições que pouco mais teriam rendido que algum cobre, marfim e escravos (p. 97 da ed. francesa, p. 78 da ed. portuguesa). E o ouro da Mina?

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174